Quando uma obra criada com algoritmo gratuito é vendida por 430 mil dólares

Se o caso até parece motivo de celebração dos avanços da nova tecnologia por se tratar de um quadro criado com recurso a inteligência artificial, as reacções têm sido sobretudo de controvérsia. Afinal, quem é o autor da obra? E pode ser leiloada por este valor tendo sido usado software livre e gratuito?

Quando o assunto é o mercado da arte, o mais provável começam a ser que as notícias sublinhem as suas incongruências e ironias. Foi assim, por exemplo, no recente caso em que a obra de Banksy se auto-destruiu parcialmente após ser leiloada; e assim é neste caso.

Em causa, está a primeira venda da leiloeira Christie’s de uma obra “criada por inteligência artificial”, mas se o caso até parece motivo de celebração dos avanços da nova tecnologia, as reacções têm sido sobretudo de controvérsia. Por um lado, critica-se o uso abusivo da linguagem com termos ambíguos como criar e inteligência artificial, e, por outro, o aproveitamento do software perpetrado pelos seus criadores.

Vamos por partes. Edmond de Belamy, from La Famille de Belamy foi criado por um grupo de jovens estudantes franceses de 25 anos que se auto-denomina Obvious e que se apresenta com o objectivo de democratizar a inteligência artificial através da arte. A obra que a Christie’s previa vender por um máximo de 10 mil dólares gerou uma febre de licitações e chegou aos estonteantes 432 mil dólares, levando a polémica para todo outro nível.

Acontece que nenhum dos “artistas” é de facto o criador do software que permitiu a criação da peça. Para gerar este retrato, os Obvious terão usado o trabalho de dois investigadores publicado em repositórios abertos. A rede neural que deu origem à peça é uma conhecida criação de um investigador da Google, Ian Goodfellow, e o pacote utilizado neste caso é uma derivação trabalhada por o jovem de apenas 19 anos, Robbie Barrat, que já veio a público demonstrar a sua indignação.

Robbie Barrat terá aprimorado o algoritmo criado por Ian Goodfellow, treinando-o com pinturas provenientes de arquivos abertos, e viu o seu código ser posteriormente utilizado pelo grupo francês. Se até aqui tudo podia ser dentro das normas da comunidade, a contradição surge entre o termo democratizar e o lucro de 432 mil dólares obtido pelo grupo. É que os jovens franceses tinham alertado Robbie para a utilização do código, mas não tinham deixado claro até onde esse uso chegaria – nem no que toca ao valor, nem no que toca à notoriedade do caso.

A questão está a agitar a comunidade e a levantar importantes questões, quer do lado do mercado da arte, quer do lado dos criadores de código aberto. Por um lado, surge a questão sobre se a peça deve realmente ser tida como uma obra criativa – o algoritmo não “criou” no sentido que conhecemos, apenas replicou padrões que foi aprendendo com o treino a que foi sujeito –; por outro, levanta-se a polémica sobre quem deve realmente ser creditado como autor da peça. Na descrição presente no site da Christie’s pode-se ler a referência a Ian Goodfellow mas não a Robbie Barrat e, segundo se sabe, os franceses são os unicos beneficiários da soma monetária.

A identidade do comprador, que também poderá ter uma palavra a dizer nesta história, permanece desconhecida como é comum neste tipo de leilão. As licitações da peça foram mais que muitas – assim se explica o preço muito acima do previsto – e decorreram quer online, quer por telefone.