Massive Attack reeditam disco em ADN para ouvirmos… no futuro

Mezanine será reeditado numa programação especial de ácido desoxiribonucleico.

Foto via Hingston Studio

Podem não ser a banda britânica mais popular da sua geração, podem nem ser o nome que surge à cabeça quando a keyword é criatividade, o que é certo é que os Massive Attack são das bandas que melhor percebe os nossos tempos e os trabalha com ideias que podem não ser de fácil digestão mas dão que pensar. Poder-se-á dizer que, há semelhança da sua música.

Mezzanine saiu há 20 anos e há 20 anos tornou-se o primeiro disco disponível gratuitamente em streaming. Agora o duo que com anos de história, faz culto, deixando marcas na história impossíveis de replicar – como Teardrop – prepara-se para lançar mais uma edição do mítico álbum num formato que não podia dizer mais sobre os nossos tempos.

A ideia parece-se com o plot de um episódio de Black Mirror – série também britânica – e, de certo, modo pode servir como sinal da proximidade para essas realidades distópicas, mas a sua base é concreta e ao que tudo indica vai mesmo acontecer. O duo que já fora trio, actualmente formado por 3D (Del Naja, um dos possíveis Banksy) e Daddy G, Grant Marshall, vai lançar Mezanine em DNA. Sim, leste bem, Mezanine será reeditado numa programação especial de ácido desoxiribonucleico.

Converter código digital em biológico

A ideia que parece altamente impossível ganha lógica quando percebemos a explicação e enquanto nos lembramos de como o mundo digital ganha forma: o código binário.

O exercício passa, portanto, por converter de código digital (binário) para código biológico. Este código biológico distingue-se por não ter apenas duas possibilidades, 0 ou 1, mas sim quatro, habitualmente conhecidas como Adenina, Citosina, Guanina e Timina. A ideia é estabelecer um código possível de converter “de um lado para o outro”, para tal, os investigadores encarregues do projecto criam uma codificação especial através de ADN, fazendo cada base corresponder a uma parelha de algoritmos como 00, 01, 10 e 11.

“Adenina representa 00, citosina representa 01, guanina representa 10 e a tinia representa 11. O resultado assemelha-se com ADN natural em todas as formas mas não contém informação genética útil”, explica Robert Grass, um dos responsáveis pela experiência, à revista Wired.

Depois de convertido o sinal de digital para biológico, o disco será gravado, por assim dizer, em pequenas partículas de vidro suficientemente grandes para suportar o ADN e bastante pequenas para caberem comprimidas num spray.

O grupo trabalhou em parceria com uma empresa suíça, a TurboBeads, um spin-off com vistos comerciais da universidade ETH Zurich, e terá pago mais de 650 mil dólares – o preço por codificar biologicamente 20 MB de dados.

Para ouvir é preciso um leitor de ADN e um computador potente

Tudo isto pode parecer uma loucura e mais uma ideia maluca de uma banda que só quer aparecer mas está muito longe de o ser. Para além de uma prova de conceito fortíssima que aproxima a cultura das ciências e destrói barreiras inter-disciplinares que a sociedade se vai encarregando de criar, o feito dos Massive Attack pode ser visto como a pensar no futuro. Para ouvir o registo, é preciso um leitor de ADN, claro, e um computador potente capaz de processar toda a conversão enquanto a reproduz, pelo que actualmente apenas o MinION da Nanoportech, com um custo de 75 mil dólares é capaz de o fazer, podendo ainda assim demorar uma semana.

Grass, professor no Functional Materials Laboratory do ETH Zurich, não desanima perante esta realidade. Pelo contrário, na mesma entrevista à Wired afiança que surgirão aparelhos capazes de o ler com mais eficiência e que o trabalho dos Massive Attack é o primeiro da enorme herança cultural que o homem deixará sobre a forma de ADN.

Del Naja, na mesma entrevista, incita a reflexão e a comparação entre os servidores actuais e o potencial desta compressão. 1 miligrama de ADN, segundo a Wired, é capaz de armazenar todo o texto de todos os livros da biblioteca do Congresso e é por isso que o músico é perentório. “E se pensarmos no ADN versus a quantidade ridícula de servidores que temos e que têm de ser arrefecidos 24/7 por todo o mundo, isto parece uma solução para o futuro. Isto permite arquivar música centenas de milhares de anos”, disse Del Naja.

Outro dos colaboradores do projecto, Andrew Melchior, vai ainda mais longe na sua crença em relação ao armazenamento em ADN. Melchior começa por revelar o seu desejo de que material cultural possa ser armazenado em forma de ADN no Svalbard Global Seed Vault (o armazenamento biológico de reserva para o caso de uma desgraça mundial) e explica o seu porquê: “A vantagem do ADN é que a nossa civilização pode desfazer-se em pó e reerguer-se com tecnologias completamente diferentes, o que significaria que não teriam acesso a computadores ou discos. (…) Como todos os humanos têm ADN, torna-se expectável que qualquer civilização do futuro possa aceder a informação contida no ADN. Isso significa que a primeira coisa que essa civilização do futuro conhece sobre nós seja o Mezzanine.”


Os ingleses Massive Attack celebram vinte e um anos desde o lançamento do álbum “Mezzanine”, com uma digressão mundial que passa por Lisboa dia 18 de fevereiro, no Campo Pequeno. Os bilhetes serão colocados à venda, dia 02 de novembro, às 10h00, nos pontos de venda oficiais.