Pode haver concertos em igrejas?

Em Cem Soldos, um concerto numa igreja causou a indignação de fiéis. Em Beja, igrejas e capelas fecharam as portas à música.

Foto de Carlos Martins/DR

O festival Bons Sons já foi em Agosto mas um vídeo publicado recentemente num blogue religioso incentivou uma discussão sobre se as igrejas devem ser exclusivamente locais de culto ou acolher outras iniciativas, como concertos.

O debate não é, todavia, novo e tão pouco circunscrito à aldeia de Cem Soldos, no distrito de Santarém, onde decorre desde 2008 o Bons Sons. Mais abaixo, no distrito de Beja, o actual bispo vedou igrejas e capelas à cultura e ao turismo. Os concertos do festival Terras Sem Sombra, desde 2003 realizados nesses espaços, tiveram de encontrar novas casas em centros culturais, em teatros, ao ar livre e noutros espaços.

No Bons Sons, a igreja é um palco desde 2008, mas só agora se tornou polémica

Comecemos por Cem Soldos, Tomar. A Igreja de São Sebastião é, desde 2008, quando nasceu o Bons Sons, um dos palcos daquele festival de música portuguesa. Um palco para concertos intimistas que tira partido da intimidade, acústica e frescura que aquele espaço proporciona em tardes que costumam ser de muito calor. Na edição de 2018, foram oito os concertos programados e realizados na Igreja de São Sebastião, mas apenas um deles chamou à atenção do blogue Senza Pagare. Foi o de Homem em Catarse, “um concerto nada condizente com a sacralidade de uma igreja”, lê-se. João Silveira, que assina a publicação naquele blogue, puxa o Código do Direito Canónico (conjunto de normas que regula a Igreja Católica) e os ‘Princípios e Orientações sobre os Bens Culturais da Igreja’, estabelecidos pela Conferência Episcopal Portuguesa em 2005; e pergunta-se se o Bispo de Santarém foi “informado da natureza do evento”, “totalmente profano” e “nada condizente com o ambiente de culto a Deus que é próprio de uma igreja”.

Num comunicado, publicado a 2 de Setembro no Facebook, pela Diocese de Santarém, lê-se que “o Bispo de Santarém, bem como os serviços da Cúria Diocesana, não tiveram conhecimento prévio de que a Igreja de São Sebastião de Cem Soldos iria ser usada para espetáculos do festival Bons Sons” e que “não consta até ao presente ano” que este evento “tenha usado os espaços sagrados de modo a causar escândalo ou que exigisse a intervenção da autoridade diocesana”. Contudo, a diocese diz ter recebido este ano “observações de escândalo que chegaram de várias partes do país e do estrangeiro”. O comunicado da diocese cita também vários documentos que regulam a actividade da Igreja.

Em suma, e apesar de as regras não parecerem totalmente claras, a Igreja permite concertos em espaços de culto desde que sejam de música sacra ou religiosa e/ou não coloquem em causa a santidade do lugar. Ouvintes e executantes devem respeitar o carácter sagrado do lugar, e por parte da organização deve ser pedida autorização ao pároco ou outro responsável pelo espaço. Este deve também retirar o Santíssimo Sacramento da igreja para outro lugar digno durante o concerto.

Em comunicado também, a organização do Bons Sons explica que “todos os agentes locais da igreja têm conhecimento e dão autorização para a realização dos concertos” e que “ninguém consegue imaginar que faríamos oito concertos anuais, há dez anos, à revelia”. Explica ainda que “esta polémica parte de pessoas ultra conservadoras que têm uma visão muito fechada da Igreja Católica, que não vai ao encontro da visão e da harmonia promovidas pelo Bons Sons” e que “não conhecem Cem Soldos”. Em nota enviada às redacções, o festival contextualiza também que “o vídeo que originou o manifesto não é de um concerto de rock. Tratou-se de um concerto intimista, com voz e guitarra, dedicado ao interior do país, às suas paisagens e aos problemas de desertificação. O pequeno excerto apresentado retrata apenas o final mais efusivo e feliz do concerto”.

Foto de Carlos Martins/DR

Em Beja, o bispo fechou as igrejas ao turismo e à cultura

A sul, outra polémica. Em 2016, a Diocese de Beja ganhou um novo bispo, que um ano depois decidiu extinguir o Departamento do Património Histórico e Artístico (DPHADB), criado em 1984 e liderado na altura por José António Falcão. Numa vontade de “reajustar” as estruturas da diocese para “um novo ciclo”, o bispo João Marcos entendeu que o DPHADB não era “o meio mais adequado para atingir os objectivos que presidiram à sua constituição”, nomeadamente “o estudo, a salvaguarda e a valorização do património cultural religioso do Baixo Alentejo”, apesar de reconhecer o “trabalho meritório na promoção e divulgação do património diocesano” por parte daquele organismo.

Ao longo de mais de 30 anos de actividade, o DPHADB identificou 500 edifícios religiosos e um acervo com mais de 200 mil bens no concelho de Beja, lançou a Rede Diocesana de Museus e criou o festival Terras Sem Sombra. “Produziu-se toda uma bibliografia com mais de 50 títulos, editados pelo próprio departamento, que é a memória viva deste património, de como ele foi identificado, inventariado, estudado, e depois divulgado e colocado à disposição do público”, comentou José António Falcão numa entrevista à rádio Voz da Planície, salientando que se tratou de um trabalho distinguido e premiado tanto cá dentro como lá fora. Mais ainda: num esforço conjunto com a Associação de Desenvolvimento Regional Portas do Território (APT), que reúne várias entidades, incluindo a Câmara Municipal de Beja, o DPHADB recuperou várias igrejas, capelas e ermidas, deixando-as acessíveis ao público, ao turismo a à cultura, com horários muito limitados.

Contudo, desde a extinção do DPHADB, parte desse património foi fechado, situação que afectou o turismo cultural e religioso na região e preocupou habitantes, visitantes e autarcas. O encerramento aconteceu depois de terem sido investidos cerca de três milhões de euros em cinco edifícios religiosos do concelho, conforme noticia o jornal Público. O Terras Sem Sombra, festival criado pelo próprio DPHADB para ser um convite à descoberta do património de Beja e do Baixo Alentejo, não pôde usar os edifícios religiosos do concelho para os concertos desta edição de 2018. Se em Cem Soldos podem existir dúvidas sobre se as actuações musicais se encaixam ou não nas “regras” da Igreja Católica, no caso do Terras Sem Sombra a programação é exclusivamente composta por música clássica e sacra.

Sé Catedral de Beja (foto via Flickr)

A organização do festival, da qual José António Falcão faz parte, foi obrigada a encontrar este ano alternativas como auditórios e espaços ao ar livre. O cenário de a Diocese de Beja vedar o património religioso ao festival que ela própria criou e do qual continua a fazer parte – em colaboração com a organização, a associação Pedra Angular – é estranho, mas pode ser que a situação venha a mudar no próximo ano. Entretanto, no final do mês de Julho, Paulo Arsénio, presidente da Câmara Municipal de Beja, anunciou a reabertura de alguns dos espaços religiosos “que há muito se encontravam encerrados”, uma “situação muito, muito complexa” que diz que a sua autarquia herdou. Resta saber se vão continuar abertos e em bom estado. E qual o futuro do Terras Sem Sombra.

Com séculos e séculos de história, a Igreja Católica é uma instituição que, como outras, está em parte presa ao passado, isto apesar de o Papa Francisco lhe ter conferido uma dinâmica nova e mais viva. A Igreja deixou no país e no mundo um património vasto e riquíssimo, fruto do papel que teve na vivência social ao longo de bastante tempo. Património esse que precisa de ser preservado e que merece ser conhecido, visitado, dinamizado. Ao restringir esses edifícios ao culto religioso está-se a restringir também o número de pessoas que deles podem usufruir. O turismo e a cultura podem ser, nessa lógica, agentes dinamizadores do património, mantendo-o aberto ao público e proporcionando motivos para uma ou duas visitas. Sem o Bons Sons, a Igreja de São Sebastião seria apenas mais uma entre muitas no país, lembrada apenas pelos fiéis. Sem um palco naquela igreja, os festivaleiros que iriam a Cem Soldos possivelmente encontrariam uma porta fechada e não iriam descobrir a arquitectura e a arte, por mais simples e rudimentar que seja, escondida naquele edifício pintado de branco e amarelo.

Em Beja, a acústica que muitas igrejas e capelas proporcionam não se comprara à de outros espaços, nomeadamente no que toca a um concerto de orquestra, de piano ou de outro instrumento(s) que compõem a dita música clássica ou sacra. Abrindo as igrejas ao Terras Sem Sombra está-se a abrir esses monumentos também ao público que, de outra forma, não iria visitá-los. Igrejas fechadas ou fechadas ao turismo ou à cultura são igrejas ameaçadas pela deteorização, num país com cada vez menos devotos. A Igreja Católica deve envolver-se na sociedade e não fechar-se a ela.