Fake news ou desinformação? Uma conversa entre amigos num Google Doc

Eu e o Pedro abrimos um documento partilhado para falar sobre fake news ou desinformação.

Há já algum tempo que o tema fake news é recorrente nas minhas conversas com o Pedro Rebelo @browserd. “Devíamos começar a falar mais de desinformação, Joana”, disse-me o Pedro, que partilhou comigo alguns links sobre o tema.

Após a reportagem do Diário de Notícias (DN), a conversa entre nós os dois tomou lugar num Google Doc, de forma a simular uma conversa presencial. A nossa agenda de discussão começou com uma pergunta: “Há uma linha que separa as fake news da desinformação?”.

 

[Pedro] Não há uma linha que separa, pelo contrário, há uma linha que agrega, envolve, enquadra e reforça. Fake news é um termo vago, lato na sua possível contextualização, extremamente politizado, mas ainda assim, por demais redutor. O termo fake news é hoje em dia comumente associado à caracterização de uma qualquer notícia com a qual o alvo da mesma ou os seus apoiantes não concordam. E de tão presente estar, na voz de actores sociais muito activos, este termo passou a ser conotado essencialmente com a cobertura jornalística da acção política. Como a política (ou muitos dos seus principais actores) é sempre percepcionada como algo de tão distante, muitas vezes como um processo de comunicação unidirecional, é fácil levantar a suspeita sobre situações tão comuns como uma falha não intencional de um jornalista, deixando-a ao mesmo nível que uma campanha orquestrada na qual se produzem verdadeiras notícias falsas.

[Joana] Banalizou-se o termo e, de repente, “tudo” (o que não se quer perceber a fundo) passou a ser fake news. Passou a ser um argumento para esconder aquilo que verdadeiramente se queria dizer, um “não me pronuncio sobre” ou “não quero saber”. Se ignorar muito as fake news pode ser que elas desapareçam – e agora, estão em todo o lado, qual deus omnipresente. Até que chegou o dia em que foram mortas, assassinadas. Fake news começa por ser um statement, no sentido em que se aponta que ISTO é muito mau por serem fake news. E agora abandona-se, pois a expressão, em si, é fake, no sentido em que não traduz correctamente o sentido daquilo que se rotula como fake news. Afinal, o homem que popularizou o termo ficou conhecido por utilizar a palavra “Covfefe”. Citando o próprio: “Sad.” Como é que vamos dizer misinformation em português? Informação errada? Bom, agora surgiu-me outro termo que pode complicar (ou não) este debate: devíamos andar, sim, à procura da missed information, da informação perdida, da informação em falta. Sem complicar, como podemos entender a desinformação, Pedro?

[Pedro] A desinformação por sua vez é o Mestre de Cerimónias de uma festa onde as fake news são só uma das atrações. A desinformação é toda uma miríade de informação falsa, incorreta, descontextualizada, em tempo e espaço que não o real, projectada, apresentada e partilhada (pelo menos na sua génese), com o intuito de causar dano ou obter lucro. Criar com esta intenção uma “notícia”, relatando factos que nunca ocorreram é um acto de desinformação, mas é igualmente desinformação quando com o mesmo objectivo se publica na internet um excerto de um vídeo de há dois anos, com a data actual ou mesmo sem data, deixando em aberto a possibilidade de ser actual. Mas a desinformação é ainda muito mais que isso. Nesta “festa” onde brilham as fake news, quando devidamente planeada, brilham por exemplo, os “discursos” que, roçando a ilegalidade, se mantêm dentro da lei, não deixando de projectar ideias, ideais, frases de ordem, que serão à posteriori amplificados pela estrutura pensada para a “campanha”. Porque hoje, estes mesmo discursos já são escritos considerando esse uso.

[Joana] Sobre a questão da partilha, oiço muito o “partilhei sem querer” para justificar o facto de se ter contribuído. É uma desculpa usual e que é sinal de falta de sensibilidade para as questões de verificação das notícias, das fontes originais ou até das intermédias.

[Pedro] A sério? Há quem diga que partilha sem querer? E alguém acredita? A partilha é mais que um like, obriga a uma acção mais concreta e morosa. Ninguém partilha sem querer. Partilham querendo partilhar o que estão a ver. O que eventualmente não queriam era partilhar uma informação falsa. E digo eventualmente porque muitas vezes, mesmo perante a suspeita da falsidade ou, no mínimo, um sentimento de incerteza, impera a possibilidade de uns quantos likes, até quem sabe, de comentários. Os 15 segundos (estamos no tempo da internet, um tempo que passa mais depressa) de fama…

[Joana] Eu encolho os ombros e digo: “sim, podemos sempre culpar as redes sociais e os botões reluzentes de share/retweet que nos satisfazem a vontade de ‘aparecer’, de ser o primeiro a entrar na onda”. Também gosto do  “não sei se é verdade, mas se for, é uma vergonha!”. E de repente estamos a julgar (em praça, perdão, mural público) algo cuja verdade não apurámos, nem fizemos esforço para tal.

[Pedro] É daqueles casos em que leva à pergunta “perante um cogumelo selvagem, alguma vez disse ‘não sei se é venenoso mas se não for é capaz de ser bom’?” E depois? Deu uma dentadinha só para ter a certeza?

[Joana] RI-ME MUITO ALTO – ou, como se diz “agora”, LOL! E por falar em rir e humor, e os memes? São o quê? É que o artigo do DN veio trazer a questão dos memes: a imagem de Catarina Martins com o relógio trouxe à discussão se seria um meme e se fosse, como fazer a leitura de trabalhos como os de Insónias em Carvão. Li no Twitter várias discussões sobre isso. Afinal, o humor ou até o sarcasmo têm este efeito de nos fazer duvidar da verdade, do que estamos a ver, cria-se ali uma narrativa do absurdo (tenho de explicar isto melhor). A diferença está mesmo na forma como os conteúdos desinformativos afirmam e como os conteúdos de humor sugerem, provocam o tal absurdo.

[Pedro] Para a grande maioria das pessoas os memes são imagens, mais ou menos engraçadas, acompanhadas de um qualquer texto reflectindo uma observação a uma situação real ou desejada. Mas os memes são coisas com vida própria, quero dizer, são coisas criadas mas das quais rapidamente os autores perdem o controlo. Aliás, o próprio nome já de alguma forma implica essa dinâmica (a Memética estuda a informação tendo por base conceitos da evolução Darwiniana) e isso deveria ser o suficiente para termos algumas reservas relativamente à informação que nos é apresentada por esta via, sejam os memes de humor que referes ou outros, porque hoje todos eles podem ser pensados com o mesmo intuito, o de implementar a tal campanha de desinformação. Se o Batman der um estalo no Robin usando um relógio de luxo no pulso, com um balão de texto dizendo “não acredites em tudo o que vês por na internet”, podes fazer várias leituras. Uma delas é a que é claramente expressa, a da falsidade de determinados argumentos. Outra, e que não deve ser descurada, é a de que é mais uma forma de manter determinado tópico em top of the mind. Se uns dias mais tarde aparecer uma foto, um clip de vídeo, algo que remotamente possa estar relacionado com o tema, já não haverá necessidade de o declarar, as pessoas irão relacionar as coisas por si. A desinformação funcionou.

Richard Dawkins no livro The Selfish Gene, lugar de cunho da expressão em causa, refere que os melhores memes são aqueles que respondem a uma necessidade cultural em particular, capturando por isso a nossa atenção e de alguma forma transmitindo-nos a sensação de que algo neles nos liga à pessoa que o partilhou connosco logo, dando-nos algum à vontade para o partilhar com outro alguém com quem imaginemos ter esse algo em comum. Obviamente Dawkins não se referia aos memes da internet mas, pelo que podemos observar, a sua teoria parece manter-se válida, reforçada agora pela facilidade da partilha e a satisfação obtida pela imediatidade do retorno.

Há muito que são conhecidas as potencialidades dos memes da internet e, mesmo se para muitos utilizadores eles são, tal como disse, imagens mais ou menos engraçadas, com um texto em jeito de uma observação a uma qualquer situação, para quem trabalha comunicação (comercial, política, etc) os memes são elementos que carregam indicadores sociais, identitários, de emoções, com narrativas, que podem ser de grande utilidade.

[Joana] Não tem sentido demonizar os memes, tendo em conta que nos fazem rir de nós mesmos, do mundo à nossa volta. E isso também é de salutar e pode (e é, muitas vezes) feito com bastante inteligência. Por falar em inteligência, parece que nisto da desinformação nem as máquinas nos valem. As máquinas não são muito expeditas nisto de ler, interpretar e identificar notícias que não são notícias, são desinformação. Temos mesmo de contar com a inteligência humana que, como vemos diariamente, tem os seus momentos de pouca inteligência. Faço uso das palavras de Yuval Noah Harari que no seu último livro assume que alguns capítulos são um elogio à sabedoria humana e outros apontam “o papel decisivo da estupidez humana” (21 Lessons for the 21st Century).

Bem vistas as coisas, isso da pós-verdade é coisa do passado. Abusando das palavras de Harari, não podemos esquecer que há muitos séculos alguém, os cristãos, quiseram convencer o mundo de que a Bíblia descrevia factos. Por sua vez, os muçulmanos fizeram o mesmo, em relação ao Alcorão. “Quando mil pessoas acreditam numa história inventada durante um mês, chamamos-lhe fake news. Quando mil milhões de pessoas acreditam nisso há mil anos, dizemos que isso é uma religião (…).” A humanidade tem um longo passado com as fake news. É uma história de amor antiga. Mas agora parece que é mais fácil acusar as redes sociais, que são umas malvadas e nos obrigam ao share, retweet e ao like, abdicando de uma das características mais sapiens do homo sapiens: PENSAR. Foi para isto que os nossos antepassados inventaram a roda?

[Pedro] A Humanidade, a Humanidade. Parece que estabelecemos aqui um padrão… O que está mal é… Já vimos este filme. Num qualquer filme. As máquinas estão a ajudar. Sim, claro, alguém se está a esforçar para que as máquinas nos facilitem o trabalho de destrinçar o que é informação do que é desinformação mas, quis custodiet ipsos custodes? Quem guarda os guardiões? Platão disse que os vigilantes se vigiam a si mesmos, mas as máquinas ainda não fazem isso, pelo menos, não neste tema. A base do seu trabalho é ainda estabelecida pelo Homem e por muito avançada que esteja a tecnologia na implementação da semântica linguística ou mesmo da semiótica, é o Homem quem define as regras e como tal, devemos ter consciência de que nos encontramos permanentemente perante informação que nos é apresentada segundo critérios éticos e morais de alguém. Não sendo nós conhecedores desse alguém, a melhor opção é tentar efectivamente entender a informação, perceber o seu propósito e, com base nisso, estabelecer a acção seguinte: arquivar, partilhar ou denunciar. Esta parece ser uma conclusão lógica mesmo perante uma informação que nos é transmitida por alguém que conhecemos, por aquilo a que cremos serem fontes seguras. Não é à toa que o refiro. O share, o retweet e o like que referes, com a possível gratificação, célere, de um reconhecimento pelo outro, parecem levar muita gente a esquecer a lógica por trás das acções, mesmo as mais básicas, como ler uma notícia para além do título.

[Joana] Esquecemos a lógica e revelamos a nossa escala de valores: é mais importante ser o primeiro a partilhar, o primeiro a reagir – do que ser aquele que partilha depois de verificar fontes, ler mais sobre o assunto e que, no fundo age. Depois de termos morto deus (segundo Nietzsche, que escreveu Thus Spoke Zarathustra em 1882), ficámos francamente a sós connosco mesmos, entregues ao nihilismo. O lado positivo? A humanidade ficou perante outras possibilidades de existência. Negando o supra-sensível, o nihilismo permite que revalorizemos o sensível, podemos criar novos valores. É a morte de Deus que permite o surgimento do super Homem. Mas para isso a Humanidade tem de se metamorfosear, de leão para criança, que brinca e joga e que, sobretudo, não reage, afirma.

Esta relação da Humanidade com o tempo… há aqui uma dinâmica da pressa que se implementou nos nossos hábitos, que tem vindo a ser contrariada por algumas correntes em áreas muito distintas. Falemos apenas em comunicação e no slow journalism: aqui o importante não é ser o primeiro a dizer coisas superficiais e sem verificação adequada. O slow journalism faz-se “devagar, devagarinho”, investigando, maturando a informação e escrevendo com atenção ao detalhe. É um remar contra a maré que dificilmente vai colher junto das massas, mas que é valorizado por quem gosta mesmo de parar para ler uma boa peça jornalística.

[Pedro] Percebo o que dizes mas o problema que encontro é que parece haver cada vez menos pessoas dessas, que gostam de parar para ler, o que quer que seja. Ler, e mais importante, entender o que se lê, requer tempo, e o advento do digital, e mais concretamente das redes sociais online, veio criar na sociedade a ideia de uma temporalidade definida pelo presente imediato, e o presente é sempre curto. O slow journalism que referes é ainda objecto de uma subcultura, um nicho. Já teve expressão, num tempo em que não havia necessidade de lhe chamar slow mas agora… Mesmo na literatura que encontramos sobre o tema, o slow journalism é apresentado quase sempre como o contraste à tendência da imediatidade, mais do que pelo seu próprio valor. Esta é a forma de expressão da grande reportagem e do ensaio. Quando foi a última vez que viste algo do género num jornal ou revista de grande circulação?

[Joana] O slow journalism é de nicho. É como o Twitter. E a relevância não se mede pelo alcance, não achas? Dou por mim a pensar que “é pelo nicho que vamos”. Mas continua, desculpa.

[Pedro] É curioso que refiras Nietzsche quando debatemos a questão das fake news e da desinformação. Para Nietzsche, a verdade era uma construção da sociedade. No seu curto ensaio Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, Nietzsche refere que a verdade é uma soma de relações humanas, realçadas pela retórica que, após um uso prolongado, são assumidas como obrigatórias. Ora, este tempo, em que Oxford entroniza a pós-verdade, parece ser a concretização da visão profética do filósofo.