Elon Musk: do tweet fraudulento à renuncia da presidência da Tesla

Afinal de contas, se Musk diz que “alguém está disposto a pagar 420 dólares por acção”, porque não acreditar?

Elon Musk num evento da Tesla, em 2011 (foto de Brad Holt via Flickr)

No dia 7 de Agosto, Elon Musk, director executivo da Tesla e na altura seu presidente também, fez um tweet em que lançava a ideia de que poderia tornar a Tesla privada em função de um investidor que estaria disposto a pagar 420 dólares por cada título da empresa.

Se tudo isto parece normal e até inofensivo – com o número 420 a fazer inclusive tilintar sininhos nas potheads –, a verdade é que valeu agora ao director executivo da Tesla uma avultada multa no total de 40 milhões de dólares e ao afastamento do cargo de presidente (ou chairman) da fabricante automóvel durante três anos.

Um exagero? Talvez não

Para compreender a importância do tweet de Musk, e porque lhe vale uma repreensão tão avultada, é preciso não só compreender como funcionam os mercados e de um modo lato o que são os mercados, mas também ter em conta que Musk tem uma base de seguidores perto dos 22 milhões, um número altamente considerável.

Os mercados vivem de informação. Esta deve ser a frase basilar para percebemos este tópico que até se pode tomar como simbólico para uma série de movimentos de mercado que têm marcado os últimos anos.

Quando se fala de valorização, muitas vezes discute-se a sua ligação com o valor real de uma empresa e aí temos a primeira peça. Os mercados, mais do que se relacionar com o valor material das coisas – da mercadoria, dos objectos, produtos ou das empresas –, relacionam-se com o valor percebido destes. Uma realidade resulta da essência do que é o próprio mercado e desdobra-se em processos ainda mais complexos.

Vemos isto, por exemplo, durante os anos consecutivos de perdas nas grandes empresas, que, apesar disso, mantém a sua valorização em altas graças a um plano de longo prazo que transmitia confiança aos investidores. Mas também o vemos em ciclos mais curtos com jogadas de comunicação a ser autenticamente dirigidas ao mercado, um campeonato em que Musk tem sido um dos mais activos.

Por várias vezes, o multimilionário sul-africano (sim, Musk é sul-africano) foi sendo notícia por opor às más notícias que iam surgindo na imprensa ideias malucas que refrescavam a sua aura de génio criativo e reafirmavam a confiança no seu trabalho e na sua liderança, mas agora a sua estratégia parece ter ido longe demais e acabou com uma acusação formal de fraude.

Em causa está, segundo a acusação formal a Musk, a veiculação de uma informação notoriamente falsa perante uma audiência que, considerando os milhões de seguidores do “visionário”, têm efectivamente capacidade de provocar mudanças no mercado. Para os procuradores que agora acusam Musk, o seu tweet não passou de uma estratégia para valorizar a sua própria empresa sem ter por base qualquer informação que lhe permitisse afirmá-lo com certeza.

É relacionando as duas questões que percebemos que a multa para Musk, para a Tesla e a acusação de fraude são, mais do que um exagero, um alerta para os consumidores e um aviso para os empresários.

O alerta para consumidores é fácil de descodificar: não acreditem em tudo o que lêem. Para os empresários também: não podem escrever tudo o que vos apetece, mesmo que o façam nas vossas redes sociais.

Por muito que os tweets de Musk possam parecer causais e inofensivos, perante uma audiência de 22 milhões de pessoas as suas afirmações ganham uma relevância de que o empresário não se pode desresponsabilizar. Tweetando sobre uma proposta que pelos vistos nunca existira, Musk levara pessoas a crer que havia alguém disposto a pagar aquele valor pelas acções da Tesla, jogando com uma das características mais importantes do mercado: a sua reflexividade.

Mais importante do que informação nos mercados é a sua reflexividade, como defende George Soros.

Foto de JP Valery via Unsplash

Ou seja, a resposta global à informação – o que Musk tentara manipular com uma informação falsa. Os investidores, mais do que o que vão lendo em relatórios de contas ou em headlines de jornais, reagem àquilo que acham que vão ser os movimentos de mercado – tentando antecipá-los de modo a lucrar ou pelo menos salvaguardar o seu dinheiro. Neste caso, o que Musk fizera foi falsear um hipotético movimento de mercado sem ter qualquer prova, anunciando um valor por título que fez, directa ou indirectamente, com que nos dias seguintes a esse tweet as acções da Tesla valorizassem cerca de 20 dólares por acção. Afinal de contas, o Musk disse que “alguém está disposto a pagar 420 dólares por acção”, porque não acreditar? Porque neste caso seria preciso provas.

Foram essas provas que a SEC disse não existirem. Segundo a acusação, Musk terá calculado esse valor somando 20% ao valor de fecho das acções no dia do tweet e somando um dólar de modo a obter o redondo e simbólico 420. Para além de uma piada – num assunto muito sério –, o arredondamento também terá sido uma operação de charme para Grimes, a sua namorada, devota da cultura da marijuana, como de resto se poder ler na nota de acusação formal.

A SEC e Musk negociaram as repercussões deste tweet considerado fraudulento. Em consequência, Musk não poderá ser presidente do conselho de administração nos próximos três anos e terá e ser substituído por alguém independente. Para além disso, a Tesla terá de criar um comité de consultores independentes que supervisionem e controlem o que Musk diz, atendendo que este continuará como CEO e com assento no quadro de administração. Soma-se ainda a este pacote de medidas uma multa de cerca de 20 milhões de dólares.

O afastamento de Musk já tinha sido ventilado por outros motivos, nomeadamente pelas dificuldades da Tesla em cumprir os ritmos de produção que consecutivamente promete e agora acabou consumado pelas piores razões. O mercado também reagiu a este desfecho, com as acções da empresa a cair notavelmente, um facto que demonstra bem a associação feita entre a valorização dos títulos e a figura do empreendedor e que simbolicamente demonstra a importância de qualquer comunicação, mesmo que seja só um tweet.