Optimus/NOS Discos: a editora de música portuguesa gratuita desapareceu da internet

O NOS Discos perdeu a notoriedade mas olhando à última década é impossível não o considerar na história da música portuguesa.

O projecto Optimus Discos – rebaptizado mais tarde como NOS Discos – foi lançado em Abril de 2009 pela mão do radialista da Antena 3 Henrique Amaro que não queria ficar com os discos só para ele e queria incentivar, sobretudo, os novos músicos, que surgiam no panorama português, a partilhar os seus trabalhos e projectos. “Ultrapassou as expectativas de todos”, comenta Henrique Amaro sobre o projecto que agora chegou ao fim.

O site do NOS Discos – nosdiscos.pt – foi desactivado e reencaminha agora para o da operadora de telecomunicações, nos.pt. Ao Shifter, a NOS diz estar a “reavaliar o projecto NOS Discos no âmbito da sua estratégia de aposta no território da música”. Também Henrique Amaro diz que a ‘bola’ está do lado da empresa, revelando ao Shifter que existem “várias ideias em cima da mesa” mas que infelizmente em Portugal os processos de decisão e aprovação são sempre “um pouco lentos”.

O Optimus/NOS Discos apresentava-se como uma editora online de música portuguesa gratuita. Editava sobretudo EPs de artistas emergentes ou parcerias inéditas entre projectos já consagrados. A editora funcionava através de um site, onde qualquer utilizador podia descobrir a música disponível e descarregar livremente os trabalhos. Mais que uma editora, o projecto consistia num canal de divulgação para os músicos, numa altura em que as redes sociais tinham muito pouca força e as plataformas de streaming ainda não existiam.

A página inicial do NOS Discos

“No início do ano, informaram-se [da NOS] que iam acabar com a plataforma”, disse Henrique,  concordante com a decisão uma vez que o NOS Discos “não tinha nexo existir como estava”. O radialista entende que os hábitos de consumo mudaram desde 2009 e que a ideia de propriedade mudou. Hoje ouve-se o streaming já é a principal forma de consumo de música e os artistas têm à disposição plataformas como o Spotify e Apple Music. Também o Bandcamp e o SoundCloud são relevantes no panorama actual, podendo os músicos através desses serviços (ou, mesmo, de forma independente) colocar os seus discos e EPs para download – gratuito ou pago. “É preciso reformular” o NOS Discos para “acompanhar a tecnologia”; no fundo, “cimentar uma ideia que possa exprimir o presente e o futuro próximo”.

Com o fim da plataforma nosdiscos.pt, todo o catálogo editado pela NOS Discos deixou de estar centralizado e organizado debaixo do mesmo tecto, mas continua a poder ser encontrado noutros locais – online e offline – pois “a marca nunca foi dona das obras”. Aos músicos e às bandas era pedida apenas exclusividade relativamente ao download gratuito, até porque para Henrique não fazia qualquer sentido “embargar a sua obra”. Para a Optimus/NOS, o objectivo passava por “estar ao lado de uma geração emergente” que estava a surgir e que se revelava promissora. Cerca de 120 edições depois, Henrique diz que olha agora para trás e não consegue não ficar “surpreendido com tudo o que aconteceu” – com a história da música portuguesa entre 2009 e 2018, da qual o Optimus/NOS Discos também parte; e com as bandas intensas e fugazes, mas também com aqueles projectos que passaram despercebidos e com o tempo ganharam destaque.

The Bombazines, Madame Godard e Tiguana Bibles foram alguns dos primeiros a serem editados pela Optimus/NOS Discos, que também lançou trabalhos de DJ Ride, Mazgani, Coldfinger, Voxels, Linda Martini, Balla, Os Pontos Negros, Blaya, Best Youth e Real Combo Lisbonense, entre outros. Ao longo da sua história, a editora teve o seu nome representado num palco no então Optimus Alive, lançou colectâneas em colaboração com a FNAC (hoje Henrique Amaro é responsável pelo projecto “Novos Talentos FNAC”) e associou-se a eventos como o NOS D’Bandada, também extinto.