Denis Mukwege e Nadia Murad: quem são os Nobel da Paz 2018

Murad e Mukwege foram agora distinguidos pela luta na mesma área mas em geografias bastante diferentes e em contextos também bastante diferentes.

Foram esta manhã anunciados os vencedores do Prémio Nobel da Paz, o galardão que, não sendo o mais importante do certame, centra mais atenções por se referir a um tema tão transversal e não a um domínio técnico. Ao contrário do que ia sendo avançado pela imprensa internacional, nomeadamente pela revista Time que todos os anos arrisca nomes como possibilidade, o Prémio Nobel da Paz de 2018 não vai para nenhum dos Grandes Líderes.

Denis Mukwege e Nadia Murad são dois semi-desconhecidos que a Academia reconhece pelos esforços na luta contra os abusos sexuais em cenários de conflito.

Arriscaram a sua segurança pessoal por corajosamente combaterem crimes de guerra e defenderem a justiça para as vítimas. referiu um dos membros do Comité no anúncio dos premiados.

Murad e Mukwege foram agora distinguidos pela luta na mesma área mas em geografias bastante diferentes e em contextos também bastante diferentes.

Denis Mukwege, 63 anos, é um médico congolês reconhecido pela sua acção directa e pela gestão de um hospital em Bukavu onde se especializou a cuidar de mulheres vítimas de abusos na guerra civil. Estima-se que ao longo de 12 anos, Denis tenha ajudado mais de 20 mil mulheres, chegando a fazer mais de 10 cirurgias por dia, um dado que ilustra a sua dedicação. Mukwege já tinha sido galardoado com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído pelo Parlamento Europeu, no ano de 2014. Mukwege é um nome extremamente consensual entre quem está mais informado; por exemplo Bill Gates já lhe dedicou um video considerando-o um dos seus heróis e a editora do The Guardian Katharine Viner apelida-o de “um dos melhores homens vivos” depois de o ter conhecido quando reportava o seu trabalho devolvendo a esperança a mulheres congolesas.

Mukwege tem como máxima “a justiça é um assunto de todos” e tornou-se pela sua perseverança e trabalho no terreno um dos símbolos da luta contra o abuso sexual em zonas de guerra.

Mukwege foi também uma das caras do projecto HUMAN dando uma entrevista onde podemos ficar a conhecer melhor o homem e o seu papel no terreno.

Nadia Murad tem uma história bem diferente. Foi uma das 3 mil mulheres Yazidi que viveram na pele o flagelo dos raptos e abusos perpetrados pelo Daesh no norte do Iraque. Tendo conseguido escapar da zona de conflito, Nadia, tornou-se porta-voz em nome dos abusos que sofreu e dos que viu outras mulheres sofrer e escolheu falar abertamente sobre isso tornando-se um importante símbolo do conflito – foi capturada em conjunto com as suas irmãs e perdeu às mãos do grupo terrorista 6 irmãos, por serem homens e a sua mãe morrer por ser demasiado velha para ser sexualmente abusada.

Aos 25 anos é depois de Malala, a segunda mulher mais nova de sempre a receber o importante galardão depois da paquistanesa o ter merecido com apenas 17. Tal como Denis, já havia sido distinguida com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, no ano 2016. Nadia Murad destacou-se por revelar ao mundo, na primeira pessoa, crimes de que a humanidade suspeita mas dificilmente imagina.

Em 2016 protagonizou um importante discurso na sessão de abertura da Assembleia das Nações Unidas, descrevendo objectivamente aquilo que terá sofrido às mãos do Daesh e depois de ter fugido do conflito como refugiada, em que apelidou o a situação actual de Terceira Guerra Mundial. Desde então que é uma voz activa na denúncia de outras situações potencialmente semelhantes.

A distinção deste ano vem, como noutros, carregada de simbolismo e marca os 10 anos desde que foi aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas a Resolução 1820 que passou a considerar a violência sexual como uma arma de guerra e uma ameaça séria à paz e segurança internacional.