Miguel Januário quer fazer do ±MaisMenos± um partido político e está a recolher assinaturas

A intenção, disse o artista portuense à agência Lusa, "passa por criar até um certo canal alternativo de representação, que jogue mais com a criatividade e com a intervenção".

Vota ±MaisMenos± no México (foto via Miguel Januário/Facebook)

Há muito que o artista Miguel Januário simula uma campanha eleitoral contra-corrente através do seu projecto ±MaisMenos±, mas agora quer criar um partido de verdade. Desde o final de 2017, tem vindo a recolher assinaturas para a criação de um partido político “onde as pessoas se possam sentir de alguma forma representadas”, conforme descreveu à agência Lusa à margem do Festival Iminente, que decorre este fim-de-semana em Lisboa.

Iniciado em 2005 num contexto de investigação académica, Miguel Januário reflecte, através do ±MaisMenos±, sobre o modelo de organização política, social e económica que gere a vida nas sociedades actuais. A ideia de criar um partido político é “um processo – desde o início da ideia, pensar como poderia ser e criando até algumas intervenções, mais no campo da intervenção e não tanto no lado da política – com cerca de dois anos”, explicou à Lusa, dias antes da abertura de portas do Iminente, onde está a recolher assinaturas.

Criatividade e intervenção no mundo da política

A intenção, disse, “passa por criar até um certo canal alternativo de representação, que jogue mais com a criatividade e com a intervenção”. Aliás, o artista natural do Porto pretende “trazer um bocadinho a criatividade para o campo da política, cruzar arte e política de uma forma mais real, e também criar uma plataforma onde as pessoas se possam sentir de alguma forma representadas”.

Ao mesmo tempo, “durante todo o processo” até à criação efectiva do partido, Miguel Januário quer “relembrar às pessoas o quanto é importante estar-se envolvido com a política”. “Porque quando achamos que não estamos, ou dizemos que não estamos, que não queremos saber de política, isso é um gesto político. E é um gesto político que interessa muito aos dinossauros da política, ou seja, à política já existente, do sistema, podemos chamar do sistema”, afirmou.

Três mil assinaturas já recolhidas

Apesar de apenas seis terem assento parlamentar, existem, em Portugal, 23 partidos legalizados. E, se tudo correr como previsto, poderão ser 24 em breve, se o Democracia 21 conseguir recolher as assinaturas necessárias. São necessárias 7500 assinaturas para se criar um partido político, além de outras formalidades, como a elaboração de estatutos, e cabe ao Tribunal Constitucional reconhecer a formalização das novas forças políticas.

Miguel Januário começou a recolha na edição do Iminente de 2017, que se realizou em Oeiras, e tem sido um processo contínuo ao longo dos últimos meses, em diferentes contextos. Antes do novo festival, disse à Lusa ter cerca de três mil assinaturas – “vamos mais ou menos a meio”, contou, acrescentando esperar que, “mais um ano, e ‘a coisa’ esteja pronta”. “Tem-se feito com alguma calma, sem pressa, ao contrário de outras forças políticas novas”, referiu.

±MaisMenos± no Iminente

±MaisMenos± está no Festival Iminente com diversas intervenções. Miguel Januário espalhou pelas paredes do Panorâmico de Monsanto “uma série de chavões políticos, para deixar ao campo da imaginação das pessoas o que é que representam esses chavões na política actual: verdade, liberdade, justiça, futuro”. “Tudo sendo mais ou menos futuro, mais ou menos liberdade, mais ou menos justiça. É uma forma muito simples de pôr as pessoas a reflectir um pouco sobre esses chavões, que foram feitos a partir de uma recolha do que é mais usado nas eleições, nos cartazes”, explicou.

±MaisMenos± no Festival Iminente (foto via Miguel Januário/Facebook)
±MaisMenos± no Festival Iminente (foto via Miguel Januário/Facebook)

Em maior destaque, estará a palavra “Real”, cujas letras foram recortadas num material espelhado e coladas no exterior do edifício, “que é um bocado a continuidade destas intervenções”, referiu o artista. “Real” traduz também “a ideia de o partido ser mais ou menos real, e da realidade à nossa volta, mas também é uma palavra em espelho que reflecte a Natureza, o céu, neste edifício, que está aqui perdido no meio desta floresta”, disse.