O dia em que Chomsky visitou Lula da Silva na prisão

A dias das Presidenciais no Brasil, a opinião de um dos activistas norte-americanos mais influentes dos nossos tempos sobre aquele que considera "o mais proeminente preso politico da actualidade".

Lula da Silva em campanha em Agosto de 2017 (foto de Mídia Ninja via Flickr)

Aconteceu no passado dia 20 de Setembro e é o próprio linguista e activista norte-americano quem o relata no The Intercept. Para visitar “o prisioneiro político mais proeminente da actualidade, uma pessoa de notável significância na política global contemporânea”Noam Chomsky e a mulher Valerie estiveram na Prisão da Polícia Federal em Curitiba.

Numa reportagem com apontamentos de opinião, Chomsky escreve porque é que considera a prisão de Lula injusta, num artigo com mais foco nas debilidades do sistema judicial brasileiro e da acusação do que nos “crimes” propriamente ditos.

“Para a estrutura de poder do Brasil, aprisionar Lula não é suficiente: eles querem garantir que a população, enquanto se prepara para votar, não possa ouvi-lo de nenhuma forma, e estão, aparentemente, dispostos a fazer uso de qualquer medida para alcançar este objectivo.”

A sua visita terá tido impacto directo na decisão de um juiz que, citando a liberdade de imprensa, concedeu à Folha de São Paulo, o direito de entrevistar Lula. Como já vem sido hábito no Brasil, horas depois, outro juiz do STJ rapidamente interveio e revogou a decisão, atendendo a um pedido do partido Novo, opositor do PT nas próximas eleições.

O Novo afirmou, ao pedir a suspensão da entrevista, que o Partido dos Trabalhadores tem apresentado Lula por diversas vezes como candidato às Presidenciais, e que isso desinforma os eleitores – Lula foi barrado pela justiça de se candidatar às eleições com base na Lei da Ficha Limpa e o PT lançou Fernando Haddad no seu lugar. O juiz Luiz Fux, do Supremo Tribunal de Justiça, escreveu na sua decisão que a regulamentação da livre expressão de ideias, sobretudo no período eleitoral, protege o bom funcionamento da Democracia: “No caso em apreço, há elevado risco de que a divulgação da entrevista cause desinformação na véspera do sufrágio, considerando a proximidade do primeiro turno das eleições presidenciais.”

Toda esta sucessão de factos, que foi considerada pela Folha de São Paulo, “o mais grave acto de censura desde o regime militar” e “uma bofetada na democracia brasileira”, aconteceu apesar de alguns dos criminosos mais violentos do país, lembra Chomsky, serem entrevistados nas prisões brasileiras com muita regularidade.

O norte-americano revela ainda ter encontrado o ex-Presidente brasileiro pouco afectado pelas condições desagradáveis da cadeia onde agora vive e “pelo chocante erro judiciário” que o prendeu.

“Lula permanece em seu estado enérgico, optimista sobre o futuro e cheio de ideias sobre como retirar o Brasil de seu actual caminho desastroso.”

Daí em diante, Chomsky decorre sobre a prisão de Lula e os máquina por detrás dessa decisão. Fala da crise política e social do Brasil e de como a corrupção se instalou de forma endémica na América Latina, sem deixar de referir que não é um problema exclusivo desse continente, acabando por enumerar vários exemplos que aproximam o Ocidente e países como os Estados Unidos de realidades como aquela a que assistimos no Brasil.

Refere que neste caso, “a sentença é tão totalmente desproporcional ao crime alegado que é importante perceber as razões. Não é difícil desenterrar coisas sobre candidatos. Lula é, de longe, o candidato mais popular e facilmente ganharia uma eleição justa, não sendo este o resultado preferido da plutocracia. Embora as suas políticas enquanto estava no cargo fossem pensadas para ajustar as questões financeiras internas e internacionais, ele é desprezado pelas elites, em parte, sem dúvida, por causa de suas políticas de inclusão social e benefícios aos menos afortunados, porém outros factores parecem intervir: primeiramente, o simples ódio de classe. ‘Como pode um trabalhador pobre sem educação superior que nem sequer fala português correctamente ser o líder do nosso país?'”.

“A primeira acusação contra Lula, baseada em delações premiadas de empresários sentenciados por corrupção, é a de que a ele foi oferecido um apartamento no qual ele nunca morou. Nada de extraordinário.”

Noam Chomsky com militantes do PT depois de visitar Lula da Silva (foto de Heuler Andrey/AFP)

Com as presidenciais à porta, a análise foi obviamente cair em Jair Bolsonaro, com Chomsky a assumir que com Lula impedido de concorrer, há uma boa hipótese que seja o candidato favorito da direita a vencer as eleições “e intensifique muito as políticas duramente regressivas do presidente Temer, que substituiu Dilma Rousseff,que sofreu impeachment em processos ridículos em um estágio anterior do “golpe branco” agora em curso no país mais importante da América Latina.”

“Bolsonaro apresenta-se como um autoritário grosseiro e bruto, um admirador da ditadura militar que vai restaurar a ‘ordem’. Parte de seu apelo é sua pose de alguém que vem de fora e que desmantelará o sistema político corrupto, que muitos brasileiros desprezam por bons motivos, o análogo local da amarga reacção em grande parte do mundo aos efeitos do ataque neoliberal da geração passada.

Bolsonaro afirma que ele não sabe nada sobre economia, deixando essa questão ao economista Paulo Guedes, um produto ultraliberal de Chicago. Guedes é claro e explícito sobre sua solução para os problemas do Brasil: “privatizar tudo”, toda a infraestrutura nacional, para pagar a dívida pública aos predadores que estão roubando o país.”

Para Chomsky, está em curso uma campanha para reverter os feitos da chamada “década de ouro” da economia brasileira patrocinada pela governação de Lula, que está a explorar a corrupção em que o PT participou. Chomsky diz que “a corrupção é muito real, e séria, mas colocar o PT em evidência em busca de demonização é puro cinismo, considerando as escapadas dos acusadores. E como já mencionado, as acusações contra Lula, mesmo se alguém lhes desse crédito, não podem de nenhuma forma ser levadas a sério como base da punição administrada para removê-lo do sistema político. Tudo isso o qualifica como um dos presos políticos mais importantes do período actual.”

Segundo o activista norte-americano, é só para que este “golpe branco” possa seguir em frente que Lula é mantido preso com tantas restrições e tamanho isolamento. As consequências de tudo isso serão não só severas para a sociedade brasileira, como para boa parte do mundo, que para Chomsky vai fechando os olhos ao que se passa no Brasil, com pouca atenção às repercussões externas que a situação de um país com o potencial deste pode ter internacionalmente. Termina a sua reflexão com votos de que o Brasil possa seguir em frente, “isto é, se o que está acontecendo for tolerado.”