No princípio, relativizou-se

Temos a obrigação de nos exigir um pensamento mais compreensivo e muito menos arrogante.

Foto de Pablo Albarenga/Mídia Ninja via Flickr

O raciocínio é mais ou menos este: entre a corrupção e o fascismo, que venha o diabo e escolha. Os malvados do PT, que “meteram ao bolso” (ao mesmo tempo que tiravam 40 milhões de pessoas da pobreza) serão agora substituídos pela rigidez de Bolsonaro, um rigoroso militar de ideais delirantes e ideias perigosas.

Quanto a este último, fica difícil falar. Não há “ponta por onde se lhe pegue”, por isso ficamos sem capacidade de resposta (já o mesmo se tinha sentido com Trump). Não são responsáveis políticos. São piadas de mau gosto, de absurdo absoluto, e a razão não consegue aderir à realidade dos tempos. Mesmo depois de instalados no poder, não desaparece a sensação de se estar numa fita de Buñuel, em que o absurdo se torna universo e a racionalidade um paradoxal absurdo cosmético. O bom senso, que tanta falta faria no meio da loucura barulhenta, não sabe comunicar-se. Mas tenta.

O mais simples, parece-nos, é listar algumas barbaridades ditas pela pessoa e fazer fé que tal seja o suficiente para converter os crentes e dar ânimo aos oponentes. Alguns vídeos circulam, mostrando crianças que leem palavras proferidas pelo candidato do PSL. “O grande erro da ditadura foi torturar e não matar.” “Mulher deve ganhar um salário menor porque engravida.”.Uma após outra, as citações sucedem-se e o choque é grande, sobretudo pelo contraste com a candura infantil.

Porém, 46% dos eleitores brasileiros escolheram Bolsonaro na primeira volta, e semelhante rumo parece avizinhar-se na decisiva e derradeira. Custa acreditar que todos esses milhões de pessoas, muitas delas mulheres, muitas delas pobres, muitas delas nordestinas, faveladas, etnicamente variadas, culturalmente distintas, se possam reunir em consenso perante afirmações deste calibre. O que isto me leva a pensar é que temos a obrigação de nos exigir um pensamento mais compreensivo e muito menos arrogante acerca destes temas.

Um aspecto sempre importante na análise deste tipo de ascensões populistas ou fascistas ao poder é o medo. O medo é o terreno fértil para o crescimento de movimentos de ódio, associado à ignorância. Talvez a Lula da Silva se possa exigir a responsabilidade de não ter implementado com igual vigor a recuperação de rendimentos e a recuperação da escola pública (apesar dos importantes esforços, não negligenciáveis). Um povo menos pobre mas igualmente pouco instruído estará sempre menos bem preparado para manter a empatia coletiva, o sentido social de unidade, que é antagonista do medo e do egoísmo. Neste capítulo, Bolsonaro quis apresentar-se como Messias, acompanhado das Forças Armadas, das igrejas e da família.

Mas nem todas os medos são irracionais. O flagelo da corrupção, que está, em larga medida, na origem da crise política no Brasil, não deve ser entendido como um mal menor. É essencial que este crime, tornado hábito cultural em alguns meandros de gestão local e nacional, seja combatido pela via judicial que apenas um Estado de Direito pode garantir como justa e apropriada. Essa é mais uma das ameaças de Bolsonaro: ao mesmo tempo que ataca tudo e todos, acusando-os de corrupção, promove a terraplanagem das liberdades cívicas. É o espírito da destruição total das convenções, a que hoje muitos chamam o “politicamente correto”. Querer deitar abaixo o politicamente correto é fazer um bypass fatal aos sistemas democráticos: quando se perde o processo (por mais fastidioso e burocrático), perde-se a justa finalidade.

Foto de Pablo Albarenga/Mídia Ninja via Flickr

Ao medo fantasioso e ao medo da corrupção, junte-se o medo da violência. Mais um gravíssimo problema da sociedade brasileira, que vive temendo pela sua própria vida em boa parte das grandes cidades. Em maio de 2017, um estudo do Datafolha revelou que aproximadamente um em cada três brasileiros já teve um familiar ou amigo que foi assassinado. É compreensível que este ponto nevrálgico da campanha eleitoral possa fugir aos filtros da razão. Bolsonaro traz o exército, as forças armadas, “fogo contra fogo”. Promete um poder reforçado para os policiais, faz a apologia da tortura e posa para fotografias carregado de armas e munições. É o político sem medo. Mas nem isso serve. O político sem medo esconde o político que é a face do próprio medo. Não defende a paz, mas a institucionalização da guerra. Quer transferir o crime para as mãos do Estado, à maneira do seu comparsa Duterte. Por esse motivo, Bolsonaro não é a solução. Quer resolver a cefaleia com recurso à guilhotina.

Talvez a modalidade argumentativa, a própria forma das discussões, precise de atualizar-se na era das campanhas decididas no WhatsApp e longe dos debates ultrapassados das televisões generalistas. Basta, ao candidato, deixar que o fluxo de desinformação criado pelos seus se alastre como uma epidemia que destrói a democracia.

Também é interessante que estes novos diferendos democratas vs. não-democratas se repitam numa arena em que os moderados de direita e os moderados de esquerda não parecem querer deixar cair os seus pequenos territórios de poder (o seu “quinhão ruim”, como diriam apropriadamente os brilhantes Los Hermanos no tema “Cara Estranho”). Acham frequentemente que as novas ameaças ainda poderão mudar, “moderar-se”, vergados ao peso inabalável do sistema (que afinal nunca foi tão fraco). Por outro lado, tentam aliar-se a estes novos players mediáticos, na esperança de cavalgar a onda de popularidade.

Há ainda quem culpe a esquerda pelos radicais de direita. Ainda há dias falava disso na sua crónica no Público o João Miguel Tavares. Nós, à esquerda, teremos banalizado o termo “fascista”, aplicando-o a todos aqueles com quem não concordamos. Talvez haja alguma lógica nessa análise, embora, como disse acima, também aos moderados de direita se deva apontar o dedo por deixarem entrar na sua esfera de poder os autoritários. Assim o faz Cristas quando tranquilamente assume Bolsonaro como seu parceiro de “centro-direita”, assim o fazem os membros do PPE em relação a Orbán.

O caminho é pela rejeição preventiva e sistemática do discurso autoritário na comunicação social e na vida política. Pela união dos democratas liberais, anterior às divisões políticas e ideológicas (que não devem, no entanto, desaparecer). É imperativo que comecemos rapidamente a ponderar estas triangulações. O objetivo é sempre o mesmo: prevenir a entrada de forças iliberais antes destas perverterem, por dentro, as regras do jogo.

Foto de Mídia Ninja via Flickr

Estas forças autoritárias sempre se fazem, de modo mais ou menos discreto, anunciar. A rejeição das regras do jogo democrático, os incentivos à violência, a rejeição da legitimidade dos oponentes políticos e a vontade expressa de limitar as liberdades cívicas dos seus adversários são quatro dos sinais identificados por Levitsky para suspeitar de um candidato que coloca em risco a democracia. Bolsonaro faz check em todas as alíneas. Por isso mesmo, deve ser rejeitado por todos os que, à esquerda ou à direita, se afirmam democratas. Não perceber isto é não perceber nada. É ser cúmplice por via da passividade.

Texto de Pedro Eduardo Ramos