Movimento #MeToo começou há 1 ano. Mas o que mudou entretanto?

A 5 de Outubro saía, no New York Times, uma peça jornalística contra um dos mais influentes produtores de cinema das últimas décadas, Harvey Weinstein.

1 Ano de #MeToo (Ricardo Santos/Shifter)

Antes de o movimento se transformar numa hashtag de libertação das Mulheres em Outubro do ano passado, já existia uma organização por trás desde 2006, ou seja, 12 anos. Tarana Burke é a mulher por trás desta fundação que visa informar, alertar e combater comportamentos de abuso sexual e violação.

Burke nasceu em Bronx, Nova Iorque, no dia 12 de Setembro de 1973. Nos seus anos de juventude trabalhava como voluntária em conjunto com associações que tinham como objectivo ajudar jovens negras que nasceram em comunidades marginalizadas — mesmo ela não tinha tido uma vida fácil, crescendo numa família de operários que ganhavam o salário mínimo, ou nem isso.

A experiência que lhe mudou a vida para sempre, e que a levou a criar esta fundação, foi o facto de ter sido vítima de violação aos seis anos, constantemente abusada verbalmente e fisicamente por rapazes da vizinhança e igualmente violada em adulta.

Burke ingressou na Alabama State University e mais tarde transferiu-se para a Auburn University, onde terminou os seus estudos. No fim dos anos 90, mudou-se para Selma, Alabama, onde trabalhou em associações relacionadas com os Direitos dos Negros, como 21st Century Leadership Movement, Black Belt Arts and Cultural Center e a Nation Voting Rights Museum & Institute. Anos mais tarde, serviu como consultora no filme Selma, realizado por Ava Duvernay e com Oprah Winfrey como uma das produtoras executivas — duas mulheres que mais tarde apoiaram o movimento de Burke, tendo ainda um papel fulcral na formação do movimento-irmão, o Time’s Up.

Em 2006, fundou a sua própria ONG, chamada Just Be Inc., uma organização que se focava no bem-estar de “mulheres de cor”, mais virada, naturalmente, para mulheres negras. Foi ao trabalhar nesta organização que Burke começou a falar abertamente da sua experiência, partilhando-a com uma jovem que admitiu estar a ser abusada sexualmente pelo namorado da mãe, proferindo pela primeira vez as palavras Me Too.

A 5 de Outubro saía, no New York Times, uma peça jornalística contra um dos mais influentes produtores de cinema das últimas décadas, Harvey Weinstein. Rapidamente, o mogul americano foi despedido da sua própria produtora, The Weinstein Company, e retirado imediatamente do painel de júris da Academia (entidade por trás dos Oscars).

Inspirada pela coragem destas vítimas, a atriz Alyssa Milano lançou um tweet no dia 15 de Outubro, partilhando o seu segredo e desafiando toda a gente a fazer a mesma coisa, de forma a alertar para a magnitude de um problema que tem sido ignorado há décadas e desencadeando o grande movimento que se conheceu.

Milano desconhecia a origem da frase que nas próximas semanas viria a ser utilizada milhões de vezes. No início, Burke receava que não fosse reconhecida pelo seu trabalho relacionado com o slogan que rapidamente que se espalhou pelas redes. No entanto, o seu trabalho acabou por ser valorizado de uma das maneiras mais honorável — Burke foi honrada pela revista TIME, tendo sido nomeada como uma das pessoas do ano de 2017, em conjunto com um grupo que foi denominado The Silence Breakers.

Na mesma altura, Burke foi convidada pela actriz Michelle Williams para ser o seu par para os Globos de Ouro. No início, Burke estava um pouco reticente, pois não queria ser usada como um trunfo para estas novas mulheres “activistas” progredirem na sua carreira. Williams clarificou a sua intenção sossegando Burke. Juntamente com outras actrizes que se juntaram a causa, Laura Dern, Meryl Streep, Amy Phoehler, Emma Watson, Emma Stone e Shailene Woodley, decidiram levar oito mulheres ativistas, de todas as raças e classes, e cujo trabalho ajuda milhares em toda a américa, de forma a ocupar o tempo de Red Carpet com assuntos que realmente importam em vez das típicas perguntas de moda e trivias sem significado.

Mas o que mudou?

Ao contrário do que muitos podem pensar, Burke foi a primeira a ter reservas pela atenção mediática que foi gerada pela hashtag. O seu medo não era que afectasse pessoas inocentes, mas pelo contrário, que as vítimas fossem prejudicadas pela comunicação social e pelo consequente a escrutínio público. Durante anos, Burke tentou manter-se longe da ribalta, concretizando o trabalho árduo de criar programas de apoio a vítimas de abuso, programas que não incluíam partilhar o seu status de vítima online. No entanto, apercebeu-se que este movimento tem vindo a debelar o estigma em torno do tema do abuso, o que se evidencia como um ganho maior do que os possíveis riscos, abrindo-se a este processo de conversação mediática.

O importante para Burke, neste momento, para além de continuar a conversação é também estendê-la a outra questão: o que acontece depois. Depois de uma violação, a vítima perde todo o seu sentido de auto-estima e valorização pessoal. Outro passo importante, e um objectivo do movimento é que as vítimas interiorizem e aceitem a ideia de que por serem vítimas de abuso, não precisam necessariamente de partilhar o seu “estatuto” com o mundo. A seguir ao ato em si, vem o longo processo de tentar superar o trauma da melhor maneira e continuar a vida com alguma paz interior.

Um ano depois do movimento ter chegado à revolta, o Shifter analisou vários questionários e estudos de algumas entidades americanas, de forma a perceber o que a população Americana (de onde vem a maior atenção e representação mediática) sente em relação a este fenómeno. Eis as conclusões:

  • 40% dos homens e 59% das mulheres discordam que o abuso verbal e, em casos mais extremos, físico no local de trabalho não seja um problema presente. 30% dos homens encaram o problema com muita seriedade, enquanto 34% vê alguma seriedade, enquanto 38% das mulheres considera o problema muito sério e outras 39% não vêm tanta gravidade.  Fonte: Huffington Post/YouGov – 1000 adultos americanos, datado 15 de Agosto de 2018;
  • 36% das pessoas que votaram em Donald Trump em 2016 acreditam, em 2018, que acusações falsas de abuso sexual são um problema maior do que casos que ainda não vieram ao de cima; 50% dos votantes em Donald Trump acreditam que ao se queixarem de abuso, as mulheres causam mais problemas do que aqueles que resolvem; 65% dos votantes de Trump acreditam que homens que abusaram destas vítimas há 20 anos atrás não deviam perder os seus postos de trabalho agora; Fonte: The Economist/You Gov – datado Setembro de 2018.
  • Após o sucesso do movimento, quase metade dos chefes do sexo masculino sentem-se reticentes em relação a partilhar partes do trabalho, como ser mentor ou trabalhar juntos num projeto; Metade das mulheres afirmam que as suas empresas reforçaram as medidas de prevenção após o crescimento do movimento, combatendo casos entre os seus colaboradores. Fonte: LeanIn.org/Survey Monkey – 2,950 adultos trabalhadores americanos, datado 23 a 25 de Janeiro de 2018.
  • Após o sucesso do movimento, 37% das mulheres reconhecem experiências passadas como inapropriadas, em contraste de 7% dos homens. 16% das mulheres têm receio em falar sobre o movimento com homens. Fonte: Women’s Health/Men’s Health/Survey Monkey – 1636 homens e 1736 mulheres, datado 29 de Junho a 1 de Julho de 2018.

A preocupação do movimento poder vir a afectar pessoas inocentes é uma das mais prevalecentes entre os entrevistados e é, de facto, uma preocupação legítima que se reflecte nas preocupações iniciais de Tarana Burke. Como estabelecido num artigo anterior do Shifter em relação às alegações contra Ronaldo, “a bem presunção da inocência e do direito de protecção à vítima, é preciso que se criem condições para que o julgamento decorra de modo justo e equitativo sem que o caso seja sumariamente resolvido, para um lado ou para o outro, nas redes sociais”.

O movimento sofreu ainda um golpe altamente pejurativo quando uma das suas principais representantes: a atriz italiana Asia Argento, umas das vítimas que partilhou a sua experiência com Harvey Weinstein, foi também ela acusada de abuso sexual por um jovem ator chamado de Jimmy Bennet, quando este tinha apenas 17 anos, enquanto Argento tinha 37. Aparentemente e como em muitos casos em que se vem a revelar que de facto a acusação é verídica, Argento chegou a pagar a Bennet para este não fazer queixa. Este afirma que assim que for pago o resto do dinheiro pelos danos da experiência, que faz questão de doar o montante para o movimento Me Too.

Após as ditas acusações, as restantes activistas mantêm alguma distância e reserva em relação a Argento. Para o bem da sua causa, defendem que a justiça seja feita pelos órgãos competentes e que o comportamento de uma pessoa não devere tirar crédito à experiência de muitas outras mulheres e homens, algo que este caso também evidenciou, uma verdade que mesmo estas mulheres não abordam com a mesma frequência: os homens também podem ser vítimas de violação e abuso sexual, pois esse ato é relacionado com o comportamento humano e não com um sexo, raça ou religião em específico.

É difícil retirar uma conclusão absoluta à pergunta, pois depende muito daquilo que cada indivíduo retira daquilo que lê e que ouve, baseado naquilo que passou ou não na sua experiência pessoal. O fenómeno do movimento Me Too não deixa de se revelar um pouco confinado à elite de Hollywood, tendo-se expandido pouco para outra indústrias. No entanto, deu para perceber que mesmo os mais conservadores reconhecem o cabimento da causa e apoiam a mudança cultural que tem de ser feita. Mas será que estão sujeitos a rever os seus próprios comportamentos e a pôr a susceptibilidade do próximo à frente do seu ego? É difícil acreditar nesse desejo olhando à eleição de um Presidente com inúmeras acusações e ainda, falando de um acontecimento mais recente, à eleição um juiz com as mesmas acusações para fazer parte do Tribunal Supremo dos Estados Unidos.

No entanto, e como referido por Tarana Burke, o movimento carrega consigo um balanço positivo, onde poderão haver alguns sacrificados, mas onde a resolução final de trazer algum conforto às vítimas se sobrepõe claramente à alternativa de não fazer absolutamente nada em relação ao assunto.