Huawei, a marca que já passou a Apple e continua atrás da Samsung, tem novos equipamentos

Em Londres, a Huawei apresentou a sua família Mate 20, composta por quatro novos elementos e um já conhecido. Os preços variam entre os 400 e os 2095 euros.

O mercado tecnológico é extremamente valioso. De acordo com dados da analista GlobalData referentes ao primeiro trimestre deste ano, as 25 tecnológicas mais valiosas representam, no conjunto, um total de 5,7 biliões de dólares. No topo da lista, encontra-se a Apple, que no passado Verão tornou-se a primeira empresa em bolsa a valer um bilião. Mas tecnologia não se resume a smartphones e, neste mercado de consumo em queda mas com previsões de recuperação já em 2019, encontramos uma marca até há pouco tempo semi desconhecida e que hoje é a segunda que mais vende globalmente.

Falamos da Huawei que, no segundo trimestre, ultrapassou pela primeira vez a Apple e disputa hoje a liderança da Samsung. O marco – dizem vários analistas – decorreu do peso que a Huawei ganhou na China, o seu mercado doméstico e também do maior mercado de smartphones a nível mundial, e também ao europeu. Este crescimento da Huawei é, no entanto, limitado pelos Estados Unidos da América, um mercado altamente influente e rentável, onde a marca enfrenta uma batalha por notoriedade e confiança. Na verdade, tanto na comunidade de YouTube de tecnologia como nas principais publicações especializadas dos EUA dá para sentir essa desconfiança dos consumidores norte-americanos. E do lado das autoridades do país, como o FBI, a CIA e a NSA, as vozes que se ouvem são a aconselhar os cidadãos a não comprar produtos de tecnológicas chinesas, como é o caso da Huawei – um aviso que ganha especial significado depois do The Big Hack.

Na Europa, a Huawei encontra um mercado interessante entre o chinês e o norte-americano. Aqui, a empresa – que começou a virar-se para o consumo em 2012 e que só em 2017 lançou o seu primeiro smartphone global (o Mate 9 Pro) – procura chegar aos consumidores que hoje compram Apple ou Samsung. Se a primeira beneficia de um patamar quase sagrado com o seu iPhone e o iOS, e se a segunda já parece ter conseguido familiarizar os consumidores com a sua série Galaxy S e a linha Galaxy Note, é agora o tempo da Huawei de fazer com que todos conheçam a sua gama P (actualmente na geração P20) e a família Mate, para que possam, por exemplo, optar por um Mate 20 Pro em relação a um Galaxy Note 9 ou um iPhone XS Max.

O Huawei Mate 20 Pro

A família Huawei Mate 20

Foi nesta terça-feira, em Londres, que a Huawei anunciou a família completa do Mate 20, que cresceu com novos membros relativamente à Mate 10 de 2017. Durante a extensa keynote, que na recta final já estava a causar algum cansaço aos presentes, não faltaram comparações ao Galaxy Note 9 e ao iPhone XS Max, com a Huawei a dizer, basicamente, que os seus Mate 20 têm melhor ecrã, melhor performance, melhor bateria, melhor inteligência artificial e melhor câmara que toda a sua concorrência. Anunciados no evento foram o Mate 20, o Mate 20 Pro, o Mate 20 X e o Mate 20 RS, que se juntam ao Mate 20 Lite, revelado no final deste Verão e com um preço a rondar os 399 euros.

O Mate 20 Pro

O Mate 20 Pro é o principal “cavalo de corrida” da Huawei e também a principal aposta em Portugal. Disponível em preto, azul, rosa, verde e num bonito gradiente azul-roxo (que a marca baptizou de Twilight), é um smartphone elegante como a Huawei nos quer habituar, com vidro na parte de trás e da frente e uma moldura em alumínio; dado o seu ecrã curvo nas bordas, assemelha-se agora a um equipamento da Samsung, o que pode ser um bom sinal. O Mate 20 Pro apresenta algumas inovações relativamente ao seu antecessor e à sua concorrência; outras características colocam o equipamento a par com o que os outros estão a fazer. Vamos a um resumo:

  • um ecrã OLED com 6,39 polegadas, resolução 2K e 19:5:9 de aspect ratio, que ocupa 88,90% da parte frontal do telemóvel;
  • uma notch no topo que pode ser escondida através do software;
  • um leitor de impressões digitais debaixo do ecrã (é o primeiro smartphone de uma grande marca com esta característica);
  • uma bateria de 4200 mAh que pode ser carregada em modo rápido (70% de carga em apenas 30 minutos) ou sem fios. Encostando o Mate 20 Pro a outro telemóvel, como um iPhone XS, por exemplo, é possível carregá-lo sem qualquer cabo;
  • duplo altifalante, um deles escondido no conector USB-C (não, não há entrada para auscultadores);
  • uma câmara frontal capaz de fazer reconhecimento facial a três dimensões para desbloquear o equipamento, aceder a determinadas apps ou fazer pagamentos. Esta câmara pode também ser utilizada para criar emojis 3D (estilo os Memojis da Apple) ou fazer a digitalização de objectos físicos, transformando-os em criações digitais que podem ser animadas em realidade aumentada. A câmara frontal 3D também promete melhores resultados em selfies;
  • uma câmara traseira tripla, com os três sensores (40 MP + 20 MP + 8 MP) organizados juntamente com o flash num quadrado que a Huawei quer tornar icónico e que diz ser inspirado nos faróis dos automóveis topo de gama. Promete ser uma câmara excepcional, conjugando os três sensores quer para produzir fotos de grande abertura, quer para fazer fotografia macro – isto é, a uma distância de apenas 2,5 cm dos objectos;
  • um processador próprio da Huawei, o novo Kirin 980, o primeiro fabricado em sete nanómetros a dar vida a um smartphone Android. Inclui um CPU, um GPU e dois NPU, estes a pensar em todo o processamento de inteligência artificial;
  • suporte para um cartão de memória Nano, mais pequeno que um MicroSD e que pode ser introduzido na ranhura do cartão SIM onde cabe também um segundo SIM;
  • o sistema operativo é o novo EMUI 9, da Huawei, baseado no recente Android 9. A marca deu alguns toques no design da interface e das suas apps nativas, sendo possível encontrar, por exemplo, um modo escuro e alguns utilitários como uma bússola ou uma carteira digital para guardar cartões bancários. A Huawei desenvolveu também uma ferramenta de “bem estar digital”, recorrendo às APIs da Google;
  • suporte para ARCore e, por isso, todas as apps de realidade aumentada desenvolvidas usado essa framework, incluindo o HiVision, uma versão da Huawei do Google Lens, que permite usar a câmara para traduzir sinalética em tempo real, ver as calorias da comida à nossa frente ou identificar um quadro numa exposição de arte;
  • um modo PC que permite ligar o Mate 20 Pro a um monitor externo usando um acessório sem fios;
  • uma melhor precisão na localização GPS, pois são suportadas duas frequências – L1 e L5 –, prometendo-se melhores resultados em zonas com muita densidade de edifícios altos ou de floresta;
  • resistência à água e a poeiras com certificação IP68.
A traseira do Huawei Mate 20 e a versão Twilight

Os outros Mate 20

Se o Huawei Mate 20 Pro vai custar 1049 euros (6 GB de memória RAM e 128 GB de armazenamento inteiro), o preço do Mate 20 (também com 128 GB) varia entre 799 e 849 euros, consoante a configuração: 4 GB de RAM ou 6 GB de RAM. O processador do Mate 20 é o mesmo do Pro, o ecrã é mais pequeno (LCD, 6,53 polegadas, FHD, 18:7:9), a notch também é mais reduzida (uma vez que a câmara frontal não tem tecnologia 3D), a câmara traseira é tripla mas os sensores de uma gama mais baixa (16 MP + 12 MP + 8 MP), o leitor de impressões digitais está na parte de trás, não pode ser mergulhado debaixo de água, não suporta cartão de memória Nano, e a bateria tem menos 200 mAh.

A notch do Mate 20 é mais pequena que a do Mate 20 Pro

A Huawei revelou também o Huawei Mate 20 RS, uma versão do modelo Pro criada em parceria com a Porsche. São duas cores: preto e vermelho, que remetem para o imaginário da marca alemã. Na parte traseira existe um elegante revestimento em pele; já no software o sistema operativo conta com uma skin especial para realça o design da Porsche. Os preços deste Mate 20 RS (com 8 GB de RAM) variam entre os 1695 e os 2095 euros, dependendo do armazenamento interno: 256 GB ou 512 GB.

O Huawei Mate 20 X

Há também o Mate 20 X, que se posiciona entre os Mate 20 e o Mate 20 Pro, custando 899 euros (6 GB de RAM e 128 GB de armazenamento). Apresenta um ecrã maior que estes dois – um OLED de 7,2 polegadas –, tecnologia de arrefecimento e uma bateria de 5000 mAh, características a pensar nos gamers. Em palco, a Huawei equiparou este Mate 20 X não só ao Galaxy Note 9 e ao iPhone XS Max para dizer que sobreaquece menos durante um jogo, mas também à Nintendo Switch, indicando que o smartphone tem um ecrã maior e 1080p, e uma bateria mais duradoura, bem como acesso aos jogos do ecossistema Android. As câmaras deste Mate 20 X são as mesmas do modelo Pro e, ao contrário deste, o equipamento é compatível com a caneta da Huawei, a M Pen – um chamariz também a quem gosta de usar o telemóvel como ferramenta de produtividade.

Um relógio e uma pulseira

Em Londres, a Huawei anunciou ainda o seu novo relógio e uma pulseira, ambos com preços acessíveis e compatibilidade tanto com equipamentos Android como iOS. Com um ecrã OLED de 1,39 polegadas, o Huawei Watch GT vai custar entre 199 e 249 euros (versão desportiva e clássica), inclui sensores para monitorizar actividade física e batimento cardíaco em tempo real, mas o principal destaque vai para bateria de duas semanas (tanto o Apple Watch como o Galaxy Watch têm bateria para um dia). Já a pulseira, a Huawei Band 3 Pro, tem um preço de 99 euros e promete ser um companheiro acessível de quem gosta de manter uma actividade física regular – além de servir para registar corridas, treinos de natação e outros desportos, também ajuda a avaliar o sono e regista o batimento cardíaco.

O novo relógio e a nova pulseira da Huawei

A Huawei disse, pouco antes do Verão arrancar, ter vendido seis milhões de unidades do P20 globalmente, um crescimento de 81% relativamente à série P10 de 2017. Apesar de a marca não ter especificado qual o P20 mais vendido (recorde-se que existe o modelo Lite com um preço mais baixo), resta agora ver se o Mate convencerá os consumidores e qual (ou quais) das versões terá maior sucesso. Se no ano passado, a Huawei apenas apresentou um Mate 10 e um Mate 10 Pro (apostando principalmente no Pro), este ano há um Mate para quem procura gastar pouco, um para gamers, um para quem procura escolha no mercado dos smartphones de mil euros, um para os amantes de Porsche e, claro, um modelo base.

O futuro da Huawei

Com o relógio, a pulseira e a nova família Mate, a Huawei reforça a sua oferta de hardware, ao mesmo tempo que procura criar um ecossistema próprio, que passa não apenas por uma comunicação fácil entre todos os dispositivos que um utilizador tenha da Huawei, mas também por garantir que existem à sua disposição serviços que a marca considera essenciais. Ao contrário da Samsung, que procura criar alternativas às ofertas da Google – seja um assistente pessoal próprio (Bixby), um browser seu (Samsung Internet) ou uma app nativa para mensagens (em vez do “padrão” Android Messages) –, a Huawei parece interessada em manter a Google próxima. Salvaguarda-se, no entanto, com a sua EMUI, apresentando uma interface que vai buscar alguma inspiração ao iOS (talvez para que os utilizadores que migrem do iPhone mais rapidamente se habituem a um equipamento Huawei). Disponibiliza também um conjunto de apps e utilitários que a Google não coloca no “pacote” do Android e que podem dar jeito (como uma bússola) ou oferece serviços a pensar no seu ecossistema, como é o caso do Huawei Share ou da Huawei Cloud (para backups de segurança e não só).

Os planos da Huawei passam agora por crescer e suplantar as suas concorrentes, tendo na família Mate 20, juntamente com os P20 e todos os restantes produtos, bons trunfos. Bons produtos, bom design, boas funcionalidades, ecossistema em expansão. Em Portugal, a empresa reclamava uma quota de mercado de 28% em Maio, um crescimento relativamente aos 23% que detinha um ano antes, que posicionou a marca pela primeira vez à frente da Samsung. De acordo com a empresa, os smartphones acima dos 900 euros representaram 18% das vendas, enquanto que os entre 600 e 900 perfizeram 30%. Enquanto a marca continua a tentar comunicar as suas alternativas aos iPhones e aos Galaxy, espera também trazer para Portugal os seus computadores portáteis, como o MateBook X e o MateBook X Pro.

Nota: o Shifter viajou a Londres a convite da Huawei.