DocLisboa repudia pressões de Embaixadas para mexer no seu programa

"O DocLisboa não aceitará pressões externas sobre a sua programação ou sobre o seu posicionamento político", assegura a organização do festival em comunicado.

O festival de cinema documental de Lisboa, que arranca dia 18 de Outubro e se realiza até dia 28, diz ter recebido “nestes dois últimos dias pressões de duas Embaixadas para retirar filmes do seu programa, ou rever textos nos seus materiais”. E assegura: “O DocLisboa não aceitará pressões externas sobre a sua programação ou sobre o seu posicionamento político.”

De acordo com a nota enviada às redacções, a associação Apordoc, que organiza o festival, diz que “ninguém na equipa (…) tem memória de tal ter acontecido antes” e que vê “isto como um sinal preocupante”. Em causa, está um filme da Competição Internacional, que o DocLisboa não refere, e “textos relativos ao foco Navegar O Eufrates: Viajar No Tempo Do Mundo”. A organização também não detalha de quais Embaixadas terá recebido pressão.

O nosso Eufrates começa na Arménia e com o primeiro filme arménio, Namus, realizado por Hamo Beknazaryan, em Junho de 1926. Trata-se de um filme mudo que narra a vida quotidiana de uma pequena cidade de província no final do século XIX. O século XX tem início na Arménia com o genocídio do seu povo, legado de um império otomano que se está a desfazer sob as investidas das potências coloniais europeias, que traçam outras fronteiras, provocando outros conflitos e feridas que marcam toda a Era dos Extremos e que ainda hoje sangram.

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Porque o Eufrates é também o símbolo da diáspora, do exílio: os hebreus iraquianos de Baghdad Twist, de Joe Balass, forçados a deixar o Iraque de Saddam Hussein no final dos anos 1960; mas também os habitantes do Shatt al-Arab, enviados para a fronteira com o Irão por razões de guerra e depois expulsos pela poluição do rio (Al-Ahwar e Sawt, de Kassem Hawal); e mesmo os “filmes exilados”, rodados em cativeiro e montados clandestinamente no exílio, como a Palma de Ouro Yol, acusado de dar a ver um outro território “imaginado”, o Curdistão.

– Davide Oberto @ doclisboa.org

No mesmo comunicado, que podes ler em baixo, a Apordoc entende que tais pressões dão a entender que “existe já a convicção de que um festival de cinema (…) está aberto a reposicionar o seu discurso ou a reconsiderar o seu programa devido a interesses políticos e geo-políticos externos”, mas lembra que “vivemos num país onde ainda é possível programar um festival de cinema que, com apoios públicos e privados, exerce a sua liberdade artística de forma plena”.

A organização do DocLisboa refere também que existem momentos oportunos e públicos para debater a programação do festival, e convida todas as embaixadas em Portugal a fazerem parte desses debates, podendo exercer “junto do público, o seu direito à indignação, à crítica, ao diálogo”. “Caso não estejam dispostos a tal, abstenham-se de tomar quaisquer diligências para condicionar o festival, já que tal será infrutífero”, acrescenta.

O Shifter continuará atento a este caso. Podes saber mais sobre a próxima edição do DocLisboa aqui.

Comunicado do DocLisboa

O DocLisboa recebeu nestes dois últimos dias pressões de duas Embaixadas para retirar filmes do seu programa, ou rever textos nos seus materiais. Em particular, um filme da Competição Internacional e textos relativos ao foco Navegar o Eufrates: Viajar no Tempo do Mundo. Ninguém na equipa da Apordoc tem memória de tal ter acontecido antes, e vemos isto como um sinal preocupante.

O Doclisboa foi criado pela Apordoc no sentido de promover e divulgar a cultura do cinema documental, na sua liberdade, diversidade e força testemunhal. É neste espírito que a actual equipa do festival trabalha, honrando-o.

Assim, vemos com extrema preocupação estas pressões, vindas (oficial e oficiosamente) de representantes internacionais aqui em Portugal. Isto revela, no nosso entender, que existe já a convicção de que um festival de cinema (ou, depreendemos nós, qualquer outro projecto cultural e artístico) está aberto a reposicionar o seu discurso ou a reconsiderar o seu programa devido a interesses políticos e geo-políticos externos. Este comunicado serve para deixar claro que não: o DocLisboa é inteiramente livre, autónomo na sua programação, e esta equipa continuará a lutar para que assim seja. Apenas temos como parceiros entidades que respeitam os valores que também defendemos, e que são os valores da democracia, da livre expressão, e da justiça.

Naturalmente, um festival como o nosso mostra filmes que não são de modo algum consensuais – filmes que, pela sua implicação com o mundo e com o presente, tratam assuntos complexos e muitas vezes pouco debatidos ou mesmo escamoteados pelos poderes políticos em diferentes países e contextos. Para além disso, existem questões nas quais acreditamos que a neutralidade não é possível e, embora não explicitemos publicamente as mesmas, tal pode ser compreendido pela nossa programação, os nossos textos, e, evidentemente, pelas embaixadas com quem escolhemos manter contacto. Acreditamos que o nosso trabalho não é neutro. E, embora estes acontecimentos nos preocupem e entristeçam, são também sinal de que estamos a trabalhar coerentemente com aquilo que defendemos.

Assim, convidamos todas as embaixadas em Portugal, bem como todas as instituições governamentais ou não a, caso tenham críticas ou questões com a nossa programação ou com as nossas publicações, compareçam aos debates públicos que fazemos sobre os filmes durante o festival e ao longo do ano, e exerçam, junto do público, o seu direito à indignação, à crítica, ao diálogo. Apenas assim a nossa programação pode gerar debates produtivos e abertos. Caso não estejam dispostos a tal, abstenham-se de tomar quaisquer diligências para condicionar o festival, já que tal será infrutífero.

Vivemos num país onde ainda é possível programar um festival de cinema que, com apoios públicos e privados, exerce a sua liberdade artística de forma plena. Sabemos bem quanto esta situação é ameaçada noutros países, cada vez mais. Lutaremos sempre para que em Portugal a criação artística seja sempre livre. Os realizadores, produtores, colegas e espectadores são os nossos companheiros e merecem o nosso respeito e integridade. O DocLisboa é um território de discussão e não de censura.