Bitcoin faz 10 anos: idade de se fazer entender

Foi no momento de maior desconfiança sobre o sistema financeiro tradicional e apenas 1 mês e 15 dias depois da estrondosa queda que surgira na internet, numa lista de e-mail sobre criptografia, um documento intitulado Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System.

A 15 de Setembro de 2008, um banco de investimento com 158 anos de história e uma notoriedade aparentemente inabalada nos circuitos de Wall Street decretava a sua falência; um dos too big too fail falhara mesmo e nesse dia tornara-se indelével e inevitável o momento de crise que se vivera. Ao longo de 2008 a crise no mercado imobiliário — fruto do crédito malparado — levava o banco a perdas e os 3,9 mil milhões de depreciação no último trimestre acabaram por condená-lo à falência.

O momento ficaria para a história e ainda hoje é apontado como o trigger ou símbolo da mítica crise da década com efeitos que atravessaram o Atlântico e que também cá se fizeram sentir. Nessa mesma história, evidências objectivas mas com pistas claras, surgia um antagonista com o intuito de revolucionar o sistema financeiro. Não, não era um novo banco. Era uma nova moeda, com tudo o que isso representa.

Foi no momento de maior desconfiança sobre o sistema financeiro tradicional e apenas um mês e 15 dias depois da estrondosa queda que surgira na internet, numa lista de e-mail sobre criptografia, um documento intitulado Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. Sem apresentações prévias, Satoshi Nakamoto — o até hoje misterioso criador da Bitcoin — revelava, num documento com apenas nove páginas, uma nova criação tecnológica que viria a mudar o mundo ou pelo menos a proporção uma mudança severa nos mecanismos de confiança das transações financeiras.

A relação entre os fenómenos não é explicita mas é tácita. Pouco tempo depois de a falência do Lehman deixar a nu os segredos mais escabrosos da alta finança, altamente susceptível à diversos fenómenos de mercado e muito pouco transparente, Satoshi propunha uma nova forma de gestão do dinheiro independente de uma entidade central que garantisse a sua confiança. Em vez disso, recorria a complexos mecanismos informáticos de validação das transações que, a partir de agora, ficariam para sempre representadas em blocos indecifráveis e protegidos por associação a um problema matemático — isto é, a um algoritmo criptográfico.

So Bitcoin was born in an age when the financial sector divulged a dark secret, and showed that trust in banks could falter. Trustless money was the answer of Satoshi Nakamoto.

Apesar do seu surgimento neste momento simbólico e do avanço tecnológico que o marcou, a história da Bitcoin não é instantânea como a linha do tempo parece fazer crer. O desenvolvimento de sistemas monetários já é um mundo com história e, desde os anos 1990, investigadores e engenheiros propuseram diversas abordagens ao problema. Um deles, David Chaum, apresentou em 1997 uma abordagem que viria a ser bastante parecida com a actual Bitcoin — isto é, baseada em proof-of-work.

Em Outubro de 2008, o projecto era anunciado mas só em Janeiro de 2019 chegava ao mundo real. No dia 9 registou-se a primeira interação na cadeia de blocos e no dia 12 a primeira transação entre o misterioso Satoshi e Hal Finney. Nesse mesmo ano, a New Liberty Standard estabelecia a taxa de câmbio e equivalia a cada dólar 1,309.03 BTC e Satoshi lançava uma versão melhorada do sistema. Depois desse ano e com o momentum obtido, a história da Bitcoin acelerou.

Após ter uma taxa de câmbio e se tornar algo consensualmente valioso, era uma questão de tempo até que fossem possíveis transações. Em 2010 foi registada a primeira compra com Bitcoin, no caso duas pizzas. Foi também por essa altura que começaram a surgir as primeiras casas de câmbio de Bitcoin, online, como o Mt. Gox — que viria a revelar-se polémico — e pouco depois, já em 2011, que 1 BTC se fez equivaler a 1 dólar.

A valorização até a um nível de credibilidade distinto (1 BTC = 1 dólar) atraiu a imprensa e em 2011 surgiam as primeiras boas e más notícias no mainstream. Se uns focavam o progresso da moeda, outros, como o Gawker, testemunhavam como o famoso mercado paralelo da Dark Web, o Silkroad, era central a esse progresso. Era naquele paraíso de compras sem lei onde se podia comprar absolutamente tudo que a moeda que garantia a anonimidade — não era preciso ter conta num banco — tinha mais uso e ia ganhando valor.

Dos primeiros passos aos dias de hoje, a história da Bitcoin é feita de altos e baixos; escândalos e sucessos; vulnerabilidades e resoluções; ao fim de 10 anos longe vai o tempo em que uma BTC valia apenas 1 dólar, agora vale pouco mais de 6 mil apesar de já ter andado por somas bem maiores. O que não mudou substancialmente ao longo destes 10 anos foi o número de transações possíveis de se fazer na economia real e por conseguinte a influência da moeda nas nossas vidas.

Se por um lado se pode dizer que esse é um ponto negativo na história da Bitcoin, é importante que se observe em perspectiva. O algoritmo que dá origina a Bitcoin e o tal proof-of-work em que esta se baseia tem limitações no número de transação por espaço de tempo muito superiores à da habitual rede VISA ou de outras cripto, limitando o seu crescimento. Para além disso, tem um custo energético elevado (1 transação = 9 casas dos Estados Unidos da América durante 1 dia) e que a torna mais para o lado do insustentável. A juntar a tudo isto está o facto de o seu criador ser desconhecido e estar inactivo, não deixando prever grandes mudanças ou avanços tecnológicos (por exemplo o Ethereum tem em roadmap).

Em suma, levar a sério a Bitcoin e entendê-la não significa aceitá-la como moeda de transação mas antes vê-la como prova de um conceito bem sucedido que, por agora, apenas tem alimentado sectores não produtivos como o trading repletos de gente sem grandes noções ou reflexões a tentar sacar uns trocos desta loucura. Mais importante que isso, ou com um papel por revelar e desempenhar, podem estar outras moedas, outras ideias, outros protocolos que por não terem sido o primeiro não têm as honras da Bitcoin.