Como não ser um “totó” nas redes sociais

Um manual para “totós” para que não sejas realmente um.

Ilustração de Ricardo Santos/Shifter

Algures em Março de 2017, no meio de uma conversa via Twitter, eu e o Pedro Rebelo chegámos a uma conclusão: o problema das notícias falsas são os “totós”.

Este tweet passou imediatamente a header no meu perfil no Twitter. É uma frase que descreve a postura de muitas pessoas nas redes sociais: ver uma notícia, ler apenas o headline e imediatamente partilhar. Desta forma, o Vasco Granja falece, ano após ano, partilha após partilha, sem que alguém se dê ao trabalho de clicar no link e verificar a fonte e a data da notícia. Só para que conste, Vasco Granja faleceu em 2009. Ah, e o Bonga está bem e a vender saúde, ainda que no Twitter a sua morte também seja anunciada de quando em vez com #RIPBonga.

Diz não às pêras estragadas

Ainda há dias vi uma publicação partilhada no Facebook sobre uma quinta onde havia pêra rocha por apanhar e que não poderia ser vendida por causa do calibre. Quem tivesse interesse poderia deslocar-se à Quinta X para apanhar a pêra em questão. Bonito gesto, o dos senhores que, vendo que não seria possível vender a fruta, estavam disponíveis a dar a quem a fosse apanhar.

A partilha é que chega tarde: a publicação inicial data de Setembro de 2013 e as partilhas que vi aconteceram em Setembro de 2018. Numa das partilhas, confesso, que não resisti e comentei qualquer coisa como “as pêras já se devem ter estragado”.

Uma das questões que me incomoda relaciona-se com as pessoas que fazem este tipo de partilhas: conheço algumas delas e confesso que esperava um pouco mais de cuidado e de atenção nas partilhas.

Partilhar ou não partilhar?

Pensar antes de partilhar pode dar um pouco de trabalho e fazer-nos demorar um pouco no assunto em questão: mas, acreditem, vale a pena. A nossa reputação constrói-se, também, pela qualidade daquilo que partilhamos.

Não defendo que toda a partilha deva ser necessariamente estratégica, no que respeita a perfis pessoais. Ainda assim, fica o aviso: as partilhas públicas que fazemos numa rede social são públicas e estão acessíveis a todos, não somente aos nossos amigos. Nada como investir algum tempo nas definições de privacidade e perceber quem pode ver o quê, no teu perfil pessoal.

Parar para pensar: um guia prático

Nem tudo aquilo que encontramos nesse mundo enorme a que chamamos internet é verdade. Nem tudo é mentira. Há um pouco de tudo e daí a sua semelhança com a vida. Cabe-nos a nós contribuir para que as mentiras não se propaguem.

Sim, é fácil acreditar que a notícia X é verdadeira pois já a vimos partilhada em vários sítios. Ainda assim, nada como abrir o link, verificar a fonte e a data. Além disso, podemos sempre verificar se há mais notícias sobre o assunto – e em que fontes encontramos isso.

Os pilares da ponte

Em meados de Agosto, aconteceu um acidente horrível numa ponte, em Itália. Os pilares cederam e a tragédia aconteceu. Levantaram-se questões sobre as infra-estruturas, em Itália e também em Portugal.

Na sequência disso, voltou a circular a famosa fotografia dos pilares do viaduto Duarte Pacheco. Digo famosa pois já não é a primeira vez que a fotografia circula nas redes sociais. Até já houve notícias a explicar o aspecto dos pilares.

É fácil partilhar: vemos a imagem dos pilares, pensamos na tragédia que está fresca na nossa memória e “toma lá disto que amanhã já não há”: passamos a ser os pilares que sustentam a circulação das notícias falsas, pois não nos demos ao trabalho de pensar antes de partilhar.

Outro clássico: o Movimento Pijaminha

Durante alguns anos, circulava um e-mail (lembram-se daquele tempo em que havia correntes de e-mails com apelos e afins?) com pedidos de pijamas para a pediatria do IPO (Instituto Português de Oncologia) de Lisboa. Confesso que à primeira, caí na armadilha. E até considerei angariar fundos para comprar pijamas e/ou pedir a amigos pijamas em bom estado para doar.

Como os deuses não dormem, acabei por entrar em contacto com uma associação próxima ao IPO de Lisboa que me confirmou que o e-mail era falso, que não havia apelo e que o que mais se pretendia na pediatria do IPO era que as crianças tivessem rotinas comuns a todas as crianças e por isso não se estimula a que passem o dia de pijama.

Primeiro que tudo, pensar e verificar

O acesso constante que temos às redes sociais e os botões que as mesmas disponibilizam e que gritam “PARTILHA” facilitam, e muito, o acto de partilhar sem pensar. É tudo muito rápido, Like aqui, Like ali. Share, já está.

“Que horror, tenho de partilhar isto.” “O mundo precisa de saber!” Não, não precisa. Bom, o mundo precisa de saber coisas que realmente aconteceram ou que estão a acontecer. O mundo precisa que eu, tu e ele – nós! – pensemos um pouco antes de fazer uma partilha. Ficam alguns baby steps:

  1. Quem partilhou a notícia? Achas que a pessoa verificou a notícia?
  2. Pesquisa noutros órgãos de comunicação social para ver se há mais alguém a falar do assunto. Verifica essas fontes.
  3. Notícias de sites como “tafixe.xyz” podem ser um sinal de notícia duvidosa. Se a fonte for o Inimigo Público – sim, é falsa e o mais certo é que te provoque o riso.
  4. Em caso de dúvidas, não partilhes. Nem mesmo com a ressalva: “Não sei se é verdade, mas se for é motivo para…”. Pára. Não estarás a ajudar.

Em temos, partilhámos aqui os passos a dar para identificar contas falsas de figuras públicas. Passa por lá e faz a revisão da matéria dada. Não sejas um “totó”. Vá, tu és capaz!