Nobel: prémios da Física e da Química também são vitórias para as mulheres

Esta semana ficámos a conhecer os galardoados com os prémios Nobel da Medicina, Física e Química. Esta sexta será anunciado o Nobel da Paz e na segunda o da Economia.

Donna Strickland, Nobel da Física, e Frances H. Arnold, Nobel da Química (ilustrações via Prémio Nobel)

A canadiana Donna Strickland pode ser a 209ª pessoa a receber o prémio Nobel da Física, mas é apenas a terceira mulher com o galardão nesta área. Há 55 anos, o Nobel da Física foi entregue à alemã Maria Goeppert-Mayer pelo seu trabalho sobre o núcleo dos átomos e, em 1903, foi a polaca Marie Curie a recebê-lo pela sua pesquisa na área da radioactividade.

Donna Strickland não fica com o Nobel da Física de 2018 só para si – partilha-o com o norte-americano Arthur Ashkin e o francês Gérard Mourou –, mas o facto de haver uma mulher entre as galardoadas causou, como seria de esperar, um impacto diferente no anúncio, dado todo o debate existente em torno da igualdade de género no mundo laboral e também no científico.

3 físicos com o Nobel por avanços “revolucionários” no campo do laser

Arthur Ashkin, Donna Strickland e Gérard Mourou (ilustrações via Prémio Nobel)

A determinar a atribuição estão avanços revolucionários que os três fizeram no campo da física do laser. “Objectos extremamente pequenos e processos incrivelmente rápidos são hoje vistos com uma nova luz. Instrumentos de alta precisão abrem áreas de investigação ainda não exploradas e uma imensidão de aplicações industriais e médicas”, pode ler-se no comunicado da Real Academia Sueca de Ciência, responsável pela atribuição dos prémios Nobel da Física.

Arthur Ashkin, dos Bell Laboratories, em New Jersey, EUA, vai receber metade do prémio de 870 mil euros por ter desenvolvido uma técnica descrita como “pinças ópticas”, que permite “agarrar” átomos, vírus e bactérias usando feixes de laser. De acordo com a Academia, Arthur conseguiu concretizar um sonho antigo da ficção científica – usar a pressão de radiação da luz para mover objectos físicos –, num trabalho que começou em 1987.

Gérard Mourou, da École Polytechnique, perto de Paris, e Donna Strickland, da Universidade de Waterloo, em Ontario, Canadá, receberão ambos um quarto do prémio pelo trabalho que abriu caminho para os raios laser mais curtos e intensos alguma vez criados pelo Homem. A técnica que inventaram é apelidada de “chirped pulse amplification” (CPA), e consiste na compressão temporal de impulsos de laser para ficarem mais curtos e condensarem mais energia, seguida da sua amplificação. A abordagem de Mourou e Strickland, publicada pela primeira vez em 1985, tem inúmeras áreas de aplicação que ainda não foram completamente exploradas, mas já é usada, por exemplo, em milhões de cirurgias oculares correctivas por ano.

Mulher com metade do Nobel da Química

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É uma mulher que vai receber a maior fatia do prémio Nobel da Química de 2018. Frances H. Arnold, do California Institute of Technology, em Pasadena, EUA, ficará com metade dos 870 mil euros do prémio pelo ter conseguido a primeira evolução dirigida de enzimas. George P. Smith, da Universidade do Missouri, em Columbia, EUA, e Gregory P. Winter, do MRC Laboratory of Molecular Biology, em Cambridge, no Reino Unido, foram premiados com 25% cada por avanços relacionados com anticorpos e combate a doenças auto-imunes.

Em comunicado, a Real Academia Sueca de Ciência explica que os três cientistas distinguidos “inspiraram-se no poder da evolução e usaram os mesmos princípios – alterações genéticas e selecção – para desenvolver proteínas que resolvem problemas químicos da Humanidade”, seja na produção de biocombustíveis e de produtos farmacêuticos, ou no combate a doenças auto-imunes e, em alguns casos, na cura do chamado cancro metastático.

Frances H. Arnold realizou, em 1993, a primeira evolução dirigida de enzimas, isto é, de proteínas que catalisam reacções químicas. Desde então, tem refinado métodos que são hoje frequentemente usados para desenvolver novos catalisadores e produzir numa lógica mais ecológica substâncias químicas, como fármacos ou biocombustíveis.

Frances H. Arnold, George P. Smith e Gregory P. Winter (ilustrações via Prémio Nobel)

Por seu lado, George P. Smith desenvolveu, em 1985, um elegante método conhecido como “exibição de fagos”, em que um bacteriófago – isto é, um vírus que infecta bactérias – pode ser usado para desenvolver novas proteínas. E Gregory P. Winter usou esse método para a evolução dirigida de antibióticos, com o objectivo de produzir novos medicamentos. O primeiro fármaco criado com este método, chamado Adalimumab, foi aprovado em 2002 e é usado para resolver atrite reumatoide, psoríase e doença inflamatória do intestino. A técnica de “exibição de fagos” tem permitido, desde então, produzir anticorpos que neutralizam toxinas, combatem doenças auto-imunes e curam cancros metastáticos.

“Estamos nos primórdios da revolução da evolução dirigida, que, de formas diferentes, está a trazer e irá trazer o maior benefício para a Humanidade”, escreve a academia sueca.