À conversa com os Best Youth sobre o seu novo disco, Cherry Domino

Depois de um Verão ausente dos palcos, a dupla mostra finalmente o disco ao vivo.

Foto de Aloísio Brito/DR

Passou-se um Verão desde que os Best Youth lançaram o mais recente disco Cherry Domino e esta sexta-feira, 19 de Outubro, vamos ter a oportunidade de ver a sua apresentação ao vivo no Estúdio Time Out Market, em Lisboa, e uma semana mais tarde no Porto, a dia 25.

O formato banda contempla os membros originais da banda, Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, e contará também com Fernando Sousa (X-Wife) no baixo, Miguel Ferreira (Clã) nas teclas e Tito Romão (Salto) na bateria. Enquanto o disco não vem para as lojas físicas (está só nas digitais), aproveitámos para fazer algumas perguntas incisivas e apercebemo-nos de que a parelha do Norte tem o seu conceito muito bem montado.

Como é que encararam o processo de execução deste novo disco?

Ed Rocha Gonçalves: O processo foi bastante diferente do primeiro disco, nós começámos com um retiro pelo alto Alentejo, isolámo-nos do mundo numa casa no meio do nada.

Catarina Salinas: Sem internet, nada, nem qualquer ligação ao mundo!

ERG: Ligámos os instrumentos todos e ficámos 10 dias só a gravar. Ao mesmo tempo que nós estávamos neste processo, saiu a notícia de que Prince tinha morrido. Acabámos por tocar um espectáculo de tributo com o Moullinex, o que foi uma oportunidade para conhecermos melhor o trabalho do Prince e acabámos por descobrir que ele usava uma drum machine nos anos 80 chamada LinnDrum. Nós estávamos no processo de decidir como é que íamos abordar o disco e tínhamos acabado de decidir que íamos fazer o disco só os dois. Antes o nosso processo passava por acabarmos as demos, chamávamos a nossa banda, eles ouviam as demos, e depois gravávamos juntos

CS: E claro, eles davam o seu input ao tocar.

ERG: As músicas ficam diferentes a partir do momento em que tu envolves outras pessoas. Não ficam necessariamente melhores ou piores, só ficam diferentes. Mas desta vez sentimos que queríamos fazer o processo todo sozinhos.

CS: Control freaks!

ERG: Naturalmente, essa decisão afectou o som do disco porque depois de investigarmos mais, descobrimos que a LinnDrum é a drum machine usada em Take on Me dos A-ha, no Thriller do Michael Jackson, usada em imensas músicas da nossa infância que não fazíamos ideia. É quase o convidado estrela do nosso disco. A partir daí o disco ganhou uma alma própria, conduzindo-se sozinho. Nós já tínhamos no disco anterior uma incursão um bocado mais no mundo das texturas dos sintetizadores, e metes a LinnDrum e começa a soar a anos 80 automaticamente.

CS: Também quisémos focar numa sonoridade dançável, sentíamos a necessidade de ter músicas mais dançáveis, mas mantendo a identidade de melancolia presente.

Como é que tem sido a experiência de tocar com o Moullinex?

ERG: Foi uma amizade muito feliz que aconteceu por acaso.

CS: É uma simbiose muito natural.

ERG: Isto nasceu de um convite feito pelo David Valentim num projecto chamado Three, em que fazia colaborações de músicos portugueses e japoneses. Recebemos um dia um e-mail em que nos explicava o conceito e e disse-nos que achava que era fixe colaborarmos com o Moullinex. O Moullinex disse que sim e nós dissemos “claro!”

CS: A partir daí nasceu uma relação amorosa (risos)

ERG: Fizemos uma música que correu muito bem e fomos colaborando numa data de coisas, somos partners in crime, vamo-nos chamar assim.

E como surgiu o contacto com o Patrick Kimberley?

ERG: Conhecemo-lo no Primavera Sounds há 2 anos, no que foi um episódio giríssimo. Conheci o Patrick e no final da noite, depois do concerto dos Beach House acabámos a noite no hotel deles, em que eles estavam a tocar músicas ao piano, clássicos dos Beatles e estava tudo com os copos.

CS: Eu perdi este episódio, fui para casa mais cedo! Fiquei roída por ter perdido esse momento!

ERG: Vais para casa cedo e é o que dá! E ficámos amigos a partir daí. Já na fase final do processo do disco, mais ou menos composto, achámos que era fixe partilhar a produção a meias em duas canções. Numa música decidimos colaborar com o Luís [Clara Gomes – Moullinex] e na outra decidimos entregar a produção a alguém de fora. Contactámos uma data de produtores e da lista, o americano que escolhemos era o Patrick, mandámos-lhe as demos, ele disse “claro que sim, vamos embora”. Fui ao estúdio dele ouvir o disco com ele, ele escolheu uma que claramente gostava mais do que as outras, a Nightfalls, e a primeira vez ouviu disse “vamos ouvir as outras, mas eu já sei que vai ser esta”. Depois marcámos uma semaninha para ir lá e terminámos o tema.

CS: Foi um luxo, foi um verdadeiro luxo!

A capa de Cherry Domino

Nota-se o gosto pela temática Neo Noir e aproveitam essa estética para falar de alguns problemas actuais, ao estilo de Black Mirror. Sentem que a comunicação se alterou dos últimos anos para cá?

ERG: Abordamos a problemática da comunicação na música ‘Part of the Noise’, que é um bocado acerca disso. Mas mesmo o disco em si, conteúdo artístico e objecto, sentimos que os hábitos de escuta hoje em dia estão diferentes, fragmentados. Estamos habituados de ouvir um álbum que tem a duração que tem que era o que antes cabia num vinil.

CS: Exactamente, e não tinhas acesso de outra maneira, por isso as pessoas devoravam e dissecavam os discos.

ERG: A certo ponto apareceram os cd’s, começou a aparecer aqueles discos que tinham bónus tracks a dar com pau, a palha que sobrava ia parar aos 90 minutos que o CD comportava. O conceito dos singles era porque cabiam 2 músicas, uma de cada lado do vinil. Ainda vivemos nesse imaginário definido pelo suporte, e o suporte não existe hoje em dia. Com o streaming podes meter 50 músicas se quiseres que é indiferente.

CS: Também se torna mais descartável, sob essa óptica.

ERG: Continua de certa forma, o que eu acho positivo, que é um disco marca sobretudo um ciclo, quase como os períodos artísticos dos pintores, tipo a nossa fase azul é este disco. Ou seja, em 2018 o que nós achamos que fazia sentido para nós e a maneira que nós quisemos fazer este disco foi quisemos fazer um disco curto, directo, conciso sem muitas músicas. Tínhamos perto de 30 músicas para por neste disco e conseguimos depurar a 8 com um instrumental

CS: E para depurar alto lá, isto foi um processo!

ERG: E sentimos que este disco diz mais coisas desta forma do que se adicionássemos mais 3, que só iriam somar ruído, só vão confundir. Isto é uma coisa pessoal, que pelo menos eu sinto, para eu conhecer um disco hoje em 2018, um disco muito grande requer um investimento muito grande para sentires que conheces o disco, que conheces as músicas todas e que o sabes de uma ponta à outra, ao passo que num disco mais curto mais facilmente tens essa sensação de “Ah, ok, já ouvi o disco inteiro, já o reconheço, já consigo imaginar as músicas todas do disco ali”, e na verdade mais absorves o disco como um conteúdo global, não como uma colectânea de músicas, mais uma obra concisa e completa, mais facilmente absorves de uma ponta à outra numa altura em que as pessoas, com tanto ruído e tantas coisas a acontecer ao mesmo tempo, é fisicamente impossível arranjares um bloco de tempo.

Porque é que não decidiram esperar para lançar o disco em Setembro para coordenar com os concertos de apresentação?

ERG: No meu caso, a decisão partiu de já termos estado a trabalhar neste disco há muito tempo e quisemos não usar aquela lógica do “ai o mercado”. Pá, o disco está pronto, as pessoas querem ouvi-lo. E de um ponto de vista mais egoísta, eu adoro o Verão quando tenho férias e consigo isolar-me para ouvir discos, porque posso dar-me ao luxo de passar uma manhã, pôr o disco, gostar e só estar a ouvir. Gostava, de certa forma, de ouvir este disco pela primeira vez nesse contexto, por isso, saindo agora, acho que vai haver muita gente que vai ouvir o disco no trabalho e pensar “nas férias vou ouvir isto”. Acho que, mais uma vez, está tudo tão fragmentado que não há uma altura propriamente perfeita.

CS: Muitos artistas partilham desta opinião, de que é preciso quebrar este ciclo da indústria, hoje em dia já não faz sentido esta questão dos singles, streaming, tudo isso, é um novo contexto.

ERG: Das músicas que funcionam melhor das que nós temos é uma canção que nós lançámos em 2013, isolada, sem qualquer contexto, que era para sair num disco que nunca chegou a ser lançado que é a Still Your Girl, que é a nossa música mais tocada no Spotify, por exemplo, e há pessoas que a descobrem hoje, por isso essa questão acho que dilui um bocadinho. A mesma decisão tivemos com o facto do disco físico não sair ao mesmo tempo que é lançado digitalmente, porque quem é que vai a correr à loja comprar um disco no dia em que sai, quando este já se encontra em streaming? Já não funciona assim! Acho que as pessoas que vão comprar o disco físico, pelo menos falo de experiência pessoal, não precisam de ouvir o álbum pela primeira vez em CD, como antes se fazia o ritual de ir comprar o vinil à loja, voltar a casa, por o disco no gira-discos e pousar a agulha, não existe isso, por isso quem quiser o disco físico, lamento (risos) vai ter que esperar um bocadinho.

Conta-se que estiveram no Eurosonic no ano passado e também que este disco tem edição mundial. A internacionalização é um objectivo?

CS: Sim, a internacionalização sempre foi um objectivo, já desde o início. A questão de nós cantarmos em inglês, quer eu, quer o Ed, temos contacto com a língua desde muito pequeninos, por isso é uma coisa natural. E nós crescemos, contrariamente a outros músicos que nós conhecemos, a ouvir música anglo-saxónica por isso não consideramos uma coisa forçada, não foi por causa da internacionalização, simplesmente saiu assim.

ERG: Culpem os nossos pais! Os discos que tocavam lá em casa eram Beatles, era Michael Jackson, Prefab Sprout, Phil Collins, sobretudo à base de canções e isso depois fica, tornam-se influências. Nunca houve uma decisão de cantar em inglês, mas já que a qualidade da música portuguesa se encontra no mesmo patamar que a internacional que ouvimos, gostávamos que a nossa música chegasse aos ouvidos dessas mesmas pessoas também

CS: Ou pelo menos tentar, sem grandes expectativas, nem grande peso nessa vontade.

ERG: Isso é uma vantagem de nós termos a metodologia e a estrutura que temos, porque nós somos uma banda independente desde o início, o nosso primeiro lançamento foi um zip num site que não tinha nada para além do zip, a primeira edição do EP foi “We are Best Youth ponto com” e era só descarregar a música. E por opção, neste momento e neste disco, continuamos a ser uma banda independente, sem estrutura, e isso permite-nos tomar decisões, que se calhar se estivéssemos com uma estrutura maior, tínhamos mais pessoas a opinar a dizer, se calhar precisam de uma canção mais curta, é preciso fazer uma colaboração com x artista, e isso dá-nos a vantagem de fazermos só aquilo que nos apetece fazer. Se existirem pessoas que gostam do que nós estamos a fazer é uma sorte gigantesca, mas nós não vamos fazer música a pensar que se fizermos de determinada forma as pessoas vão ouvir e vão gostar.

CS: E depois como é que consegues defender o teu trabalho, se está ali meio a medo das pessoas e das suas opiniões?

ERG: Pá, e se o pessoal não gostar, ao menos assumimos e dizemos que a culpa é nossa! (risos)