25 obras incontornáveis da cinematografia LGBT

Passando por pioneiros, obras-mestras ou simplesmente exemplos convictos das suas mensagens e discursos.

Com o Queer Lisboa a vestir a capital com a bandeira arco-íris na semana passada, a equipa do C7nema decidiu por essa alatura elaborar uma lista de 25 obras incontornáveis da cinematografia LGBT. Passando por pioneiros, obras-mestras ou simplesmente exemplos convictos das suas mensagens e discursos. Como a escolha é boa e a temática não se esgota no tempo, trazemos-te agora a sua seleção.

120 Battements par Minute (Robin Campillo, 2017)

Eis um furacão de filme que nos transporta para o seio da crise da SIDA nos anos 90, acompanhando a ACT UP, uma organização que lutava pela sua prevenção. Retrato de uma realidade dura, mas marcante, com cenas de cortar a respiração e de uma precisão visual incisiva. 120 Battements par Minute lida com histórias humanas complexas, apelando sobretudo às nossas emoções mais básicas enquanto seres humanos. Um filme imperativo, para que tais dramas reais não sejam de todo esquecidos.

Appropriate Behaviour (Desiree Akhavan, 2014)

Appropriate Behaviour é um cativante pedaço de vida de Shirin, uma iraniana que vive em Nova Iorque e que tenta esquecer a ex-namorada. Desiree Akhavan (realizadora, argumentista e atriz) concretiza um projeto inteiramente pessoal e que invoca os nossos mais internos desgostos. Cheio de personalidade, humor seco e sensualidade, o filme apresenta uma protagonista muito humana e próxima de nós, nunca se afastando da discussão da bissexualidade, o seu significado e é para além disso, o retrato do que é ser uma mulher queer numa família tradicional.

Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)

Nascido em Taiwan, desde cedo Ang Lee deu nas vistas pelas suas narrativas marcadas pela repressão dos seus protagonistas face aos eventos evolventes das suas vidas. A sua segunda longa-metragem, The Wedding Banquet, teria sido outra escolha válida para esta lista, mas é em 2005 que Lee realiza aquele que se tornou imediatamente um marco do cinema contemporâneo: o cineasta expande um conto de Annie Proulx, publicado no The New Yorker em 1997, e dá vida aos dois cowboys protagonistas – Ennis del Mar e Jack Twist, imortalizados pelos corpos de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal respetivamente – em luta com sentimentos reprimidos um pelo outro, pelo desejo homossexual que sentem face à pressão da sociedade em se casar e ter filhos. O filme nunca estabelece exatamente em que ponto da escala de Kinsey (que mede a orientação sexual enquanto maioritariamente homo ou heterossexual) estas duas personagens estão – se as suas vidas de casados são uma mentira completa, ou se existe uma bissexualidade de parte a parte. Mas o que é certo é que existe algo próximo ao que estes rapazes conseguem encarar como amor, daqueles que surgem uma vez na vida para os mais felizardos, onde objetos pessoais são cuidadosamente tratados para preservarem a memória do que existiu.

Carol (Todd Haynes, 2015)

Todd Haynes é outro cineasta que nunca se inibiu de mostrar conteúdos ditos queer. Em Carol, tal como Far From Heaven, volta a referenciar um cinema de tom mais clássico pegando numa história bem progressista para a época que relata – os anos 50, novamente, e desta feita, um romance entre duas mulheres de gerações diferentes. Patricia Highsmith, novelista mais conhecida pelos romances policiais, assinou o texto base, onde Therese Belivet cai como um anjo vindo do céu para Carol, iniciando-se assim um jogo de sedução, que não deixa de possuir uma carga de suspense no seu desenlace. Haynes mostra um domínio exímio neste storytelling, apoiado pelas interpretações de Cate Blanchett e Rooney Mara, ambas nomeadas ao Oscar (a última com prémio de interpretação em Cannes acrescido). O público LGBT finalmente tem aqui o seu Brief Encounter, uma referência tão óbvia para o realizador que decidiu adotar o mesmo dispositivo narrativo: começando pelo potencial último encontro do casal, e indo para trás na história de amor.

Die Bitteren Tränen der Petra von Kant (Rainer Werner Fassbinder, 1972)

Não queiramos enganar: a escolha mais óbvia sobre Fassbinder recairá sobre o erótico Querelle. Mas parte da intenção desta lista será também fornecer outros caminhos alternativos aos que já estarão traçados – afinal, nada mais queer do que se desviar um pouco da cartilha. As Lágrimas Amargas de Petra von Kant é, se o espectador encontrar tempo para ele, um filme tão ou mais revolucionário que aquele baseado no romance de Jean Genet. Em 1972, o cineasta decidiu filmar uma história de desejo e deceção no feminino, de uma designer – a Petra von Kant do título – que se apaixona por uma das suas modelos. Fassbinder usa para tal um único cenário – o quarto da protagonista – e meia dúzia de longos takes que vão então cronicando esta ascensão e queda da paixão, envolvendo-nos no meio.

Doukyuusei (Shoko Nakajima, 2016)

Classmates (título internacional) retrata o romance de dois rapazes completamente diferentes, um nerd e o outro músico. Feito por um dos estúdios de anime mais populares do Japão, A-1 Pictures, o filme é um produto da mente da desconhecida Shoko Nakamura. A narrativa divide-se em várias partes mostrando apenas retalhos da relação ao longo de um ano, ilustrados através de um visual do estilo genérico do anime mas sob contornos mais fluidos do que o habitual (quase assemelhando aquarela, onde as cores e até as transições de cena parecem ter sido escolhidas ao pormenor). A obra captura, assim, a relação entre os dois de forma doce e deveras humanista, evitando sobretudo grandes palavras. Especialmente contido, derivado das suas origens, visto que a sociedade japonesa encara a intimidade com uma discrição divergente das dos ocidentais, Classmates adquire o quê de sentimental através do detalhe.

Girl (Lukas Dhont, 2018)

O que aparentava ser mais um retrato de transição em relação a uma sociedade patriarcal e intolerante, revela-se numa obra intimista e cujo conflito é transferido para uma dimensão mais inerente. O quotidiano desta Lara (revestido com a delicadeza de Victor Polster), um adolescente determinado em transformar-se numa mulher, tendo como acréscimo, o sonho de se tornar numa bailarina, é tudo menos o habitual propagandístico em atribuir culpas ao biótopo do(a) protagonista. Aqui, a dita sociedade é tolerante, aliás apoiante de tais mudanças, mas o verdadeiro inimigo de Lara é mesmo ela própria, a sua inquietação, o desespero e a melancolia de uma espera sem fim. O jovem Lukas Dhont exibe destreza em acompanhar essa fase de estados, culminando para um desfecho aterrador e furtivo. Apresentado na Un Certain Regard da edição de 2018 de Cannes, Girl conquistou a Camara de Ouro, prémio dirigido às melhores primeiras obras do certame.

Happy Together (Wong Kar-Wai, 1997)

Inicialmente, o tango era uma dança clandestina, bailada por marinheiros (diríamos antes, entre marinheiros) nos locais mais underground dos portos argentinos. Atualmente, a dança é vista e simbolizada como um jogo de dois sexos opostos, uma metaforizada sincronia do romance e da sensualidade emanada pelo casal. Wong Kar-Wai vai diretamente às origens para que nessa linguagem entre corpos invoque a relação entre dois “estrangeiros” em terras argentinas, uma relação atribulada e oscilante, tão dinâmica como a dança que apresenta como cartão de visita. Indiscutivelmente, como grande parte da sua filmografia, Happy Together é um filme belo, muito por “culpa” da fotografia de Christopher Doyle (habitual colaborador de Kar-Wai) e da narrativa diversas simbólica que tal como o tango resume a uma disputa de dominâncias.

Hawaii (Marcos Berger, 2013)

Para quem tem estado atento ao cinema queer saído do novo milénio, sabe do boom do cinema da América Latina a pegar nestes temas de uma forma matura (o chileno Una Mujer Fantastica, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo apenas o exemplo mais mediático). O argentino Marcos Berger tinha dado nas vistas com os igualmente excelentes Plan B e Ausente (Teddy Bear no Festival de Berlim), revelando em duas narrativas bem diferentes, os seus propósitos autorais de carreira: filmar o desejo inconfessável, a ambiguidade do homoerotismo que se possa esconder em pequenos gestos, olhares, ou então possa estar simplesmente no olhar do espectador. E sob esse mote, entramos então na história de dois amigos de infância que se reencontram passados muitos anos, e agora estão em pontos distintos. Martin procura um trabalho temporário que o ajude a safar-se, e é na casa de Eugenio que o encontra. Entre os dois começa a nascer uma dinâmica forte, um jogo de poder curioso, voyeurístico, no qual Berger, para não variar, envolve o espectador enquanto voyeur e juiz dos eventos que vão sucedendo. Será este jogo de atenção um mero capricho masculino, uma alucinação colectiva?

Não Quero Voltar Sozinho (Daniel Ribeiro, 2014)

Curta brasileira que fez furor em 2014, do então estreante, Daniel Ribeiro. Apesar da sua condição de metragem, o pouco tempo que dispõe para desenvolver as personagens, o pequeno filme consegue assentar relações credíveis a transbordar de juventude. Sempre rodeado de tons bege, a narrativa simples e detentora de mecanismos cliché tem um charme próprio toldado pela atmosfera da inocência. A sua importância também advém da rara representação de uma personagens queer com algum tipo de debilitação. No entanto, a personagem nunca é reduzida a estes dois traços.

Hors Les Murs (David Lambert, 2012)

Não é incomum filmes darem uma ou duas guinadas, sendo acusado precisamente da viragem abrupta na sua narrativa. David Lambert comprovou já ser um cineasta que adora este tipo de reviravoltas entre actos, e fá-las com uma segurança na condução e uma certeza no destino que nos quer conduzir impressionantes, rendendo qualquer acusação de implicação superficial. (Igualmente recomendável o seu segundo filme, Je Suis a Toi, este já presente no Queer Lisboa, onde recolheu prémio para Melhor Ator para Nahuel Biscayard, anos antes de 120 Battements par Minute). Da Semana da Crítica de Cannes para uma obscuridade criminosa, Hors Les Murs, a sua primeira longa, começa como um rapaz encontra rapaz, rapaz força coming out a rapaz, rapaz desvirgina rapaz, e prende-o ao seu coração. Essa prisão tomará uma componente menos metafórica na segunda metade, onde ecos de Midnight Express são facilmente observados, sobretudo na impotência sentida, a tanto alarido por coisa pouca. Mas Lambert guarda ainda mais trunfos para deixar o expectador com um K.O. emocional, quando no último ato, somos confrontados com as consequências a longo prazo daquele fatídico dia que separa os dois amantes.

La Vie d’Adèle (Abdellatif Kechiche, 2013)

Hoje de certa forma repudiado pelas tendências algo voyeuristas / fetichistas por parte do realizador tunisino (assim como a sua orientação sexual que para diversos grupos não lhe dá o direito de abordar este tipo de temáticas), esta adaptação de uma graphic novel de Julie Maroh se assumiu como um feito na difusão do cinema LGBT. Primeiro de tudo, conquistou, surpreendentemente a Palma de Ouro, numa edição de Cannes onde Steven Spielberg figurava como presidente de júri, e segundo, pelo sucesso e popularidade que atingiu em todo o Mundo. Mas como obra, este La Vie d’Adèle tem os seus atributos, incluindo uma entrega completa da actriz Adéle Exarchopoulos e pela linguagem universal que a sua história assume. Por outras palavras é um hino às relações afetivas, acima de qualquer bandeira ou activismo.

L’Inconnu du Lac (Alain Guiraudie, 2015)

Alain Guiraudie é um cineasta errático q.b., mas em 2013, saiu jackpot para ele e para a comunidade cinéfila apreciadora de um thriller hitchcockiano à moda antiga. O primeiro twist é o cenário do crime a ser efetuado ser um lago com uma mata, onde gays acabam por se refugiar nos desejos mais básicos, combatendo a sua solidão por entre os arbustos, longe do modelo familiar heteronormativo. Guiraudie usa o mesmo método formalista do mestre do suspense, ao mesmo tempo que não se inibe em mostrar nudez e ejaculação como que o espectador fosse realmente incluído, ora como mirone, ora como testemunha de um crime. O segundo twist será melhor não revelar… diga-se apenas que o desejo sexual e a morte se tocam de uma maneira bem marcante (e aqui cabe também o grande fantasma do VIH/SIDA omnipresente) – uma sequência de ejaculação dá lugar a um afogamento não-acidental vistos pelos olhos do protagonista/espectador, que por sua vez complicará ainda mais as suas motivações, retirando o autor qualquer moralismo de pacotilha da agenda.

Maurice (James Ivory, 1987)

A adaptação do livro escrito por E.M. Forster, nos anos 70, Maurice conta com direção de James Ivory, que iria tornar-se argumentista do bem-sucedido Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino. Explorando o homem gay no início do século XX, este trabalho reservado e elegante remete-nos a uma história de amor com serenidade e classe, por vezes caindo no território do elitismo. No entanto, é mais que tudo um retrato das barreiras que a sociedade nos impõe e sobre a consequente ilusão do indivíduo, especificando o modo como a sociedade se agarra ao preconceito. Rodeada pela fantasia da Universidade de Cambridge, Hugh Grant se entrega a um filme relativamente à frente do seu tempo.

My Own Private Idaho (Gus Van Sant, 1991)

Na sua terceira longa-metragem, Gus Van Sant começaria a dar nas vistas no movimento boom do cinema indie norte-americano com este road trip entre dois amigos que se vão aproximando gradualmente. Uma estrada ao encontro das origens que se revela num turbilhão de emoções tendo como protagonistas um jovem Keanu Reeves e o “quebra-corações” River Phoenix (dois anos antes do seu trágico desfecho), no papel de um prostituto, no qual viria a conquistar um Prémio de Interpretação no Festival de Veneza graças a este papel. Gus Van Sant baseou-se em três histórias para gerar este ‘Idaho, uma delas foi a peça Henry IV de William Shakespeare, e utilizando vários rasgos documentais concretiza uma sensível entrada num chamado New Queer Cinema nos EUA. Mas apesar da dedicação do realizador, foi em River Phoenix e a sua interpretação algo kamikaze (quem estava próximo do actor refere que ele próprio tenha entrado para o mundo da prostituição masculina para incorporar o papel) que elevou estes trilhos para um horizonte longínquo.

Mysterious Skin (Gregg Araki, 2004)

Pioneiro do movimento New Queer Cinema nos Estados Unidos no início da década de 90, o igualmente errático mas sempre interessante Gregg Araki esperaria mais de uma década pela sua incontornável obra-prima. A história de um abuso infantil executado por um treinador de escola e das consequências distintas em dois miúdos, um deles assumidamente homossexual, é posta em prática em dois tempos, duas narrativas na primeira pessoa. A atmosfera onírica dada pelos visuais e auxiliada por uma banda sonora irrepreensível de Robin Guthrie (Cocteau Twins) e o compositor Harold Budd acaba por se colar a traumas inconscientes, a blackouts, potencialmente explicados por outros eventos ainda mais paranormais, como uma invasão alienígena. Araki, tal como outros cineastas da lista, recusa-se também a ser politicamente correto – igual a toda a sua filmografia, deste modo, indo de encontro a tabus que outros se recusariam a mostrar (como o facto de um dos jovens relatar logo no início sentir tesão pelo abusador). Se Mysterious Skin é o seu filme mais mainstream e maduro, e tenha até um efeito de cobertor no final, esse cobertor é-nos servido húmido…

O Fantasma (João Pedro Rodrigues, 2000)

Filme inaugural de uma vaga de cinema queer português, O Fantasma é visto como uma alegoria de uma comunidade marginalizada, envolvida em gritos silenciosos e agressividades demonstradas através de uma passividade quase fetichista. Assume-se que não seja um trabalho fácil de assistir, há em todo em este rol uma provocação, um atingível abanão a um país tão hereditariamente masculino e patriarcal. Contudo, essa masculinidade distorce por via de uma assombração, os fantasmas das fantasias quase mórbidas, forçadas e pela heterossexualidade frágil e “troca-tintas”. João Pedro Rodrigues conseguiu com esta sua obra tornar-se num dos nomes mais citados da cinematografia portuguesa a nível global, construindo através deste relato citadino e maioritariamente noturno um quadro de espectros-estéticos.

Pariah (Dee Rees, 2012)

Pariah explora conceitos como feminilidade e sexualidade, falando do que implica ser lésbica na comunidade afro-americana. Estreado no Festival de Sundance, a realizadora Dee Ress (que viria a concretizar o elogiado Mundboud), baseia na sua própria experiência da diretora, para abordar uma relação em específico tal como muitas produções do género. Pariah foca no crescimento, no amadurecimento e na descoberta identitária. Sincero e por vezes doloroso, o filme põe foco nesta realidade pouco explorada na comunidade LGBTQ com performances humanas e cenário realista. Afasta-se 100% da perspetiva masculina e ao contrário de outros filmes que tentam explorar o mesmo tempo, nunca objetifica as personagens ou as relações destas. Completo com emoções complexas longe do maniqueísmo, Pariah é um must see para quem procura relatos sobre as experiências da comunidade.

Rafiki (Wanuri Kahiu, 2018)

Convenhamos afirmar que a nível cinematográfico este queniano Rafiki é um trabalho esforçada mas nada de concretizado. Tudo tende em roçar o panfletismo ou até mesmo à pedagogia temática, e pelos vistos, não existe uma linguagem cinematográfica elaborada aqui. Como tal, eis que surge a questão, porquê figurar tal filme na lista? A resposta deriva sobretudo de uma espécie de premonição, acreditamos que a obra, que bravamente estreou em Cannes, na secção Un Certain Regard, poderá suscitar uma nova onda de cinema queer africano, possivelmente mais difundido que as vagas anteriores e fechadas nos diversos movimentos afro-artísticos. A realizadora Wanuri Kahiu esboça um romance proibido entre duas jovens, num país onde a homossexualidade é punível até 14 anos de prisão, arriscando a própria artista de enfrentar julgamento com tal trabalho.

Tangerine (Sean Baker, 2012)

Uma obra focada numa realidade mais desconfortável da comunidade queer, relatando um dia na vida das trabalhadoras sexuais trans, que devido à sua situação precária não têm a oportunidade de transição médica. Uma obra de Sean Baker, um dos realizadores mais aclamados destas décadas que tem por hábito focar figuras marginalizadas, como fez no mais recente Florida Project. Filmado num iPhone 5 e com uma fotografia a transbordar de tons laranjas, este é um filme inserido numa veia semi-documentarista, em plena aproximação das suas personagens. Tangerine não possui filtros, mostrando o cru e o vulnerável, tudo num retrato alternativo mas fiel a Hollywood. Dando rosto a quem sente que nasceu no corpo errado, afastando-se sobretudo da narrativa branca e privilegiada normalmente associado às pessoas transgéneras. Fazendo-o, não através de histórias de transição, ou evidenciando esse aspeto da personagem, porém, no dia-a-dia destas e nas lutas que diariamente enfrentam.

The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert (Stephan Elliott, 1994)

The Adventure of Priscilla, Queen of the Desert, de Stephan Elliot, tornou-se num dos mais populares filmes da Austrália. Datado de 1994, abriu as portas para a representação mainstream e sobretudo mais positiva das pessoas transgénero. O musical jukebox, para além de ser uma homenagem ao mundo fabuloso de purpurinas e adereços das drag queens também é um tributo ao humano que está por trás de toda essa maquilhagem e atitude. Esta história de drags’ que atravessam o deserto numa autocaravana teve influência nos mais variados meios artísticos devido ao seu carácter tão assumidamente queer. Priscila é a combinação perfeita entre puro entretenimento e relevância emocional.

The Children’s Hour (William Wyler, 1961)

  1. A 8 anos de Stonewall, da primeira parada pelos direitos LGBT. A homossexualidade era criminalizada (a parada nasce afinal como resposta a um cerco policial a um bar gay). Isto tudo para contextualizar esta história, ainda assim progressista q.b., dado que um realizador galardoado previamente com 3 Oscar (William Wyler) ousou falar sobre um tema bem tabu – o potencial desejo entre duas professoras de primária – tendo recrutado atrizes de classe A (Audrey Hepburn e Sherley MacLaine). Este potencial desejo, este escândalo, é no fundo posto público pelos olhos de uma menina, que conta o rumor à avó, e consequentemente esta espalha para todos os pais das crianças, que retiram os seus filhos da escola onde lecionam. Vê-se bem onde Zoe Heller foi pegar para construir o seu Notes on a Scandal, posteriormente adaptado também ao cinema.

Todo Sobre Mi Madre (Pedro Almodóvar, 1999)

Almodóvar estava já a encerrar uma segunda década de atividade quando este Todo Sobre Mi Madre estreou. As duas primeiras décadas de carreira primaram pela irreverência, pela comédia exacerbada, pelo camp descomprometido. Já na década de 90, houve viragem para um cinema mais sério (La Flor de mi Secreto), mas é de facto neste filme, que retira o título do clássico All About Eve, onde a maturação atinge um equilíbrio perfeito entre o passado punk (aqui presente muito na personagem de Agrado, que detém aqui um dos monólogos mais fabulosos do cinema contemporâneo) e o presente sóbrio. É também o início de uma sequência de filmes pautados por uma reviravolta melodramática a roçar o telenovelesco. Nas mãos de outro realizador, sairia ridícula; Almodóvar acaba por merecer plenamente o final que desenha para estas personagens, no seu mundo, a telenovela é também uma arte de palco legítima.

Una Mujer Fantástica (Sebastián Lelio, 2017)

Una Mujer Fantástica é mais do que um filme sobre a experiência trans é uma obra sobre o amor e perda. O drama chileno do realizador Sebastián Lelio fala-nos da constante desumanização da comunidade transgénero e da violência que até as pequenas ações de discriminação carregam. É um retrato daqueles que vem como “quimera” tudo o que não conseguem pôr numa caixa. Interpretada pela atriz transgénero Daniela Vega, Marina é uma protagonista imperfeita e frustrada. Contudo, alguém o qual não conseguimos parar de nos identificar. A curiosa cena do espelho é subtil e imensamente poderosa na metáfora que representa, elevando assim o filme. Eis um tributo não só a uma comunidade mas a todos que vivem e sentem diferentemente.

Weekend (Andrew Haigh, 2011)

Outro cineasta revelado já neste século, e elevado desde esta primeira longa-metragem como um dos melhores novos talentos. Dois homens conhecem-se, e passam um fim-de-semana juntos, sabendo à partida que só terão esse fim-de-semana, pois um deles tem uma viagem agendada para os Estados Unidos. A trilogia de Richard Linklater foi clara inspiração, mas aqui o “factor gay” torna tudo ainda mais tragicamente relevante do ponto de vista social – i.e. a fragilidade destes relacionamentos já por si não normativos serve também de tema de conversa. Um filme aparentemente simples na sua premissa mas honesto e direto ao assunto, e já gerador de descendências (Theo et Hugo dans le meme bateau, por ex.) tornando-o numa obra indispensável nesta lista.

Textos de André Gonçalves, Raquel Soares e Hugo Gomes

(Nota: este texto foi originalmente publicado no c7nema, um dos mais antigos sites de informação, opinião e crítica de cinema em Portugal, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)