6 factores que influenciam uma vida longa e feliz

De acordo com o maior estudo longitudinal do mundo, realizado por Harvard.

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Alguma vez te questionaste sobre qual o segredo para ter uma vida feliz e longa? Possivelmente já… e o teu histórico do Google poderá comprová-lo. O problema?! Quando procuras a resposta para uma pergunta tão filosófica, é-te colocada à frente dos olhos uma solução: pode apresentar-se em formato de blogue, podcast, vídeo, livro… ou até pelas palavras sábias de um amigo bêbado as 4 da manhã. E, por norma, quando para uma pergunta complicada existem muitas vozes diferentes e até contraditórias, é sinal de que ninguém realmente sabe do que está a falar.

Para ajudar a responder a esta pergunta e trazer dados “para cima da mesa”, recuperamos um estudo que foi feito, em Harvard em 2003, o estudo mais longo de sempre, sobre este assunto. O objectivo deste estudo foi perceber o que realmente fazia diferença para se ter uma vida longa e mais feliz. Decidimos recuperá-lo porque nunca é demais refrescar a perspectiva mesmo sobre pontos que parecem evidentes.

O estudo em questão acompanhou durante décadas a vida de 800 pessoas divididas em três grupos:

  • 268 estudantes de Harvard nascidos por volta de 1920 – foi o estudo prospectivo mais longo sobre saúde física e mental no mundo;
  • 456 homens da classe trabalhadora – foi o estudo prospectivo mais longo sobre desenvolvimento de adultos da classe trabalhadora no mundo;
  • 90 mulheres – o estudo prospectivo mais longo do desenvolvimento das mulheres no mundo.

Estas pessoas foram estudadas durante aproximadamente seis décadas e foram encontrados seis factores principais que tiveram um grande impacto na sua felicidade e longevidade ao longo da vida.

1 – fumar mata! E beber álcool também!

Desculpem se esta é demasiado óbvia, mas a verdade é que fumar foi o principal factor para uma morte prematura entre as 800 pessoas estudadas. Mas há boas notícias para quem fuma, o impacto dos efeitos maliciosos na nossa saúde é drasticamente reduzido a partir do momento em que se deixa esse vício. Em relação ao álcool, para além de prejudicar a tua saúde, a longo prazo, torna-te menos feliz e prejudica relacionamentos. É normal algumas pessoas beberem porque têm problemas, mas a partir de certa altura o consumo excessivo de álcool acaba por se tornar também ele um problema e não um resultado dos problemas passados.

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Em ambos os grupos masculinos, não ser um fumador compulsivo (mais de 1 maço por dia durante 30 anos) antes dos 50 anos foi o factor mais importante para ter um envelhecimento saudável. No grupo dos estudantes de Harvard, ter uma morte prematura era dez vezes mais provável para quem fumava mais de um maço por dia. No entanto, para quem deixava de fumar por volta dos 45 anos, os efeitos negativos do tabaco que fumaram até então deixavam de ter impacto por volta dos 70/80 anos.

2 – nunca pares de te educar

…a saúde física dos homens com 70 anos da classe trabalhadora era pior que a dos homens de Harvard com 80 anos. Mas, notavelmente, a saúde dos homens com 70 anos, da mesma classe trabalhadora, com uma educação universitária era igual à dos estudantes de Harvard com os mesmos 70 anos. Isto verificou-se apesar da sua classe social enquanto crianças, dos testes de QI, do ordenado e do prestígio das faculdades que frequentaram e dos empregos ser bastante inferior aos “Homens de Harvard”.

O porquê destes resultados parece ser por motivos lógicos – uma educação contínua leva a melhores hábitos e a uma vida mais feliz. Por exemplo, quanto mais educados os homens da classe trabalhadora fossem maiores eram as suas probabilidades de deixar de fumar, comer de forma saudável e beber álcool com moderação. Mais importante do que ter um curso superior é nunca parares de te educar e de aprender.

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A boa noticia é que mesmo que detestes livros, hoje em dia, podes escolher um entre os milhares de podcasts e ouvir enquanto vais no autocarro, estás no ginásio, dás uma caminhada, etc. Ou mete um vídeo daquele youtuber que tanto gostas a dar enquanto passas a ferro ao domingo. A ideia é simples – EDUCA-TE.

3 – uma infância feliz

De acordo com este estudo, ter uma infância feliz e saudável é um dos principais ingredientes para um envelhecimento bem sucedido. Mas como não podemos escolher nem os nossos pais nem o meio em que vamos crescer, estes resultados podem ser um pouco desanimadores – ou não!

“As circunstâncias não fazem o Homem.” Aqueles que tinham uma infância mais dolorosa podiam perfeitamente escolher no futuro o seu trajecto e não se deixarem levar pelas circunstâncias passadas. Enquanto que os que tinham uma boa infância, simplesmente aproveitavam-se dessas circunstâncias para os levar para onde já queriam ir.

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Uma infância tranquila, como ter um pai rico, tende a “vacinar” os homens contra um futuro doloroso, mas uma infância sombria – como pais a lutar contra a pobreza – não condenou nem os homens de Harvard ou da classe trabalhadora a um futuro de miséria…

4 – as relações são tudo

Citando Christopher McCandless, do filme Into The Wild, “a felicidade é apenas verdadeira quando partilhada”. Cultivar novas relações, fazê-las crescer, arrancar o que está a estragar o jardim e repetir o processo pode ser complicado e muitas vezes frustrante. A verdade é que na vida é preciso haver um equilíbrio e, no mundo das relações, alcançar esse equilíbrio é fundamental para que consigas ter uma vida de alegria.

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As vidas dos três grupos repetidamente demonstraram que foi a aptidão social – por vezes, chamada de inteligência emocional – e não o brilhantismo intelectual ou a classe social dos pais que conduziu a uma bem adaptada idade adulta.

5 – habilidades de confronto

A forma como lidamos com momentos de confronto e stress podem, também, definir a qualidade da nossa vida. Vejamos algumas características maliciosas de lidar com problemas de confronto: culpar os outros, ser passivo-agressivo, negação, agir-recuar. Quem demonstrou ter estas características ao longo da vida também demonstrou ter piores resultados a longo prazo. Sentimentos como os que falei em cima levam a uma calma e prazer a curto prazo, mas a longo prazo, arruínam relacionamentos e conduzem a péssimas decisões a longo da vida. Ao contrário, sentimentos mais maduros como altruísmo, sublimação, supressão e humor acabam por ter o efeito exactamente oposto – melhores resultados a longo prazo.

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6 – generosidade

“Faz aos outros o que gostavas que os outros fizessem a ti.” Esta é, sem dúvida, uma boa “frase feita” para se usar num jantar e impressionar a malta, mas, na realidade, este pode ser um dos melhores mantras para se viver.

Entre as três amostras, homens e mulheres generosos com 50 anos eram três a seis vezes mais propensos a estar entre os Felizes-Saudáveis na velhice do que entre os Tristes-Doentes... Nos três grupos de estudo, o domínio da generosidade triplicou as chances de que a década dos anos 70 seria para esses homens e mulheres um tempo de alegria e não de desespero.

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Para finalizar…

  • “Smoke is Bad… Alcohol Too” – nada de novo a acrescentar neste campo a não, o facto de que, mesmo para quem fuma há 30 anos, parar continua a ser bastante benéfico para a saúde e ainda é possível reaver algum do tempo “fumado”;
  • Educa-te sempre e para sempre – para quem não está habituado a “estudar” há muitos anos, admito, que no início pode ser complicado e chato, mas, não só os benefícios compensam tudo isso como, ao fim de algum tempo – pouco –, vais apanhar o jeito e questionar-te “como nunca fiz isto antes?”;
  • Uma infância feliz ajuda, mas não condena – é muito bom ter um bom início de vida, que normalmente leva para um trajecto futuro similar, mas, para quem não teve esta oportunidade, os caminhos são inúmeros e cabe a ti escolher qual seguir;
  • Cultiva boas relações – se não percebes a importância deste factor, experimenta viver um ano sozinho, em total isolamento – desaconselho – e vais perceber que mesmo quando tudo corre bem, a verdadeira felicidade vêm de poder partilhar esses momentos com aqueles de que mais gostas;
  • Habilidades de confronto – a forma como lidas com situações desafiadoras dizem muito de quem tu és e de como tratas os outros aspectos da tua vida. Por isso, respira fundo, pensa bem e age;
  • Generosidade – o karma existe e está sempre atento ao que se passa no teu dia-a-dia; por isso, tem muito cuidado da próxima vez que te recusares a deixar passar alguém a tua frente na fila para o supermercado.

Neste artigo, adaptado do original, expus alguns dos principais factores apresentados no livro Aging Well: Guideposts to a Happier Life, de George Vaillant, psiquiatra americano e professor da Harvard Medical School, e director de investigação no departamento de psiquiatria do Brigham e Women’s Hospital.

Texto de Marco Cotas