A detenção do director da Interpol é uma história com 🔪, ameaças e cheiro a política

Este não é o primeiro desaparecimento do género de cidadãos chineses. Outro caso de grande notoriedade deu-se em 2015 com o desaparecimento do Presidente do Grupo Fosun, Guo Guangchang.

Meng Hongwei, o director da Interpol, na edição de 2012 do Web Summit (foto de Diarmuid Greene/Web Summit)

Se não fosse verídica, esta podia ser a história do mais recente filme de Christopher Nolan ou da próxima série viral da Netflix. Os títulos carregados de suspense foram caindo a conta gotas nos nossos RSS feeds, à medida que tentávamos acompanhar o insólito da história.

Tudo começou com o desaparecimento de Meng Hongwei na China, evoluindo depois para relatos de ameaças à mulher do então director da Interpol, numa sucessão de acontecimentos que terminou com a demissão e detenção do chinês de 64 anos, por suspeitas de ter “violado a lei estatal”.

Importa contextualizar. As primeiras notícias davam conta do seu desaparecimento, a 25 de Setembro, quando viajou para a China. Nesse mesmo dia, a sua mulher terá recebido do telemóvel do marido duas mensagens “inquietantes”. Na primeira mensagem, Meng pedia que “aguardasse a sua chamada”, na segunda, podia apenas ver-se, segundo reporta, o emoji de uma faca – 🔪.

Cerca de uma semana depois, Grace Meng recebeu uma chamada a meio da noite. Um homem, em chinês, disse-lhe que escutasse o que tinha para dizer sem falar, acabando por dizer que tinham sido enviados para sua casa agentes para a “ir buscar”. A única pista que o autor da chamada deu acerca da sua identidade foi que trabalhou para Meng Hongwei, sugerindo que trabalhava para o pessoal de segurança do Governo chinês.

Antes de ser eleito director da Interpol, Meng Hongwei era Ministro-Adjunto da Segurança Pública na China e membro do Partido Comunista Chinês.

Após vários dias de silêncio, a Comissão Nacional de Supervisão (o órgão anti-corrupção chinês) confirmou num breve comunicado a detenção de Meng.

Grace contou os pormenores das ameaças à Associated Press numa entrevista no passado dia 7, depois de horas antes, num hotel em Lyon, França, onde se encontra a sede da organização internacional de polícia, ter dado uma conferência de imprensa na qual disse acreditar que o seu marido estava “em perigo”. Na mesma declaração, pediu à comunidade internacional intervenção para que fosse desvendado o que aconteceu ao certo ao seu marido. Mesmo depois de o Governo chinês ter confirmado que o desaparecimento de Meng estaria relacionado com a sua detenção.

No comunicado oficial não são indicados os motivos da detenção de Meng, nem se teria infringido algumas das normas do Partido Comunista, a forma de a Comissão Nacional de Supervisão indicar os supostos casos de corrupção que submete a investigação. Horas antes, a Interpol disse que Meng havia renunciado ao cargo de director da agência internacional de polícia. Não ficou claro se essa renúncia foi feita ele de livre arbítrio ou sob algum tipo de pressão.

Grace Meng encontra-se agora sob protecção da polícia francesa e, ao falar publicamente sobre o desaparecimento do marido, adoptou uma atitude praticamente inédita na política chinesa, onde tais jogadas são encaradas como afrontas.

O caso está agora num impasse determinante em que Interpol, França e China se cruzam. A política internacional, bem como o país onde Meng residia, França, já pediram explicações e mais esclarecimentos ao Governo chinês. Grace Meng reitera que o marido não é culpado do pouco que se sabe da acusação – Zhao Kezhi, Ministro da Segurança chinês, apontou o recebimento indevido de subornos sem adiantar mais informações.

Este não é o primeiro desaparecimento do género de cidadãos chineses. Outro caso de grande notoriedade deu-se em 2015 com o desaparecimento do Presidente do Grupo Fosun, Guo Guangchan, que se revelou mais tarde ter sido alvo de uma detenção para interrogatório. Guo Guangchang é actualmente um dos investidores do Wolverhampton, clube em que o empresário português Jorge Mendes tem ampla e notória influência.