Fotos que testemunham Lisboa antes da Expo 98 reunidas em livro

Em 1994, o fotojornalista Bruno Portela fez um levantamento da zona oriental de Lisboa. “Era, claramente, uma zona negra, uma zona de sombra, que as pessoas sabiam existir, mas não encontravam razão para lá ir."

Foto de Bruno Portela/DR

Em meados de 1994, recorda agora o fotojornalista Bruno Portela, os colegas da redacção do jornal Público, onde trabalhava desde a fundação, perguntavam-lhe com frequência se achava que a Expo ia ficar pronta a tempo. Sabiam que, para além do horário laboral, ele estava a fazer um levantamento fotográfico do território onde, quatro anos depois, se realizaria a exposição internacional dedicada aos oceanos – o maior evento alguma vez realizado em Portugal.

E as dúvidas eram legítimas, pois se pouco se sabia daquela parcela da cidade de Lisboa, tal se devia precisamente ao pouco que se conhecia. Era, claramente, uma zona negra, uma zona de sombra, que as pessoas sabiam existir, mas não encontravam razão para lá ir. Nem que fosse pelo género de actividades que ali predominava”, rememora a’O Corvo, nas vésperas do lançamento de Uma Cidade Pode Esconder Outra, o livro que reúne esse exaustivo registo, no momento em que se assinala o fim do ciclo comemorativo de duas décadas volvidas sobre o evento.

Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR

O relativo cepticismo e a curiosidade dos companheiros de redacção de Bruno Portela, nascido em 1966, até é compreensível, concede o fotógrafo. “Aquele era um território marcado pelo subdesenvolvimento, alguma coisa tinha de ser feita para mudar aquele cenário, como é óbvio. Era um lugar caracterizado pela degradação, pela poluição, com uma contaminação generalizada dos terrenos e da água. Dizia-se, muitas vezes, que o Rio Trancão era o mais poluído da Europa”, recorda, ao evocar os seis meses que passou naquela imensidão de território, 340 hectares, nas vésperas de o mesmo ser sujeito à maior operação de transformação alguma vez realizada no nosso país. “O trabalho do fotógrafo é captar espíritos. Ora o fotógrafo estava, nos idos de 1994, no lugar exacto à hora certa para registar este fim de ciclo”, nota João Paulo Cotrim, no texto que acompanha esta edição (ed. Arranha Céus, 35 euros), lançada ao final da tarde deste domingo (30 de Setembro), no lounge da Altice Arena.

A intenção de fazer um registo que congelasse um tempo-lugar em extinção foi, portanto, premeditada. António Mega Ferreira, comissário da Expo, bem como João Paulo Velez, responsável pela comunicação do certame, tinham esse propósito bem assente, quando contactaram o fotógrafo. Nunca antes, entre nós, havia sido realizado tal trabalho de metódico registo fotográfico com o objectivo de assegurar uma memória futura. Nem mesmo, por exemplo, aquando da realização dos trabalhos preparativos para a construção do recinto da Exposição do Mundo Português, levada a cabo pelo Estado Novo, em 1940. “Hoje, não se sabe como é que aquilo estava”, nota Bruno Portela.

Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR

Mas Mega Ferreira e Velez possuíam essa sensibilidade, frisa. “Eles tinham a percepção da necessidade de manter essa memória viva. Todas aquelas actividades industriais que ali tinham lugar não permitiam o acesso à generalidade das pessoas. O meu foi, sem dúvida, privilegiado, e isso permitiu-me perceber que havia um imenso território que era inacessível à grande maioria”, diz o fotógrafo, lembrando ainda o facto de, no momento da realização do levantamento, viver ali muita gente em condição precária, fosse em bairro sociais ou em barracas.

E o contacto com essa dimensão humana permitiu-lhe aproximar-se de pessoas que viviam na sombra da grande cidade, como os catadores de entulho ou quem navegava entre o fétido Trancão e aquela parcela bem menos conhecida do Tejo. Uma revelação que, aliás, prevalece na memória de Bruno, para além das imensas picadas de mosquito que sofreu durante a temporada em que ali realizou o levantamento fotográfico. “Chamou-me a atenção o acesso a uma zona do rio de imensa beleza natural e até então desconhecida da maioria. Aquela zona era muito mais bonita do que as outras área da zona ribeirinha do Tejo que conhecíamos”, diz.

Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR
Foto de Bruno Portela/DR

Texto de Samuel Alemão

(Nota: este texto foi originalmente publicado n’O Corvo, jornal digital dedicado à cidade de Lisboa, tendo sido aqui reproduzido com a devida autorização.)