Jornalista saudita morto: a liberdade de imprensa continua a ser um oásis

Khashoggi, de 59 anos, trabalhava como jornalista no Washington Post, e era um velho conhecido do mundo árabe e antigo conselheiro do governo saudita.

Quando o tema é a liberdade de imprensa, por muito realistas e bem medidos que sejam os apelos e as mensagens, continua a ser difícil de imaginar; sobretudo as suas implicações e a sua dimensão no mundo ocidental. Com a crescente complexidade do mundo e das relações que lhe são adjacentes, promovida por exemplo pela crescente globalização dos mercados, os casos em que a ameaça toca a realidade acabam por ser periféricos e dificilmente ser levados pelo grande público com a seriedade merecida.

Tendemos a crer que o rapto, a morte ou outro tipo de actividades criminosas contra quem fala ou escreve de modo radicalmente livre são coisas que só acontecem em países de terceiro mundo ou nas zonas que nos habituámos a avaliar sobre os preconceitos avidamente difundidos. Rússia, Irão, Iraque, Síria, you name it.

A verdade, no entanto, está longe de ser tão linear. A prová-lo está mais um caso recente do desaparecimento de um jornalista de nacionalidade saudita mas afiliado ao Washington Post a quando da sua visita ao país vizinho da União – e um candidato à entrada –, a Turquia.

O caso que, a ser devidamente escrutinado poderá representar uma questão diplomática séria, será um teste para as relações e intenções entre Trump e os seus amigos sauditas.

Khashoggi, de 59 anos, trabalhava como jornalista no Washington Post, e era um velho conhecido do mundo árabe e antigo conselheiro do governo saudita – que recentemente sofreu grandes mudanças. Apesar de estar exilado na capital dos Estados Unidos da América há mais de um ano, reconhecia frequentemente ter noção de que o queriam matar e “tirar da fotografia”, avisos que foram perdendo força à medida que o tempo ia passando e a sua voz se ia normalizando.

Na quinta-feira passada, Khashoggi visitou a embaixada saudita na cidade turca de Istambul e desde então que não é visto. Yasin Aktay, conselheiro do presidente turco, Recep Erdogan, em declarações à agência noticiosa Reuters diz acreditar que o saudita terá sido morto por um esquadrão da morte composto por 15 sauditas enviados para o executar dentro da embaixada.

Os contornos da morte continuam por apurar ao certo e as motivações, embora pareçam óbvias, também precisam de ser esclarecidas até para que se perceba a relevância diplomática do caso — reforço para a ideia de que será um teste de fogo a Donald Trump perceber como reage à morte de um cidadão dos Estados Unidos como era Khashoggi.

Rumores ecoados por Turan Kışlakçı, membro da Associação de Media Turco-Áraba indiciam que Khashoggi tenha sido morto de uma forma bárbara, desmembrado após o crime e que o seu corpo tenha sido transportado de volta para a Arábia Saudita.

Este caso embora pareça distante tem a sua importância olhando ao que acima referimos – as complexas relações de poder que se vão desenrolando e moldando o mundo como o conhecemos, olhando por exemplo ao conluio entre o governo dos Estados Unidos da América e o reinado da Arábia Saudita.

Do lado dos EUA , as reacções ainda não se fizeram ouvir em voz alta. Apesar disso, o senador Mark Rubio fez-se ouvir dizendo que “Se as notícias perturbadoras se confirmarem, os Estados Unidos da América e o mundo civilizado tem de responder em força.”

Khashoggi escrevia há cerca de um ano no Washington Post denunciando a postura cada vez mais opressiva dos líderes sauditas, depois de deixar a sua casa, a sua família e o seu trabalho para “levantar a voz” contra as injustiças perpetradas naquele país oriental, sobretudo o ataque ao Iémene e a intolerância à Irmandade Muçulmana, um grupo político transnacional que se apresenta como activista pela democracia e elemento de denúncia contra a violência gratuita e as injustiça do mundo árabe.