Roubos de dados, mentiras e pressão para a saída de Zuckerberg. Assim vai o Facebook

Será que podemos mesmo confiar no Facebook?

Foto de Anthony Quintano via Flickr

Muito se tem passado desde que a revista Wired publicou um extenso perfil sobre Mark Zuckerberg e os últimos dois anos da sua empresa. O artigo quase que serve de introdução para os meses que se viriam a seguir: a história da Cambridge Analytica, a empresa britânica que se aproveitou das fragilidades do Facebook para recolher dados pessoais de utilizadores e usá-los em campanhas políticas meticulosamente segmentadas a favor de Donald Trump; o caso do roubo de informações críticas a 30 milhões de utilizadores devido a uma falha de segurança grave; e, por fim, as métricas de vídeo falseadas pelo Facebook com o intuito de “sacar” mais dinheiro a anunciantes.

Se sobre o Cambridge Analytica já tudo se escreveu (ou, pelo menos, achamos nós), sobre os outros dois casos há muito a dizer.

Começando pelo do roubo, o Facebook já lançou dois comunicados de imprensa e realizou três briefs com jornalistas. A empresa diz estar a trabalhar com as autoridades na investigação do caso e empenhada em garantir que um roubo de dados de utilizadores da dimensão do que aconteceu não se repita. Estamos a falar de 30 milhões de contas, metade das quais tiveram atacantes a conseguir obter a seguinte informação: nome, e-mail, número de telemóvel, username, género, local/língua, estado de relação, religião, cidade-natal, cidade actual (listada no perfil), data de nascimento, tipo de dispositivos utilizados para aceder ao Facebook, educação, trabalho, últimos 10 locais em que fizeram check-in e/ou onde foram identificados, website, pessoas e páginas que seguiam, e as 15 pesquisas mais recentes.

Se o Facebook já explicou como é que os atacantes conseguiram aceder aos dados, não disse que atacantes foram nem o que fizeram com o que roubaram. No entanto, o Wall Street Journal avança, citando fontes anónimas próximas, que o objectivo dos atacantes foi ganhar dinheiro através da rede social e da propagação de anúncios de spam, não estando a operar sob ordens de um país estrangeiro. De acordo com o mesmo jornal, os envolvidos no ataque estão afiliados a uma suposta “empresa de marketing digital”. O Facebook não comentou a identificação deste caso, justificando o silêncio com a investigação do FBI em curso.

Certo é que a quantidade de utilizadores afectados e o volume de dados pessoais roubados podem fazer-nos questionar, e com razão, se estamos seguros com o Facebook. Aliás, contextualizando com o caso da Cambridge Analytica, a pergunta mais correcta a fazer deverá ser se podemos confiar na empresa que Mark Zuckerberg fundou em 2004 – se na altura o Facebook era apenas uma rede social aberta a universitários, hoje é uma base de mais de dois mil milhões de utilizadores espalhados por todo o mundo, isto sem contar com o Instagram ou o WhatsApp.

O império que Mark Zuckerberg construiu tem dado muito dinheiro, mas também sinais de fragilidade por todos os lados. Se as polémicas da Cambridge Analytica ou do roubo de dados não são suficientes – nem tão pouco o constante tema do discurso de ódio em Myanmar ou a da desinformação em períodos eleitorais em diversos países –, a cópula do Facebook continua a dar sinais de que pode não durar muito mais tempo intacto.

Uma das controvérsias mais recentes tem por base uma mentira que pode ter saído cara a anunciantes e órgãos de comunicação social, mas lucrativa a Zuckerberg e companhia. Durante dois anos, o Facebook mostrou valores 60% ou 80% acima do que os utilizadores realmente estavam a gastar a ver os anúncios de marcas e os vídeos publicados pelos media.

Apesar de a empresa já ter corrigido o problema, anunciantes defendem que Zuckerberg e a sua equipa sabiam dos números errados e que nada fizeram, o que pode ter levado marcas e OCS a investir mais do que teriam investido se tivessem acesso às métricas correctas. O Wall Street Journal, que denunciou este caso, cita o exemplo de uma agência de meios, a Publicis Media, que investiu 77 mil milhões de dólares em anúncios na rede social em 2015. Por seu lado, o The Atlantic culpa o Facebook pelo despedimento de centenas de jornalistas. A Wired lembra que foi o Facebook que convenceu os órgãos de comunicação social de que o vídeo era a “cena” e que pagou a algumas empresas de media para fazerem directos, de forma a estabelecer uma tendência.

No meio de tudo isto, o Facebook apresentou o Portal, um equipamento com um ecrã e uma câmara, desenhado para ser colocado em casa e permitir videochamadas entre pessoas distantes fisicamente. E se os rumores estiverem certos, a empresa pode estar a preparar o lançamento de uma outra câmara, esta para ser colocada na televisão, mas também pensada para videochamadas. O contexto destes lançamentos não é o melhor, e os executivos da empresa não parecem preparados para esclarecer uma dúvida elementar: o Portal recolhe ou não dados dos utilizadores para fins comerciais? Se algumas vozes oficiais do Facebook primeiro garantiram que nada era recolhido, mais tarde a empresa esclareceu que há dados recolhidos porque as videochamadas decorrem através do Messenger mas que, apesar de poderem ser potencialmente usados para fins publicitários, não o serão.

Por fim, enquanto o Facebook contrata o antigo Primeiro-Ministro britânico Nick Clegg para gerir as políticas e a comunicação global da empresa – especialmente questões como a desinformação, a protecção de dados e eventuais regulações por parte de Governos –, há investidores do Facebook a pedir a demissão de Mark Zuckerberg do cargo de Presidente. Ou seja, o fundador da empresa pode manter-se como CEO (ou Director Executivo), mas, dado a sua incapacidade de tratar adequadamente os inúmeros escândalos, pedem para o conselho de administração um presidente independente. Contudo, como nota a Fortune, Zuckerberg controla 60% do poder de votação no que toca a acções, ou seja, “se alguém investe no Facebook, uma grande parte do que está a investir ainda é de Mark Zuckerberg”.

A juntar às controvérsias que neste artigo já referimos, podemos acrescentar outras problemáticas, como a partilha de informação com fabricantes como a Huawei, a propagação de posts que geram violência não só no Myanmar mas também na Índia e no Sudão do Sul, a não eliminação efectiva de vídeos que os utilizadores tinham apagado, a eliminação acidental de vídeos, as war rooms que o Facebook monta para combater as notícias falsas, ou toda a questão do “bem estar estar”, do stress e das depressões que a adição ao Facebook pode causar.

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