O pai do Linux abandona o desenvolvimento para cuidar de si

Linus sai por reconhecer que, apesar do seu importante contributo ao nível técnico, as suas habilidades sociais não são as melhores, deixando um sentido pedido de desculpas a todos aqueles a quem magoou.

Linus Torvalds numa TED em 2016 (foto de Ryan Lash/TED)

Há duas semanas, dávamos a notícia da saída de Jack Ma do cargo de CEO da Alibaba e sublinhávamos como isso era uma decisão excepcional na alta roda dos negócios, onde CEOs costumam ficar até que motivos de força maior acabem por precipitar a sua saída. Esta semana, voltamos a fazer notícia sobre outra saída sonante, mas desta vez num mundo que se rege por uma filosofia completamente diferente.

Falamos da saída de Linus Torvalds da cadeia de desenvolvimento do Linux. Ao fim de 17 anos, o finlandês que criou o sistema operativo aberto quando ainda estudava na Universidade de Helsínquia decidiu subtrair-se da cadeia de desenvolvimento deixando uma importante mensagem. Linus sai por reconhecer que, apesar do seu importante contributo ao nível técnico, as suas habilidades sociais não são as melhores, deixando um sentido pedido de desculpas a todos aqueles a quem magoou ao longo do processo e a garantia de que vai procurar ajuda para o seu temperamento.

A decisão surge ao fim de alguns anos e como resultado de algumas polémicas, e surpreende especialmente por ser uma assunção de culpa e responsabilidade por parte de Linus Torvalds, que até estes dias não parecia muito preocupado com a forma como se dirigia a quem contribuía com código – especialmente quando este tinha erros ou falhas. Segundo se conta num extenso artigo publicado na revista referencial New Yorker, o finlandês teve o momento de consciencialização final neste sentido quando confrontado com uma série de questões feitas pela revista sobre histórias de antigos colegas queixosos do seu comportamento abusivo.

Um “ditador benevolente”

Na peça onde Linus é apelidado de “ditador benevolente”, são relatados alguns dos momentos mais polémicos da sua gestão do projecto e o próprio reconhece: “Estou muito orgulhoso do código de Linux que inventei e do seu impacto no mundo. Mas não sou tão orgulhoso da minha inabilidade para comunicar bem com os outros – é um esforço que tenho feito ao longo da vida. Para quem magoei, peço imensa desculpa.”

O discurso agora de lamento não podia ser mais contrastante com o de outrora, como demonstram os exemplos escolhidos pela revista nova-iorquina para ilustrar a mudança de atitude. Em 2013, Linus recusava-se a adoptar uma postura corporativa defendendo que isso poria em causa a naturalidade das suas acções: “Da mesma forma que não vou usar gravatas, também não vou aceitar a falsa simpatia, as mentiras, as políticas de escritório, as traições, a passivo-agressividade e as buzzwords. Porque é NISTO que ‘agir profissionalmente’ dá: as pessoas fazem todo o tipo de coisas nojentas porque tentam expressar os seus instintos normais de formas pouco naturais.”

Recorde-se que o kernel Linux foi criado por Linus Torvalds, ainda na faculdade mas ao longo das últimas duas décadas tem crescido imenso, suportado pela Linux Foundation e com a colaboração de uma vasta equipa de programadores, grande parte voluntários ou trabalhadores de grandes tecnológicas que também beneficiem do seu desenvolvimento – por exemplo, a Google (visto que o Android é uma versão de Linux), a Intel ou a Samsung.

A importância de Linus na criação do sistema e na sua componente técnica foi deixando passar em branco uma atitude em certos pontos deploráveis com a cultura do projecto, a reflectir as más práticas do seu criador que gozava de uma espécie de estatuto de culto entre os círculos mais próximos. A agressividade de Linus tem sido, no entanto, um assunto em cima da mesa o que acaba por diminuir a surpresa deste momento. Em 2015, Megan Squire, aluna da Universidade de Elon, usou uma base de dados de e-mails de Linus para ensinar o seu computador a reconhecer insultos – mais de mil nos 21 mil e-mails enviados em quatro anos continha a palavra “merda”.

De resto, este projecto de pesquisa nascera da queixa de uma colaboradora, Sarah Sharp, do Linux, contra a atitude do finlandês. Sara garantira, na altura, que não pretendia julgar Linus Torvalds mas simplesmente melhorar a cultura na “mailing list” onde os programadores vão trocando actualizações sobre o que estão a desenvolver em volta do sistema operativo: “Não estou a pedir que mudes o estilo de comunicação para ajudar as minorias. Não sou uma feminista maluca a passar-me sobre piolhos no Google+ […] Estou a tentar melhorar a mailing list do kernel [Linux] para todos os programadores. Podemos dar feedback técnico negativo sem abusos de linguagem.”

O hiato de Linus

Quanto ao seu afastamento, Linus Torvalds explicou tudo ao pormenor num extenso e educado email deixado na lista que se pode aceder publicamente e que se sintetiza bem olhando aos últimos parágrafos:

Isto não é uma espécie de férias de “Estou esgotado, preciso de sair”. Não sinto que não queira continuar a manter o Linux. Pelo contrário. Quero muito continuar este projecto em que estou a trabalhar há quase três décadas.

Isto é como o tempo em que tive de parar o desenvolvimento do kernel porque precisava de criar uma pequena ferramenta chamada Git. Preciso de tirar um tempo para me ajudar a perceber como me comportar de maneira diferente e resolver alguns problemas com as minhas ferramentas e processos de trabalho.

E sim, parte do processo pode ser só relacionado com as ferramentas. Talvez possa criar um filtro de e-mail para que quando envie um com palavras ofensivas ele simplesmente não saia. Porque ‘hey’, sou um crente das ferramentas e pelo menos alguns dos problemas podem ser resolvidos com simples automação.

Eu sei que quando realmente “me olho ao espelho” é claro que isso não é a única coisa que tenho de mudar mas… podem enviar-me mais sugestões por e-mail.

Esta história terá certamente novos capítulos ou, ajustando à realidade, novas entradas na mailing list do kernel de Linux. O homem que criou o Linux, que alimenta uma boa parte dos aparelhos computacionais do mundo, voltará com certeza para ajudar a desenvolver o monstro que já leva mais de 20 milhões de linhas de código e já nem ele conhece por completo.

Avaliando pelas suas palavras, este hiato pode muito bem resultar numa ferramenta – gratuita e de código aberto, quem sabe – que nos ajude a todos a lidar com a impulsividade no e-mail, afinal de contas o Git era só uma “pequena ferramenta” para gerir repositórios de código (como o GitHub) e hoje é um dos mais importantes motores de desenvolvimento em comunidades abertas.