Há festivais para tudo e para todos: até para os “exquisitos”

Somos um país de festivais e é (também) neles que respira a cultura, nas suas mais variadas formas. Algumas dessas formas são "exquisitas". E sim, temos a certeza absoluta.

Foto de Matilde Cunha/Gerador

Telheiras nunca mais será a mesma depois de três dias de Festival Exquisito: houve Fado Bicha, teatro, instalações provocatórias e espaços para conversa sobre “e depois das certezas absolutas?”.

Poderia ter sido mais um final do dia, como tantos outros, em Telheiras. A verdade é que foi um final do dia “exquisito”, onde até se cantou o Fado (Bicha). A responsabilidade é da Associação Cultural Gerador que concretizou a ideia de explorar os significados da palavra “esquisito”. Atribuímos o adjectivo esquisito a coisas fora da norma, estranhas, difíceis de rotular. Em inglês traduz-se por freak. No francês surgem-nos opções como bizarre ou até spécial. Insólito e curioso são outras opções de tradução.

Aquele momento em que estás a passear o cão e dás de caras com os Fado Bicha

Foto de Matilde Cunha/Gerador

Numa zona relvada em frente ao pólo de Telheiras da Junta de Freguesia do Lumiar aconteceu o concerto dos Fado Bicha. Assim começou o festival Exquisito, na quinta-feira, dia 13, pelas 18h30. O concerto durou perto de uma hora e teve momentos de partilha com duas finalidades: homenagear o fado e despertar mentalidades para a comunidade LGBTI.

Temos fadista, disso não há dúvida. Lila Fadista e João Caçador forma a dupla que dá nova roupagem ao fado, não só pela forma como se apresentam em palco, mas também pelo facto de preferirem a guitarra eléctrica à guitarra tradicional do fado.

Durante três dias houve provocações junto à Estrada de Telheiras: na sexta-feira, com o Chilrear, de Francisco Pinheiro e Paulo Morais; e no sábado com Leach, de Rui Paixão.

Foto de Matilde Cunha/Gerador

Um festival com manifesto e performances em cada esquina

O desafio foi criar a partir da interrogativa afirmação “depois das certezas absolutas”. No número 21 da revista Gerador é apresentado o manifesto que deu forma ao desafio lançado a Carolina Trigueiros, Daniel Neves e Rosana Ribeiro. As artes visuais, musicais e performativas estiveram, assim, representadas.

É precisamente na revista Gerador que podemos ler uma conversa entre Pedro Saavedra, director artístico do festival e os três programadores convidados: “(…) procurar uma definição de arte é procurar uma verdade absoluta que não é verdade para toda a gente ou para cada visão individual”, diz-nos Daniel Neves. A arte provoca-nos a pensar e a sentir algo que poderá coincidir ou até ser completamente distinto da intenção do artista e criador. Depois da obra de arte conhecer a luz do dia, o que é que cada espectador poderá criar a partir dessa provocação?

Foto de Matilde Cunha/Gerador
Foto de Matilde Cunha/Gerador

E depois do Exquisito?

Há lugar para um Festival Exquisito? Há, com certeza. Temos algumas dúvidas se aquilo que foi apresentado terá agradado a todos, se terá levado os espectadores a dizer “isto é belo” ou “isto fez-me questionar a minha relação com a arte”. Talvez alguns se tenham referido ao que viram como “top” ou “brutal”, depois de terem feito a Instagram Story que marca a sua presença neste festival bué exquisito. Uns entraram na sala onde estava a acontecer o concerto e saíram de imediato. Outros ficaram para ver uma peça de teatro de hora e meia. E isso não é bom, nem mau – pois a moral não é para aqui chamada, numa experiência que se enraíza na estética e que por isso tem o seu quê de subjectividade.

Sem fazer um levantamento aprofundado e recordando apenas as notícias lidas ou ouvidas nos últimos tempos, podemos dizer que Portugal é um país muito festivaleiro. Associamos muito a palavra “festival” à música, mas a verdade é que outros tipos de festivais a acontecer: em Telheiras, Exquisito trouxe-nos teatro, conversas, leituras encenadas e performances várias; em Sintra, o Muscarium leva-nos ao teatro e a concertos em locais únicos; este ano, o Iminente terá como desafio reanimar o Panorâmico de Monsanto com música e arte.  Entretanto, Lisboa e Porto acolhem o Festival Internacional de Cinema Queer. Em Portugal até acontece o Festival de Filosofia de Abrantes, em Novembro, e o Festival para Gente Sentada, em Braga, no mesmo mês.

Somos um país de festivais e é (também) neles que respira a cultura, nas suas mais variadas formas. Algumas dessas formas são exquisitas. E sim, temos a certeza absoluta.

Foto de Matilde Cunha/Gerador
Foto de Matilde Cunha/Gerador
Foto de Matilde Cunha/Gerador
Foto de Matilde Cunha/Gerador
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