Filosofia para crianças e jovens? Só podes estar a brincar

A novidade desta prática filosófica é o reconhecimento da capacidade das crianças (a partir dos 3, 4 anos) em trabalhar o pensamento.

(Ricardo Santos/Shifter)

(Este texto faz parte de nova rubrica do Shifter, Monólogos Platónicos, em que exploraremos de forma simples o complexo mundo da filosofia nas suas várias aplicações ao mundo real.)

Não, não estou. Nem eu, nem um senhor chamado M. Lipman, lógico, universitário que, algures em 1960 e picos, criou um programa de filosofia, para crianças.

O que é?

A filosofia para crianças é conhecida como philosophy for children e por isso é comum encontrarmos referência a P4C (ou, em português, FpC).  Há quem opte pela denominação filosofia com crianças (FcC ou PwC – philosophy with children) para marcar a distância face ao programa proposto por Lipman no Institute for the Advancement of Philosophy for Children (IAPC).

Uma brincadeira muito séria

Seja qual for o nome, a novidade desta prática filosófica é o reconhecimento da capacidade das crianças (a partir dos 3, 4 anos) em trabalhar o pensamento. Sim, trabalhar, pois as oficinas de filosofia têm como provocação um problema ou uma pergunta que o grupo (a comunidade de investigação filosófica) se dispõe a analisar. Há um trabalho que acontece por via do jogo, do lúdico, para manter o nível de interesse, motivação e curiosidade das crianças e do facilitador.

Agora que olho para o título do artigo, terei que reformular o “não, não estou a brincar”. Na verdade, o pensar é aqui entendido como uma brincadeira, mas daquelas muito sérias. Uma brincadeira que nos faz tomar consciência de uma pergunta, da importância que ela tem para nós e, também, das respostas possíveis.

A utilização de jogos como provocação para o pensar, jogos esses que podem ser desenvolvidos a partir de uma ideia das próprias crianças, permite aproximar a filosofia das crianças e dos jovens. E até dos adultos, para ser sincera.

O que é que acontece numa oficina de filosofia, para crianças e jovens?

Aquilo que pretendemos é que o grupo assuma o compromisso de pensar em conjunto e de levar essa investigação até às últimas consequências. Não podemos abandonar a investigação “porque sim” ou por estarmos cansados. A pergunta ou o problema em discussão deve ser aprofundado e examinado com atenção.

O mote para esta investigação pode ser uma pergunta que o grupo ou alguém no grupo considere pertinente. Pode ser também o resultado das perguntas que se fazem após a leitura de um livro ou o visionamento de um vídeo. Os recursos podem ser os mais variados; devem, sim, ser ajustados às idades com as quais se está a trabalhar. Além disso, há também a possibilidade do recurso constituir uma centelha filosófica, em si mesmo. Quando isso não acontece, o facilitador tem que ser o responsável por procurar o cunho filosófico no diálogo que acontece, em grupo.

Caso contrário estaremos perante uma conversa, mais ou menos animada, onde cada um diz o que pensa e pronto. Ora, isso não é filosofia (para/com crianças e jovens). De facto, cada um dos elementos do grupo pode dizer o que pensa, mas terá também que pensar com o outro, analisar criticamente o seu pensamento e o dos outros. Às vezes acontece acabarmos por mudar de ideias; outras vezes o desafio consiste em procurar argumentos que defendam uma posição com a qual até nem concordamos. Os desafios são muitos e devem ter uma intenção filosófica.

E isto acontece assim, só com as crianças e os jovens?

Na verdade, esta prática filosófica pode ser aplicada com qualquer faixa etária. Há uns anos tive uma experiência numa universidade sénior e a minha forma de estar, enquanto professora, era dentro da linha da P4C.

Cabe ao facilitador adaptar o tipo de recurso que vai servir de provocação filosófica ao pensar, bem como a linguagem que utiliza.

Este treino dos “músculos do pensamento” pode ser aplicado a quem queira promover a flexibilidade, a resistência, a força, a agilidade do seu pensar. A partir dos 3, 4 anos qualquer pessoa poderá fazer parte de um grupo que se junta para levar a cabo “os trabalhos do pensar”.

O que dizem as crianças sobre estas oficinas?

Há crianças que gostam, outras que participam muito. Também há crianças que não gostam e outras que não participam. Não há uma garantia de que todas as crianças vão gostar muito das oficinas de filosofia – mas tal acontece com outras actividades. O importante é que estas oficinas constituam um espaço de liberdade, em que cada um, dentro do seu ritmo, desenvolva as competências do pensamento e aprenda a “manusear” algumas ferramentas do pensar.

No final da oficina gosto de ouvir o que as crianças têm a dizer sobre aquilo que aconteceu, entrando assim, pé ante pé, num trabalho que é meta-cognitivo e que nos obriga a pensar sobre a forma e não tanto sobre o conteúdo.

Parece-vos aborrecido? Acham que isto não tem sentido?

Convido-vos a ver a minha TEDx Talk, bem como a visitar o meu blogue, onde partilho muitas estórias de oficinas de filosofia, para crianças e jovens.