Porque não devias partilhar Spotify nas tuas Stories

É que se o hardware o permite, o software não pode limitar.

Em cada moda tem sempre de existir um chato, ou alguém com a coragem e o desprendimento suficiente para lhe bater de frente. Depende da perspectiva. Neste caso, sou eu, que escolho levantar a questão impensável sobre as repercussões de algo que em tão pouco tempo se tornou tão natural.

Falo, como de certeza percebeste pelo título, da partilha de músicas nas Instagram Stories recorrendo à integração do Spotify. E faço-o para iluminar um ponto maior e mais amplo: o de que o design e os acordos entre multinacionais podem provocar mudanças no nosso comportamento sem qualquer tipo de racionalização ou resistência.

É portanto, para isso que este artigo serve, não te tentar demover dessa prática, mas para que possas pensar sobre todas as suas implicações, mesmo aquelas que o design e a simplificação prometida escondem.

Para o fazer podia facilmente voltar atrás e recordar como por carta os nossos antepassados se entendiam mas neste caso nem é preciso usar o contraste do tempo para despertar as questões. Na verdade, também eu gosto de mandar a minha Story e de lhe adicionar uma musiquinha.

Perguntam vocês: então que raio é o teu problema?

O meu problema explica-se numa linha, embora depois mereça uma maior sustentação. Preocupa-me que embalados numa corrente positivista de progresso acabemos por, sem querer, entregar todas as nossas acções a marcas. Pior que isso, sempre às mesmas marcas.

Yup. É que caso te tinhas esquecido pela sua preponderância e penetração, o Spotify não é uma editora nem tecnologia de distribuição musical especialmente inovadora. É uma empresa à qual fazemos publicidade cada vez que recorremos à pequena integração aparentemente inofensiva. E, se tudo nos leva a crer que a integração é em prol da nossa liberdade em partilhar músicas, o caso pode ser mais complexo que isso porque para além de músico e editora que estariam jogo numa partilha normal, agora existe outro intermediário que, em abono da verdade, não intervém no processo de produção ou criação – isto é, aquele que devia ser mais valorizado.

Assim, mais do que fazermos publicidade a um artista ou ao seu trabalho estamos a fazer publicidade igualmente – com call to action incluído – para uma forma de consumir conteúdo. E se quem interagir nem tiver conta premium o mais provável é que ao primeiro next vá parar a outro artista qualquer, contando de qualquer forma para a contagem de plays de Spotify.

A promessa de de simplificação está inerente à utilização de uma aplicação comercial e beneficia os seus utilizadores em detrimento de outros – e o seu catálogo em detrimento de outros.

Não estás convencido?

Então, deixa-me que te diga que, desde que esta funcionalidade saiu, se tornou impossível gravar o ecrã de iPhone enquanto se usa a app de música ou o serviço Apple Music, mesmo que em reprodução esteja uma música que tenhas comprado em suporte físico.

Resumindo este ponto: sob a promessa de simplificação e resposta a uma necessidade que os utilizadores iam resolvendo com criatividade (gravando o ecrã, transcrevendo as letras, usando print-screens, simplesmente partilhando as capas dos discos, etc), o Instagram e o Spotify – numa acção coordenada e com o conluio de outras tecnológicas (directa ou indirectamente) – levam-nos a subscrever mais um serviço, tendencialmente a mudar um comportamento e mais do que isso, tornarmo-nos veículos da sua mensagem.

Se tudo isto pode parecer normal – e é –, não parece o caminho saudável para o desenvolvimento tecnológico, especialmente se estivermos atentos às notícias em torno destas plataformas e a forma como elas funcionam. Em primeiro plano, é preciso ter em conta que ao mesmo tempo que partilhamos a nossa bela vida nas Stories, estamos a consumir dados e a ser mais um número no relatório final de vendas publicitárias. Se podemos gabar o potencial criativo deste novo formato, devemos perceber também até que ponto e em que direcções deve evoluir e isso só se faz com questões.

Estará o Spotify a contar as audições das Stories como reproduções das músicas e, nesse sentido, a remunerar os artistas detentores dos direitos? Estaremos nós a promover realmente uma música e o seu contexto cultural ou um produto de entretenimento isolado num serviço de streaming lucrativo? É preciso não ter problemas em colocar as questões especialmente quando estas plataformas chegam às notícias quase todos os meses e nem sempre por bons motivos.

Ainda este ano, o Spotify e o Apple Music foram obrigados pela justiça norte-americana a aumentar as comissões aos artistas e, há três meses, o serviço de streaming sueco foi alvo de críticas por ter “vendido” todo o seu feed ao Drake. São pontos como este – que, admito, podem parecer comuns – que nos devem deixar cépticos. Estaremos nós a apoiar um artista ao promover a utilização de um serviço que se rege em parte pelas regras da maioria das outras redes sociais? Ou será esta uma forma de entrarmos no mesmo barco e remarmos na mesma direcção, levando a uma espécie de mono-cultura musical?

Em jeito de conclusão, e para que fique claro que a ideia é levantarmos as questões para que possamos responder com criatividade, ficam as dicas: identificar o perfil do artista, gravar directamente de uma coluna ou transcrever uma letra podem ser boas ou até melhores formas de passar a mensagem, sem recorrermos à facilitação promovida por uma marca que… no fundo, no fundo, só a promove a ela.