Google queria entrar em Berlim, mas (o povo de) Berlim não deixou

Dois anos depois de resistência local, a gigante norte-americana abandonou o projecto de criar no bairro de Kreuzberg um campus para empreendedores e start-ups.

Foto de GloReiche via Flickr

À semelhança de outras cidades, de Londres a São Paulo, a Google queria abrir em Berlim um grande campus para empreendedores, que pudesse acolher start-ups em residência e ao mesmo tempo ser um espaço de networking e aprendizagem. Mas a resistência de activistas locais ditou a expulsão da gigante norte-americana antes que as obras sequer começassem.

Era em Kreuzberg, a norte da capital alemã, mais especificamente numa antiga central eléctrica chamada Umspannwerk, que a Google previa abrir o seu sétimo campus dedicado a empreendedores e start-ups. Contudo, o espaço de 3 mil metros quadrados onde previa instalar escritórios, cafés e áreas partilhadas de trabalho será antes entregue a duas associações humanitárias locais, avança o The Guardian.

Ao longo dos últimos dois anos, a Google teve de enfrentar a contestação de negócios já fixados em Kreuzberg, de artistas e de residentes da zona, preocupados com a subida das rendas e a consequente gentrificação da zona, segundo uma reportagem do The Guardian de Maio deste ano. De acordo com um relatório da consultora Knight Fox, citado pelo mesmo jornal, os preços das casas têm subido em Berlim a uma velocidade sem igual – 20,5% entre 2016 e 2017. Em Kreuzberg – um bairro onde a cultura underground e mais alternativa de Berlim ganha forma e que hoje é também uma grande incubadora de empresas digitais –, o aumento das rendas foi de 71% no período supra referido.

Foto de GloReiche via Flickr

A abertura do novo hub empreendedor da Google em Kreuzberg tinha sido inicialmente prevista para Setembro de 2017, antes de ser atrasada para o Outono deste ano. A resistência local ganhou ao longo do tempo diversas formas, desde protestos à frente do local escolhido pela firma norte-americana, a sessões intituladas “Anti-Google Café” promovidas duas vezes por mês por uma livraria anarquista daquele bairro. Também existiu uma campanha porta-a-porta para sensibilizar os residentes para a subida das rendas, um jornal chamado ’Shitstorm: Against Google, Displacement and Tech Dominance’ distribuído na zona, e um website com um nome bem evidente – ’Fuck Off Google’ – para trazer a contestação para a internet.

Além das questão das rendas, os activistas mostraram-se igualmente preocupados com a possibilidade de a Google se aproveitar da cena criativa e do espírito “sem regras” de Kreuzberg, com a possível natureza especulativa das start-ups e com algumas práticas da empresa que dizem serem pouco correctas – como a evasão fiscal e a vigilância massiva, fruto de a Google fazer negócio com os dados pessoais dos seus utilizadores.

Resta agora esperar para saber se a Google irá instalar o campus que tinha previsto para Berlim noutra cidade.