Yarza Twins: começaram por brincadeira e hoje são um caso sério

Aproveitando como pretexto o seu último trabalho para a revista Neo2, falámos com as gémeas espanholas à conquista do mundo do design.

Yarza Twins design

Por mais perto que estejamos de uma cidade ou mesmo de um país, hoje em dia parecem ser os fluxos online a definir onde vai parar a nossa atenção e acaba por ser mais fácil ouvirmos falar de revistas norte-americanas, designers norte-americanos, artistas norte-americanos e por aí adiante. Para o contrariar, é preciso alguma atenção e uma resistência activa na procura por locais que nos sejam próximos – afinal de contas é muito importante conhecer a perspectiva do outro, do próximo, para que possamos simpatizar com elas. Foi num exercício dessa resistência que resolvemos fazer uma rápida entrevista com as Yarza Twins, duas gémeas espanholas que estão a dar cartas no mundo do design além fronteiras.

Aproveitando como pretexto o seu último trabalho para a revista Neo2, falámos sobre as diferenças entre os vários locais onde Eva e Marta já trabalharam bem como sobre a importância do design na diluição destas diferenças.

 

Para quem não vos conhece, sugiro que se apresentem em 5 projectos marcantes da vossa carreira – seja porque adoram o trabalho, seja porque vos fez milionárias. 

  1. Panificadora: nós tínhamos 18 anos e conseguimos salvar uma fábrica antiga na nossa cidade natal ajudando a recolher 5 mil assinaturas. 8 anos depois descobrimos o design gráfico e o edifício continuava abandonado. Então, decidimos fazer uma identidade gráfica fictícia imaginando que o edifício era um museu. Este projecto foi publicado em tantas revistas – de design e generalistas – que, ironicamente, o edifício que tínhamos salvo anos antes salvou-nos dos empregos não especializados que tínhamos e deu-nos as primeiras oportunidade como designers. Obrigadas, Panificadora!

  1. HP x Smirnoff: desenhámos a campanha completa incluindo garrafas especiais de Smirnoff para dar a conhecer um novo software da HP (chamado D4D). Este programa permitiu-nos criar milhares de garrafas únicas. E o projecto valeu-nos um Lápis no D&AD, uma espécie de “Óscars do design gráfico”.

  1. Adidas Campaign: a Adidas Londres comissionou-nos para criarmos uma série de pósteres que marcassem a abertura do Adidas Football Creator Base, em Londres, um evento pop-up que celebrava o arranque do Mundial de 2018. Este projecto abriu-nos portas a muitos mais!

  1. Formula E: o que começou com a tentativa de salvar uma moda tipográfica holandesa do princípio do século XX, acabou connosco a trazer essa moda para o presente com a criação da fonte Batavier. A fonte tornou-se tão popular na imprensa de design que a Formula E (a Fórmula 1 Eléctrica) decidiu comprar a licença completa e fazer dela a sua fonte oficial.

  1. MTV: fizemos uma animação para a MTV, provavelmente já viram se vêm o canal. É um mundo louco e ruivo de 15 segundos.

Vocês são espanholas mas estão actualmente a trabalhar em Londres, porquê a mudança? Necessidade ou desejo?

Mudámo-nos por duas razões. A primeira foi a falta de oportunidades para os mais jovens quando terminámos a universidade; a grande crise começara e não havia empregos que pagassem mais de 300 euros por mês. A Marta estudou Engenharia Civil e estava a ganhar mais dinheiro a trabalhar na loja da Zara do que como engenheira. A Eva terminou a licenciatura em Belas Artes e sentiu que queria sair do país para abrir os horizontes, experimentar e expandir os estudos na área do design; felizmente, teve a oportunidade tirar um Mestrado em Comunicação de Design na Central Sait Martins. A Marta acabou por se juntar ao mestrado quando percebeu que a sua paixão também era design.

Recentemente redesenharam a Neo2, uma revista de cultura jovem espanhola, como é voltar ao vosso país e reconhecer um ícone da vossa geração?

Para nós foi um dos projectos mais entusiasmantes em que já trabalhámos. Ter a Neo2 como cliente foi como um sonho tornado real. Nós seguimos a revista desde o nosso tempo de universidade e quando fomos escolhidas nem acreditámos na sorte que estávamos a ter. Passar num quiosque na nossa cidade e encontrar o nosso desenho em todo o lado é um sentimento muito excitante.

Depois da vossa experiência a trabalhar além fronteiras, especialmente EUA e Reino Unido, como olham para o papel de desenvolvimento da cultura local de projectos como a Neo2. Há um longo caminho a fazer ou é um auto-preconceito?

A diferença que vemos entre EUA e Reino Unido face a Portugal ou Espanha é que a sua indústria criativa move milhões de euros. Porquê? Porque cuidam dela, celebram a inovação, a diferença, eles dão aos artistas oportunidades e apoiam as universidades e organizações… Revistas como a Neo2 são super importantes para a nossa sociedade (em geral qualquer estímulo cultural); são provavelmente a primeira referência que os criativos mais jovens vão encontrar e inspiram-nos a ser corajosos, a experimentar com a sua criatividade sem medo de serem rejeitados. Se estimulares os jovens artistas podes criar uma indústria em poucos anos. Por outro lado, não diria que há um grande caminho a fazer, até porque muitos dos melhores designers de Londres e Nova Iorque são naturais de França, Portugal ou Espanha. Nós temos talento e é muito bom, só precisamos de o usar e de o trazer de volta para melhores oportunidades.

Não vos parece que a industria do design e da criatividade se está a centralizar em algumas cidades, não falta design nos países periféricos como Portugal e Espanha? (Ainda que haja grandes designers.) Será o papel de revistas como esta chamar a atenção para o papel do design?

É normal que uma maior população atraia mais criativos. Não o podemos negar. Mas há vários exemplos que mostram que se o design gráfico for bem feito se pode tornar viral. Quando chegámos a Londres ninguém sabia nada sobre o Porto. Nessa altura a cidade escolheu o Eduardo Aires para fazer um rebranding da cidade, e foi tão popular na indústria do design que passados 5 anos muita gente em Londres conhece o Porto, sabe onde e o que é e muitos até já lá estiveram. O mesmo aconteceu com Barcelona e Gaudí, Madrid e os Palácios. Cada cidade tem usar os seus criativos com ambição e o retorno vai ser muito maior. Sim, é importante que as revistas chamem à atenção para o design, mas é a sociedade no geral que precisa de valorizar a beleza das coisas: se tiveres que instalar novo lixo na tua cidade, porque não fazê-lo espectacular? Precisamos de normalizar o facto de as coisas terem de ser bem desenhadas e as pessoas inconscientemente vão-se aperceber.

Posso pedir-vos que escolham 5 designers espanhóis que os nossos leitores devam seguir? E Portugueses, conhecem alguns?

Espanhóis diríamos: Yarza Twins (Nós! ahah), mas também: Naranjo-Etxeberría, Córdoba Canilhas, Carla López Studio, Cocolia, Alex Trochut & Palomo Spain; Português, o melhor!!! Um designer português actualmente em Nova Iorque chamado Bráulio Amado, o estúdio AH-HA, e a Lisa H Moura.