João Ribas, o disruptivo director de Serralves, demitiu-se

Saída de João Ribas da direcção artística de Serralves estará relacionada com interdições impostas a menores de 18 anos na exposição do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe.

João Ribas na conferência da sua apresentação como novo director do Museu de Serralves (foto via Fundação Serralves)

Chegou à direcção do Museu de Arte Contemporânea de Serralves no arranque de 2018, cargo que deixou esta sexta-feira. João Ribas, de 39 anos, um dos mais disruptivos directores que aquele museu já conheceu, apresentou a sua demissão junto da administração da Fundação de Serralves por – conforme explicou ao jornal Público – já não ter “condições para continuar” à frente da mais prestigiada instituição de arte contemporânea portuguesa.

João Ribas, que tinha substituído Suzanne Cotter na direcção de Serralves, trouxe para o espaço portuense uma ideia diferente de museu, com exposições sem “censura, obras tapadas, salas especiais ou qualquer tipo de restrição a visitantes de acordo com a faixa etária”, conforme explicou recentemente ao Público e deixou transparecer numa entrevista em Julho ao Shifter. Censura ou restrições não existiram, pelo menos, nas três exposições que durante o Verão puderam ser visitadas em Serralves e que apresentavam algumas peças tradicionalmente impróprias.

Uma exposição polémica

Contudo, restrições impuseram-se antes da inauguração da nova mostra comissariada e curada por João Ribas, e dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe. Robert Mapplethorpe: Pictures abriu ao público esta quinta-feira com menos 20 fotografias das 179 inicialmente previstas, “apenas e só por uma questão de uniformidade” e de “de layout expositivo”. Certo é que a exposição que, escreve o Público, inclui uma zona interdita a menores de 18 anos, mesmo que acompanhados por adultos, onde contam vários trabalhos de Robert Mapplethorpe de cariz sexual e/ou chocante. Entre dições e contradições, a administração da Fundação Serralves esclareceu à mesma fonte que se limitou a aplicar a legislação em vigor (decreto-lei 23/2014) e garantiu estar assegurada ao visitante a liberdade de escolha.

“Não será reservada uma sala à parte para as fotografias de teor mais sexual”, designadamente as da série X Portfolio, que mostram práticas sexuais com alusões explícitas a parafilias várias, incluindo o masoquismo, afirmara Ribas nessa entrevista ao Ípsilon. Mas foi precisamente isso que aconteceu. Uma opção tanto mais surpreendente quanto o director artístico não se limitara a garantir que não seguiria as práticas censórias de outros museus, designadamente nos Estados Unidos, onde exposições de Robert Mapplethorpe (1946-1989) chegaram a ser canceladas já depois da morte do fotógrafo.

O sucessor de Suzanne Cotter na direcção argumentara que as obras da série X Portfolio não eram “imagens violentas”, mas testemunho de “versões não normativas de prazer, de sedução, de dar e receber prazer”, e apenas podiam “não se enquadrar na sensibilidade dominante do que é um corpo normativo, ou de um corpo masculino que sai dos padrões de experiência heteronormativa e branca”.

E explicando que estas imagens, que datam maioritariamente dos anos 1970, iriam integrar-se naturalmente na organização cronológica da exposição, defendeu: “um museu não pode condicionar, separar ou delimitar o acesso às obras, de dizer o que as pessoas podem ver ou não”. Que parece ter sido exactamente o que Serralves fez.

– Público, 21 de Setembro de 2018

O Público avança que “João Ribas parece ter sido desautorizado, no que poderá ser a primeira manifestação pública de um ambiente de tensão entre a administração e a direcção artística”, liderada pelo jovem prodígio de 39 anos, que o jornal diz saber que existia “há já algum tempo”.