Uma lição sobre criar música para ver e ouvir

Com um fato branco, luvas e uma máscara tipo esgrima a completar a tela humana, debaixo de um V feito com por dois ecrãs e à frente de outros dois, Squarepusher controlou a partir do seu ecrã toda uma perfomance audio-visual em que absolutamente tudo está interligado.

Fotografia de Rafael Farias/Milhões de Festa

Quando os headliners são DJs é de esperar que a sua perfomance seja realmente marcante para que terem atingido esse estatuto. Outra razão para a escolha pode ser o vasto repertório e o corpo de trabalho equilibrado. Mas quem vai à descoberta precisa sempre de algo mais. Ou, no mínimo, sairá certamente mais satisfeito(a) se assim for. E assim é com Damogen Furies, de Squarepusher.

Tom Jenkinson, conhecido pelo pseudónimo de Squarepusher, é um nome incontornável na música electrónica com mais de uma década de carreira e o reconhecimento generalizado da sua importância na diluição das fronteiras entre géneros ali entre os 1990 e os 2000. Se isso poderia ser razão suficiente para ser um dos destaques do Milhões de Festa, o britânico junta a isso uma componente visual verdadeiramente inacreditável.

Fotografia de Rafael Farias/Milhões de Festa

Com um fato branco, luvas e uma máscara tipo esgrima a completar a tela humana, debaixo de um “V” feito com por dois ecrãs e à frente de outros dois, Squarepusher controlou, a partir dos seus dois ecrãs, toda uma perfomance áudio-visual em que absolutamente tudo está interligado.

Esta segunda dimensão do seu espetáculo ao vivo confere-lhe um estatuto único e os créditos não ficam por conta doutrem. Tom Jenkinson é o homem por trás das batidas, dos grafismos e até de algum software, o que torna toda esta relação simbiótica num acontecimento ao vivo.

Durante a hora de espectáculo, imagens projectadas dão forma e cor aos sons que Squarepusher vai disparando, para isso, o artista utiliza software que relaciona características da música com efeitos gráficos. Por exemplo, a subida de um pitch pode aumentar o nível de aleatoriedade de um glitch ou a subida das batidas por mim fazer acelerar toda a animação. Ou seja, sim, é ele que faz tudo: da música aos visuais das suas actuações; e fá-lo ali, ao vivo.

Pela web podemos encontrar algumas imagens de como tudo isto se torna possível, isto é, da interface do software utilizada ao vivo.

Via blackboxecho.com
Via blackboxecho.com
Via blackboxecho.com

Numa das entrevistas em que é desafiado a falar sobre as suas múltiplas capacidades – Squarepusher vai desde a organicidade dos instrumentos tocados (baixo) e do jazz à electrónica mais geek –, o artista remata: “Para mim é tudo igual, é tudo matemática.”

Na concepção deste espéctaculo visual, o músico contou com a colaboração da Black Box Echo e de Zachariah Norman, capazes de pensar cada pormenor para que tudo funcione em pleno e seja “tocado” pelo músico. Como base para toda a loucura, os programas utilizados estão preparados para captar algumas informações sobre o local da perfomance de Squarepusher, bem como imagens retidas na memória gráfico do computador da sua utilização recente que acabam por ser completamente processados ao vivo.

A relação entre os efeitos visuais e o som nesta actuação é de tal maneira simbiótica que seja qualquer for a configuração as imagens cessam sempre que se deixa de se ouvir música.

De resto, acrescentar apenas que para compor tudo e acrescentar diversidade podemos ainda contar com algumas colaborações na área do creative-coding. Por exemplo, o peso pesado desta área Joshua Davis também assinou uma participação para este disco.

Mais do que uma lição sobre como criar um concerto para se ver e ouvir, este é também um exemplo perfeito sobre as aplicações reais da programação criativa – a nova área, quer de código, quer de design, que tem vindo a imprimir uma nova estética e, por vezes, uma nova lógica a algumas situações do nosso quotidiano.