Pagárrenda: um grupo de amigos que se farta de fazer cenas

Podes conhecê-los daquele vídeo sobre as rendas altas de Lisboa, mas os Pagárrenda são mais que isso. Afirmam-se como um colectivo cinematográfico mas o que fazem vai muito além do cinema.

Foto de Cristiano Luís/DR

No coração do Príncipe Real, existe um colectivo cinematográfico com uma vontade sobrenatural de fazer coisas acontecer. Desde concertos intimistas a DJ sets de eurodance, de curtas independentes a filmes de culto, a malta do Pagárrenda monta todo o tipo de espectáculos, seja no seu humilde sotão ou no pátio urbano. Na última noite de sexta-feira deu-se início a uma nova sessão de espectáculos de magia que irá preencher a agenda de Outubro, onde tivemos a oportunidade de conversar com João Sanchez e Francisca Niny de Castro, duas pessoas cujas ideias a fervilhar se cheiram à distância.

O que é o Pagárrenda e como é que surgiu? A que se deve este nome?

Podemos dar-te a resposta “cordial” que é o que diz no site. Pagárrenda é um colectivo cinematográfico independente e jovem, que visa produzir, distribuir e programar quem tenha vontade de o fazer. Ou podemos dar-te a verdadeira resposta. Somos um grupo de amigos que gosta de fazer cenas. Qualquer coisa desde que seja uma ideia que nos apaixone. Quanto ao nome, o mesmo surgiu quando queríamos ir morar todos juntos para o Porto e não sabíamos como nos sustentar. Surge a ideia de abrir uma galeria na nossa própria casa e cobrar 1 euro de entrada apenas para pagar a renda. Pagar a renda, Pagar-a-renda, Pagárrenda. Afinal de contas, somos só quatro putos que nem idade têm para beber nos Estados Unidos.

Sendo que alguns de vocês estão envolvidos em cinema, de que modo é que o integram na vossa programação?

Nos nossos primeiros cinco eventos integrámos sempre vários filmes de jovens portugueses. Mais tarde, sentimos a necessidade de criar eventos mais focados. Com a criação do Cinema no Quintal e do Curtas à la Carte. No primeiro passamos longas que gostamos e que achamos que todos devem ver. No Curtas à la Carte reunimos as curtas-metragens mais relevantes que recebemos. Tivemos também nos eventos de Verão Bela Tarrde e no nosso maior evento Terramoto.

Então têm uma programação com base em rubricas, certo? Quais são as rubricas que compõem a agenda Pagárrenda?

Certo. Gostamos muito de criar novas rubricas, mas também gostamos de as matar. Para nós, é tão importante começar algo como saber quando acabar. Nunca nos interessámos em parar de criar novos eventos e acomodarmo-nos nos que tínhamos. Tudo começou com as Noites Pagárrenda que serviram para pôr o nome a circular. Eram uma autêntica mixórdia de artes. Tivemos desde magia a piano, de exposições de pintura a concertos de rock, de poesia a curtas-metragens. Tudo entrada livre. Tivemos alguns problemas com a polícia e tivemos de nos adaptar. Daí surge o Bela Tarrde, evento que continuamos a fazer. Gostamos de o caracterizar como um sunset maroto. Mais uma vez, juntamos várias expressões artísticas e artistas emergentes. Somos influenciados pelas pessoas que nos rodeiam e pelos seus trabalhos. Através dessa mesma ideia surge o Nocturnos. Um evento que visa programar jovens pianistas, algo que não existe em Lisboa. Por fim, existia uma vontade por parte do grupo que era voltar a trazer concertos ao Pagárrenda. Decidimos abrir o nosso sótão ao público. Fizemos umas mini-obras ao que nós gostamos de equiparar a maquilhar um macaco. Daí surge o Low Cura, concertos intimistas para 30 pessoas. E claro, temos os eventos de cinema já falado antes.

Da esquerda para a direita: Gabriel Margarido Pais, João Sanchez, Francisca Niny de Castro (em baixo) e Leonor Galão (foto de Cristiano Luís/DR)

Também se conta pelas redes que vocês foram os responsáveis pelo “Terramoto”, evento que se sucedeu no Anjos70 há pouco mais de um ano. Qual é o seu conceito? Existe possibilidade de voltar a acontecer?

Um terramoto nunca se sabe quando e onde vai acontecer. Esta foi sempre a ideia ou uma óptima desculpa para não nos comprometermos. Foi algo que queríamos muito fazer e assim foi. A ideia era fazer uma espécie de Noite Pagárrenda em esteróides. Várias bandas, vários filmes, várias exposições, tatuagens… havia de tudo. Ficámos de coração cheio, esperemos que as condições climatéricas se alinhem novamente.

O vosso site conta com um repertório cinematográfico bastante composto. Onde é que podemos ver as vossas produções?

Estamos agora a lançar o nosso canal de YouTube, que é uma vontade que vem desde cedo. Irá conter não só os nossos filmes assim como filmes que nos chegam e que tenham interesse em ser distribuídos e integrar o nosso catálogo. No nosso site temos todos os filmes que já produzimos, assim como os eventos.

E por falar no vosso canal de YouTube, vocês lançaram uma curta que está a ser muito bem recebida, para não lhe chamar de viral. Como é que contas o processo da sua propagação? E como é que tem sido a experiência do pós “A maneira certa de encontrar casa”?

Seria estúpido se não dissesse que estou surpreendido. O filme conta neste momento com 40 mil visualizações e nem há uma semana está no ar. É muito positivo, há muitos filmes portugueses que não são vistos nem por 1/4 desse número. E nós fazemos filmes para as pessoas, não para os festivais. Recebi centenas de pedidos de amizade, vi centenas de partilhas a acontecer e o filme incendiou as caixas de comentários aka campo de batalha. Sinto um dever cumprido, o objectivo do filme era questionar e provocar. Foi cumprido.

Agora com a rentrée, o que é que podemos esperar dos próximos eventos com selo Pagárrenda?

Estamos muito entusiasmados com este ano, especialmente porque começamos com algo que nunca ninguém viu. Magia independente e jovem. 4 espectáculos diferentes ao longo de 4 semanas. Temos dois projectos que ainda não queremos explicar mas que gostamos do nome o suficiente para vos divulgar. Pára Arranca e a Porta-Dos Loucos. Temos agora um tatuador residente que será anunciado muito em breve na nossa página. Irá existir eventos colaborativos certamente. Por último, temos o Caroço. Mais sobre isso em breve. Enquanto a Polícia não aparecer, não vamos parar.

Conseguem destacar um momento em que perceberam que o Pagárrenda podia tornar-se algo mais sério e relevante?

Para nós foi na Noite Pagárrenda 2. Era Fevereiro, estava um frio de rachar e tínhamos feito a primeira Noite Pagárrenda para 50 pessoas, um número que para nós era óptimo. Passado um mês temos cerca de 250 pessoas no nosso quintal, na rua, em todo o lado. Tínhamos 18 anos, éramos 4 e isto a acontecer no meio do Príncipe Real. Caminhamos agora para o nosso 2º aniversário.

 

Todas as sextas-feiras deste mês, o conjunto Pagárrenda vai hospedar os únicos eventos de magia, em Lisboa, neste trimestre, “por 5 paus a entrada” no seu sotão.