Serralves: o que diz a administração e o que diz João Ribas?

Em comunicado, o antigo director do Museu de Serralves quebrou o silêncio e contestou as "calúnias e ofensas" que diz terem sido divulgadas pela administração da Fundação.

João Ribas, o ex-director do Museu de Serralves (foto via Serralves/DR)

A polémica está instaurada na principal instituição de arte contemporânea do país. Foi na sexta-feira passada que João Ribas, de 39 anos, anunciou a sua demissão da direcção artística do Museu de Serralves, um dia depois da inauguração da exposição fotográfica curada pelo próprio e dedicada a Robert Mapplethorpe, por já não ter “condições para continuar”.

Na altura da sua demissão, João Ribas nada mais acrescentou, mas o antigo director artístico de Serralves decidiu voltar a falar esta quarta-feira, depois de uma conferência de imprensa da administração da Fundação Serralves. Num comunicado enviado às redacções, João Ribas começou por afirmar que “o cargo de Diretor do Museu de Serralves é incompatível com ingerências, pressões ou imposições que limitem a sua autonomia técnica e artística”. Ora o agora director demissionário diz que esse tipo de restrições existiram no âmbito da exposição de Robert Mapplethorpe, originando “um ponto de rotura”.

João Ribas denuncia interferências

Explica João Ribas que “as interferências na exibição de determinadas obras e na localização de outras que ocorreram durante a semana de montagem, contribuíram para uma descontextualização profunda, obrigando-me, enquanto curador, a alterar a selecção dos trabalhos para que a exposição fosse um todo coerente e para que, assim, se promovesse de modo adequado o conhecimento e o diálogo social protagonizados por Robert Mapplethorpe”. Na mesma nota, confirma que estavam inicialmente previstas 179 obras na exposição, número que, devido às “interferências e restrições” foi reduzido para 161. “No dia da inauguração, a curadoria foi mais uma vez intimada a retirar duas obras que já se encontravam expostas”, acrescenta.

O antigo director do Museu de Serralves esclarece também que “a exposição nunca foi concebida numa lógica proibicionista” e que “houve a preocupação de criar mecanismos que permitissem aos visitantes fazer escolhas”. João Ribas entende que “nenhuma exposição deve ser alvo de condicionamentos e imposições proibicionistas, nenhuma direção artística deve ser alvo de sistemáticas ingerências” e justifica, assim, que a decisão de se demitir foi tomada “em defesa dos bons princípios de funcionamento institucional e em defesa da liberdade artística”.

Ana Pinho desmente

O comunicado de João Ribas termina a comentar as declarações de Ana Pinho e de todo o restante conselho de administração da Fundação Serralves. Diz, “têm sido divulgadas algumas falsidades e feitas imputações indevidas aos meus comportamentos profissionais, que sinto como calúnias e ofensas ao meu bom nome”. O ex-director refere-se, em particular, à conferência de imprensa que o conselho de administração da instituição portuense deu no mesmo dia em que fez o comunicado e no qual Ana Pinho e a sua equipa desmentiram qualquer interferência no trabalho de João Ribas.

Referindo ter recebido a informação da demissão de João Ribas por e-mail, Ana Pinho, presidente do conselho de administração de Serralves, explicou que não mandou retirar quaisquer obras de exposição e que todas as fotografias expostas foram escolhidas por João Ribas enquanto curador da exposição. “As 20 obras que não foram expostas, por iniciativa do curador, não justificam nenhuma ação de censura”, acrescentou, dizendo também que João Ribas propôs a existência de uma sala restrita, de “um núcleo reservado com as obras mais sensíveis, com esclarecimento à entrada sobre o caráter mais sensível”. Ana Pinho referiu também que a exposição de Robert Mapplethorpe foi proposta pelo agora director demissionário e que “desde o princípio que a proposta contemplava a existência de uma área reservada. Não houve qualquer contestação em relação a isso, foi absolutamente pacífico”.

A presidente de Serralves não quis comentar o alegado mal estar entre João Ribas e a administração, mas Isabel Pires de Lima, também membro do conselho, disse que “não deixa de ser estranho que nos dois anos e meio desta administração, os resultados obtidos, absolutamente excepcionais, tenham sido obtidos num clima interno tão conturbado”. Já José Pacheco Pereira, que integra igualmente o conselho de administração da Fundação, optou por defender Ana Pinho, afirmando que nunca viu “ninguém num conselho de administração que trabalhasse pro bono, que não recebe salário, a defender tão bem os interesses de Serralves como a Ana. Há muita inveja”. Pacheco Pereira reiterou ainda que “em Serralves não houve nenhuma censura, houve um sentido de responsabilidade sobre crianças de 5, 6, 7, 8, 9 anos. Não há censura nenhuma, está lá tudo”.