Rui Pinto, o Julian Assange do futebol mundial?

Football Leaks é mais que e-mails do Benfica, são informações valiosas sobre o mundo do Futebol.

Rui Pinto Football Leaks

Quando as revelações atingem realidades que nos são próximas, é mais difícil analisá-las com o distanciamento e a frieza com que analisamos outras. O caso do Football Leaks – que, ainda por cima, mexe com o tão nacionalmente adorado futebol – é um paradigma disso mesmo, com a animosidade a sobrepor-se à racionalidade, e os sentimentos de invasão e traição a sobreporem-se ao eventual valor social, político e institucional das revelações.

Se é Rui Pinto o homem responsável pelo Football Leaks, não será ele uma espécie de Julian Assange do futebol mundial? E digo Assange para usar um nome concreto que poderia ser qualquer outro. No fundo, não serão os Football Leaks tão saudáveis para a justiça no desporto como foram Wikileaks, Panama Papers, Paradise Papers ou outras libertações de documentos do género? O que distingue este whistleblower de outros?

Football Leaks: de 2016 até hoje

Comecemos por recordar a abrangência do Football Leaks. O caso remonta ao ano 2016 e foi na altura anunciado como o maior leak de sempre no mundo desportivo. Em causa, estava a libertação em massa de documentos que levantavam suspeitas sob esquemas de lavagem de dinheiro, fuga aos impostos e outras ilegalidades ou actividades suspeitas, como milhões em offshores, por parte de agentes desportivos de renome num total de 1,9 terabytes de documentos – equivalente a 500 mil bíblias. Um mar de informação onde eram citados nomes como Jorge Mendes, Cristiano Ronaldo ou José Mourinho.

O primeiro órgão de comunicação social a quem o material fora entregue, de modo gratuito, foi o alemão Spiegel, que após confirmar a veracidade dos documentos, os partilhou com o European Investigative Collaborations (EIC), o consórcio de investigação jornalística ao qual pertencem 10 dos mais respeitados órgãos de comunicação social europeus – de Portugal, o Expresso – e responsável por algumas das investigações acima mencionadas.

Em entrevista ao Spiegel, com o nome de John, o autor do Football Leaks era peremptório quanto ao seu objectivo: “Os adeptos têm de perceber que cada bilhete, cada camisola que compram e cada subscrição televisiva, estão a alimentar um sistema extremamente corrupto.”

John é Rui Pinto?

A revista Sábado apresentou, esta semana, “A História do Homem que Revelou os Segredos do Futebol” – ou seja, a história de Rui Pinto, um jovem de Gaia que poderá ser o homem por detrás do Football Leaks. É caso para repetir: será Rui Pinto o Julian Assange do futebol?

A ligação portuguesa ao caso ou o interesse do autor, ou autores, do Football leaks pelo futebol nacional é fácil de perceber. Documentos sobre os principais clubes portugueses e as suas actuações no mercado de transferências, com alguns pormenores estranhos ou misteriosos, foram os primeiros a ser divulgados pelo site. Era o primeiro tijolo da maior base de dados online de contratos secretos e opacos feitos no universo bilionário do futebol, cuja importância John arrematava: “Há ligas na Europa que são controladas por três ou quatro agentes de jogadores. Eles fazem transferências com presidentes corruptos. O futebol está-se a consumir de dentro para fora.”

Mas a abrangência do Football Leaks não se fica por aqui e é essa abrangência que deve demandar um olhar sóbrio e racional, até porque foi essa abrangência que o colocou como alvo de especialistas de IT, advogados e detectives, que tentavam descobrir a sua identidade. Segundo reporta o Spiegel, nos documentos podem encontrar-se ligações entre o mundo de futebol e máfias do Cazaquistão, Turquia e Rússia, que usam o seu dinheiro para se envolver no mundo do futebol, deixando o seu nome de fora.

John é Lobuzov que é Rui Pinto?

Se para a Spiegel era John, em Portugal o nome que se via ligado ao escândalo era, e é nos dias de hoje, Artem Lobuzov. Em 2015, Artem terá iniciado contactos com Nélio Lucas, um dos representantes do conhecido grupo de agentes Doyen, tentando negociar o silêncio em torno das informações relativas à empresa de Lucas. Naquilo que o Spiegel apelida como o “lado negro” do projecto, a tentativa de chantagem em troco de informação, o advogado de Lobuzov – Aníbal Pinto – ter-se-à chegado a encontrar com o empresário. Questionado sobre isso, John, cora, mostra-se desconfortável quanto à pergunta, como se lê na reportagem e dispara uma declaração que resume tudo: “Nunca hackámos ninguém, e sempre o quisemos dizer, nós não somos hackers. Só temos uma boa rede de fontes. Todas essas alegações ridículas só vêm de uma organização criminosa. Isso é o que a Doyen é para nós, uma organização criminosa”

Ou seja, a questão que abre este parágrafo continua a ser um mistério, bem como a real composição da equipa por trás do Football Leaks. Na peça da Spiegel, estas dúvidas são ecoadas, e a equipa de reportagem revela mesmo que a publicação de partes dos documentos só foi mesmo levada avante pela pertinência das informações e, simultaneamente, porque a tentativa de chantagem não foi bem sucedida.

Neste ponto, voltemos à questão dos whistleblowers. Mesmo Snowden, Manning ou Assange, foram vistos por uns como traidores, enquanto eram vistos por outros como heróis. Este caso continua com mais uma camada de mistério por não se saber realmente a identidade do homem por trás da revelações mas à luz dos factos e caso se continue a confirmar a sua veracidade, será Rui Pinto o Julian Assange do futebol? É que mais do que o que é ecoado nos títulos da imprensa nacional sobre os “e-mails do Benfica” a confirmar-se a relação das identidades afiançada pela revista Sábado, as revelações de Rui Pinto foram bem mais elucidativas.

A conta de Facebook do Football Leaks não tinha, desde 2016, actividade e publicou nas últimas horas uma mensagem de desafio à Polícia Judiciária nacional.

@PJ looking for me? LOL #catchmeifyoucan

Publicado por Football Leaks em Quinta-feira, 13 de Setembro de 2018