As eleições europeias já começaram, alguém deu por isso?

No último domingo houve eleições locais na Polónia. Viram alguma coisa nas notícias? Pois, eu também não.

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O PiS, partido que tem destruído a democracia liberal polaca, minando a liberdade de imprensa e interferindo na composição de alguns tribunais, ganhou, mas por muito menos do que o esperado. É uma vitória do sentimento europeu, sobretudo na Polónia urbana. A eleição para a câmara de Varsóvia foi uma derrota tão clara para o PiS que não foi precisa segunda ronda para eleger Trzaskowski, da Plataforma Cívica, um político europeísta e crítico das interferências do PiS nos tribunais e na imprensa.

No meu Facebook, depressa apostei, enquanto ainda se divulgavam os primeiros resultados, que, se surgisse alguma notícia, ia falar apenas sobre a vitória do PiS. Pouco depois, encontro o Washington Post a fazer título com “Exit poll: Polish populists make some gains in local votes” (que, seja feita justiça, entretanto foi alterado para “Exit poll: Polish populists lead local votes, support down”). Era previsível que as notícias das eleições na Polónia seriam aproveitadas para voltar a dizer que a União Europeia está em risco, que já ninguém acredita no projeto europeu, e que a extrema-direita eurocética está a crescer, quando não foi nada disso que se verificou nestas eleições.

Na manhã seguinte, este era o panorama nos media portugueses: no Público, uma notícia sobre chineses presos numa mina, mas nada sobre as eleições na Polónia; no Expresso, uma notícia sobre um feitiço que umas bruxas lançaram a Brett Kavanaugh, mas nada sobre as eleições na Polónia; no DN, a reacção do governo egípcio a acusações sobre a morte de um turista britânico no país, mas nada sobre as eleições na Polónia.

Cenário idêntico tinha tido lugar na semana anterior, na Baviera. Deixem-me adivinhar, também pouco ou nada viram nas notícias? Os alemães foram às urnas dar à CSU, partido “irmão” da CDU de Merkel, uma das suas piores votações de sempre, depois de o partido se ter tentado chegar à extrema-direita, representada pela Alternativa para a Alemanha (AfD). Mas os votos perdidos foram-no, em grande medida, para um partido de esquerda pró-europeu, os Verdes.

Em Portugal, o Expresso decidiu publicar uma análise à eleição que fala dos Verdes no penúltimo parágrafo, depois de mencionar todos os outros partidos, e de dar grande destaque à extrema-direita e ao colapso do SPD, de centro-esquerda e parceiro de coligação de Merkel. Felizmente, o Público, pela caneta da Maria João Guimarães, fez uma cobertura bem contextualizada da eleição, explicando as consequências do resultado para a manutenção da coligação de governo, e as dinâmicas da política fechada versus política aberta, materializadas na AfD e nos Verdes, respectivamente, com vitória clara para estes últimos.

A falta de cobertura tem um problema adicional. Durante os últimos anos, fomos sendo confrontados com relatos, um pouco por toda a Europa, de uma vaga de partidos eurocépticos a ganhar terreno em sondagens e eleições. A sensação instalada na população é de que o projeto europeu colhe pouca aceitação e que há vários países da Europa prontos a eleger projetos que, em conjunto, ditarão o fim da União Europeia. Ora, se essa sensação já teve alguma razão de ser, a verdade é que os últimos meses têm sido de clara inversão dessa tendência (excetuando, talvez, a Itália, embora o partido mais votado das últimas legislativas esteja a planear criar uma nova plataforma pró-europeia, que tem tido muito menos destaque que as tiradas racistas do senhor Salvini). Estando a haver inversão, onde estão as notícias sobre ela, tal como foram surgindo, em catadupa, aquando da subida do eurocepticismo?

Bem sabemos que o europeísmo não vende tão bem, mas não pode ter-se um critério tão díspar para cobrir estes assuntos, sob pena de, em maio, irmos às urnas com uma ideia totalmente distorcida daquilo que pensam os nossos concidadãos europeus.

Mas, afinal, são só umas eleições menores em países distantes, não estarei a exagerar? Não estou, não. São “só” eleições locais na Polónia e estaduais na Alemanha, mas são eleições muito importantes para prever o resultado das Europeias, em países que têm estado no centro de inúmeras discussões sobre o projeto europeu, e que representam 147 eurodeputados (para comparação, Portugal tem 21). O PiS, partido que governa a Polónia e a faz violar tratados europeus, partido que tentou acabar com a independência dos tribunais, partido que tem assediado meios de comunicação, teve um resultado abaixo do previsto, e que deixa aberta a possibilidade de ser derrotado nas próximas eleições europeias e legislativas. Caso isso aconteça, o cenário político europeu muda substancialmente, não apenas no Parlamento Europeu, mas também no Conselho.

Da mesma forma, o país mais populoso da União, a Alemanha, vê os partidos tradicionais, europeístas, enfraquecidos, e é preciso saber se os votos fogem para a extrema-direita, eurocéptica, ou para a esquerda, europeísta. Os nossos media, agora, dão mais atenção a praticamente tudo o resto. Em Maio, quando o Parlamento Europeu estiver tomado pelos eurocépticos, vão queixar-se e fazer especiais sobre isso. Nessa altura virão os grandes especialistas à TV dizer que tinham razão, que previram tudo. Talvez seja o contrário – talvez seja, em parte, por causa deles que a Europa está como está.

Sei que se diz que o assunto vende mal, e que as redações precisam de dinheiro. Venderá ele assim tão mal? Decorre uma campanha de apelo ao voto, “Desta vez eu voto”, por toda a Europa, e teve como “vencedor” de um concurso de angariação de participantes um jovem português, Gonçalo Gomes. Há leitores para este assunto. Não há é notícias para serem lidas, ou coragem para lhe dedicar alguns recursos.

A discussão do Orçamento de Estado português ficou marcada por discussões superficiais várias, uma delas sobre o “eleitoralismo” possível do documento. Convém não esquecer que o próximo período eleitoral não é para as legislativas, mas sim para as europeias que, como vimos, já mexem um pouco por toda a Europa. Mas não há milagres: é preciso que o assunto seja amplamente discutido na nossa sociedade, e os media têm aqui um papel fundamental duplo: o de trazer os assuntos a debate, e o de fazerem uma cobertura que retrate de forma fiel o que vai acontecendo na nossa Europa.