Helena Almeida, a singularidade de uma obra habitada

A morte de Helena Almeida é uma enorme perda para todos. Mesmo para aqueles que não o sabem.

Foi sem dúvida uma das artistas mais proeminentes no panorama português do século XX e início do XXI. Durante a sua vida, foi subindo os degraus para se juntar a uma elite de personalidades que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando. Hoje, destaca-se num lugar intemporal de referência na arte portuguesa. A sua memória perdurará no legado artístico que nos deixou, onde o seu corpo era muitas vezes a sua obra ou fazia parte dela.

Helena era filha do escultor Leopoldo Almeida, autor do Padrão dos Descobrimentos em Lisboa. Cresceu, por isso, a seguir com proximidade a produção artística, que mais tarde se iria manifestar nela própria. Com vinte e um anos, em 1955, Helena terminou a sua formação em Pintura na Escola Superior de Belas Artes em Lisboa.

Portugal viveu um período austero e hermético em relação ao resto da Europa devido ao regime do Estado Novo. Este período, entre 1933 a 1974, teve um forte impacto na conjuntura artística nacional, onde as vanguardas e as novas linguagens demoravam a singrar. Só para termos como exemplo, o Surrealismo, que viu o seu manifesto escrito em França no início da década de 1920, só teve as suas primeiras manifestações tímidas em Portugal já quase na década de 1940. Assim, só os artistas mais viajados traziam consigo as bases das novas formas de expressão e Helena Almeida foi um desses exemplos.

De facto, a artista fez parte de uma espécie de ponto de viragem no panorama nacional. Sem nenhum tipo de corrente definida, Helena começou a apresentar as suas obras e a realizar as primeiras exposições na década de 1960, já com uma iniciativa de desconstrução da pintura, da sua perceção e do suporte em si. Uma das referências que podemos destacar como influência da artista é Lucio Fontana. Isto porque Helena teve contacto com a obra do artista e da mesma, ficou uma marca.
Helena Almeida personifica o período em que, talvez pela primeira vez no século XX, a arte portuguesa foi equiparável às manifestações internacionais. A autenticidade da linguagem estética, a expressão emocional, a complexidade e a sofisticação da artista marcaram a arte nacional. Helena não estava a imitar ninguém, estava a criar arte autêntica em Portugal.

Por volta da metade da década de 1970, a artista plástica começou a usar sistematicamente a fotografia e começou a produzir obras pelas quais ficou mais associada a sua figura. A autor-representação nessas mesmas fotografias foram um marco na sua obra e nesse sentido, foi também muito importante Artur Rosa, seu marido e fotógrafo, que participou também em obras e performances. Esta cumplicidade e parceria artística entre ambos, sempre me fez lembrar outras tantas no mundo da arte, como por exemplo Stieglitz e O’Keeffe ou Man Ray e Lee Miller.

Helena abordou imensas técnicas e suportes. Para a cultura popular a sua figura será sempre associada às suas famosas “Pinturas Habitadas”, onde se destaca a tinta azul sobre fotografia a preto e branco. Contudo, os mais atentos saberão que esta não era pintora, não era escultora, não era fotógrafa, não era performer, não era videasta; no entanto, ela era tudo isso, ora simultaneamente, ora alternadamente.

Contudo, chegou agora ao fim a produção desta artista imensa, que nos deixou aos 84 anos esta semana. Foram 50 anos de carreira, desde a sua primeira exposição individual em 1967 até aos seus últimos trabalhos, alguns deles feitos ainda este ano e agora expostos na Galeria Helga de Alvear, em Madrid. Helena elevou a arte nacional e ao mesmo tempo, internacionalizou-a.

Desta forma, por toda a sua obra artística e humanidade, a morte de Helena Almeida é uma enorme perda para todos. Mesmo para aqueles que não o sabem.