Quando a Favela invade um festival mas… quem são estes invasores?

Não são bem uma banda, nem um colectivo atómico de artistas. Mas podem ser tudo isso ao mesmo tempo.

A Favela Discos apresenta-se a si própria como um colectivo de artistas e intelectuais sediado na cidade do Porto. No Milhões de Festa deram mais uma vez prova da sua elasticidade criativa – conhecida daqueles que se passeiam pelas noites do norte e já frequentaram as festas promovidas por este grupo no Café Au Lait.

Em comum com a definição de favela – ou, melhor dizendo, com o estereótipo que habitualmente concebemos na nossa cabeça – têm à primeira vista pelo menos duas coisas: um descomprometimento de quem não tem nada a perder e uma vontade de serem livres em todos os sentidos. Não são bem uma banda, nem um colectivo atómico de artistas; mas pelo que se pode ver do seu trabalho e pelo que se pôde comprovar em mais uma criação pensada especificamente para o festival minhoto, podem ser tudo isso ao mesmo tempo.

A convite da organização pelo terceiro ano consecutivo, o colectivo ficou encarregue de dar vida ao Palco Taina na primeira tarde/noite do festival e o resultado, dividido em quatros actos, foi uma espécie de ensaio sobre as tradições minhotas num futuro longínquo e num ambiente caótico. Adega Cooperativa de Marte, Os Amigos da Anta, Psicobaile e Fação Barulho deram nome aos diferentes momentos em que o mesmo grupo de artistas, com algumas alterações, ia variando as abordagens de reflexão criativa sobre a mesma temática. A tradição já não é o que era, mas pode continuar de outras formas parecia ser a mensagem subjacente às músicas que nasciam de loops infinitos criados a partir de uma mistura de instrumentos contemporâneos – como sintetizadores – e outros elementos exteriores como… sinos ou garrafões de vinho.

A interação com o público fora das normas, os loops repetitivos no limbo entre o entediante e o absolutamente hipnotizante – fortemente dependentes da condição do ouvinte – não foram propriamente os momentos mais bonitos e simpáticos do festival, mas foram, sem dúvida, dos mais criativos e de certa forma relacionáveis com o contexto.

(Renato Cruz Santos/Milhões de Festa)
(Renato Cruz Santos/Milhões de Festa)
(Renato Cruz Santos/Milhões de Festa)
(Renato Cruz Santos/Milhões de Festa)
(Renato Cruz Santos/Milhões de Festa)

A proposta do colectivo que se reinventa praticamente a cada aparição era trazer ao Milhões o espírito regional e não foi só a música que o ajudou a compor. Mesmo em frente ao palco podiam ver-se dois brasões, um de cada lado, com as inscrições “Favela” e “Discos”, uma mensagem que se completa, por um lado, nas redes da Favela ou, por outro, com um olhar atento a cada pormenor.

Publicado por Favela Discos em Quinta-feira, 6 de Setembro de 2018

Publicado por Favela Discos em Quinta-feira, 6 de Setembro de 2018

Para além das actuações, o colectivo dispôs também junto do palco uma banca onde deu a conhecer outros dos trabalhos e edições do seu universo. A zine “DESAPARECEU ARTISTA” que já andara sob a forma de poster pelas ruas do Porto, ou a BD escrita e desenhada por Gore Krout, são bons exemplos e que facilmente nos facilmente lembrar pela incursão nos suportes impressos outros colectivos do Porto como a famosa Arara.