Novo livro de Stephen Hawking vai do mais óbvio até aos super-humanos

Brief Answers To The Big Questions, livro agora publicado, sete meses após a sua morte e escrito nos momentos que a antecederam, é um compêndio de respostas breves às grandes questões fundamentais da Humanidade.

Stephen Hawking nasceu a 8 de Janeiro de 1942, em Inglaterra, 300 anos depois da morte de Galileu. Faleceu a 14 de Março deste ano, aos 76 anos, depois de 55 a conviver com as consequências progressivas da Esclerose Lateral Amiotrófica de que padecia. Pese embora as limitações físicas, enquanto homens das ciências não podia ter tido uma carreira mais profícua, que, nas condições actuais – com o desenvolvimento e a globalização da tecnologia e da comunicação – o tornou numa espécie de semi-Deus da ciência.

Chegou à ribalta do mundo científico por ter criado modelos de funcionamentos dos buracos negros e à atenção do mainstream com uma A Brief History of Time, o seu bestseller que vendeu mais de 10 milhões de cópias e respondia a questões como “onde começa o universo” ou “o que acontece quando tudo acaba”. Fruto desses feitos, ganhou um estatuto de incontornável e a credibilidade de um verdadeiro profeta dos novos tempos, fazendo o mundo parar a cada afirmação e valendo, por exemplo, um filme com o ambicioso título The Theory of Everything.

A verdade é que, para além do seu trabalho enquanto cientista – com toda a matemática, física e química que isso aporta –, as pessoas habituaram-se a ver em Stephen Hawking alguém com especial capacidade de prever o futuro. E embora isso não tenha validade absoluta – não, as profecias não resultam de nenhum tipo de método científico –, o seu alto estatuto faz com que o mundo as aceite com tal peso. Como se a previsão dos super-humanos fosse tão exacta como o modelo matemático de análise dos buracos negros. Não é verdade e importa não perder essa noção. A noção de que as previsões de Hawking fora do seu trabalho efectivo de investigação não são mais do que ficção científica; uma ficção científica refinada e extremamente informada, capaz de traçar cenários com uma exactidão impressionante, mas que não se tornam mais ou menos prováveis, por isso, mais ou menos realistas, muito menos previsões científicas.

“Sentir-me-ia condenado se morresse sem antes desvendar mais e mais do Universo. Se não tivesse mais o que contribuir, suicidar-me-ia.”

Como ao longo de toda a sua vida, Stephen Hawking procurava respostas para as questões fundamentais e sempre que o assunto tinha interesse público o físico não guardava as respostas só para si. Brief Answers To The Big Questions, livro agora publicado, sete meses após a sua morte e escrito nos momentos que a antecederam, é um exemplo dessa interacção e partilha, e um compêndio de respostas breves às grandes questões fundamentais da Humanidade. Recuperando o enquadramento, sublinhe-se que o livro não é uma obra de rigor científico e, mais importante ainda, não pretende sê-lo. À imagem de outros livros de escritores que cruzavam esta linha da ciência e da escrita, como Carl Sagan, é o resultado da vontade de partilhar quantidades astronómicos de conhecimento de uma forma atractiva e que de certo modo possa nortear a humanidade – daí por vezes o tom apocalíptico.

Enquanto a obra não é traduzida, valem alguns recortes da imprensa internacional para saber o que esperar e torna-se evidente a vontade de Hawking de aconselhar cautela e realismo a uma humanidade efervescente. Numa série de ensaios reunidos para o livro, Hawking repete algumas ideias que já lhe conhecíamos e avisa para um futuro que muitos podem ainda não estava ver.

Começando pelo óbvio

“Não há Deus. Ninguém dirige o universo”, por exemplo, não é a propriamente a tirada mais surpreendente mas não deixa de merecer destaque no contexto da obra do cientista. Hawking usa a sua condição para reiterar a sua “preferência” pela crença nas leis da natureza, dizendo que ao contrário do que se acreditava nos séculos passados não acredita que a sua deficiência fosse um castigo de Deus.

Se essa afirmação pode não parecer importante ou surpreendente, ganha força, como referíamos no seu contexto actual – Brexit, Trump, and so on, and so on. Neste mesmo livro, Hawking chama à atenção para o crescente descrédito nos especialistas, incluindo nos cientistas, pelo que assim se percebe que sinta necessidade de abordar uma questão tão básica, reforçando a sua posição e somando mais uns pontinhos para a ciência.

As questões mais terrenas

Para além das questões divinas, Hawking também aborda o céu noutra perspectiva, como Universo, e sobre ele diz-nos que é bem provável que haja vida lá fora num dos astros por descobrir.

Já sobre a vida na terra a sua opinião não é tão pacífica, embora se possa dizer que é igualmente entusiasmante. Hawking diz que não podemos descartar a hipótese de viajar no tempo – sounds good –, mas por outro lado deixa uma série de avisos.

Super-humanos. Esquecendo o branding e o wow-effect causado pelo conceito, este aviso não é muito diferente de outros feito noutros contextos e por outras pessoas. Contudo, Hawking vale-se da sua notoriedade para deixar o aviso à escala global. No futuro, as elites terráqueas poderão pagar alterações genéticas e outros processos tecnológicos complexos e praticamente inimagináveis – estilo transferir a consciência para um computador –, de modo a garantir uma vida mais duradoura e resistente às fatalidades banais.

Num ponto semelhante mas mais focado na inteligência artificial, Stephen Hawking deixa pelo menos uma daquelas frases fáceis e úteis de lembrar: “Se a curto prazo o problema da IA é quem a controla, no futuro será se é possível de controlar.” Para o cientista, esta será uma das áreas mais decisivas da história do futuro da Humanidade quer para o bem, quer para o mal.

Quanto aos cenários de destruição, Hawking diz que no próximo milénio será praticamente inevitável uma catástrofe que ponha em causa o planeta terra quer seja por “um confronto nuclear” ou uma “catástrofe ambiental”. O futuro da espécie, esse, não deverá estar em causa porque “a nossa raça engenhosa vai ter encontrado uma maneira de escapar das amarras da Terra e, portanto, vai sobreviver ao desastre” , de resto, para Hawking a necessidade de escape da Terra ou até do Sistema Solar pode inclusive gerar um momento de entusiasmo semelhante ao da aterragem na lua “elevando a humanidade, juntando pessoas e nações, desbravando descobertas e novas tecnologias”.

Se todos estes cenários parece longínquos e sobretudo hipotéticos, é porque o são. No presente, o melhor que podemos fazer e ainda seguindo Hawking, mas já não citando o seu próximo livro é:

“Lembra-te de olhar para cima, para as estrelas e não para baixo, para os pés. Tenta encontrar sentido no que fez e pensar no sentido da existência do universo. Sê curioso. Por mais que a vida possa parecer difícil há sempre algo em que podes suceder. É importante que nunca desistas.”