Fim do Google+ depois de falha de segurança que Google não revelou

O Google+ nunca ganhou a tracção que a Google esperava que ganhasse, tecnológica admitiu que quase ninguém usava a rede social.

Fim do Google +
Ilustração de Shifter/DR

Em Junho de 2011, observando o sucesso do efervescente Facebook, a Google decidiu criar uma rede social de raiz. O Google+ surgiu depois de outras tentativas falhadas – do Orkut (popular no Brasil) ao Google Buzz (integrado no Gmail) –, mas representou o maior investimento alguma vez feito pela Google num mercado que Mark Zuckerberg já dava sinais de querer dominar. O Google+ começou por estar restrito por convite e não demorou muito a chegar aos 10 milhões de utilizadores, depois aos 25, aos 40 e, ao fim de um ano, aos 90 milhões.

RIP Google+ (2011-2018)

A Google queria destronar a empresa de Mark Zuckerberg ou ficar com um pedaço do seu mercado, aproveitando a base de utilizadores que já tinha em produtos populares como o Gmail, o Google Maps, o Android, o YouTube e o Google Search. De um lado a curiosidade dos internautas, do outro as múltiplas estratégias da Google para levar quem tivesse uma Conta Google a “actualizá-la” para ganhar uma espécie de conta “Plus”: um perfil que interligasse os diferentes serviços Google, uma nova forma de organizar contactos e de partilhar chamada Circles, a possibilidade de seguir determinados interesses (Sparks) e ainda o Hangouts, uma ferramenta de videochamadas que suportava até 10 pessoas em simultâneo – nem o Facebook, nem o Skype o faziam.

O Google+ trouxe algumas inovações que o Facebook não demorou a copiar. As listas de amigos no Facebook, por exemplo, foram uma resposta aos Circles, permitindo aos utilizadores da rede social azul ter feeds com amigos específicos e partilhar conteúdo apenas com eles. Já os Hangouts fizeram o Facebook juntar-se ao Skype para dar a possibilidade aos utilizadores de ligarem em vídeo uns aos outros – isto anos antes de o Messenger existir e trazer essa possibilidade para o mobile.

Apesar de inovador em parte, o Google+ nunca ganhou a tracção que a Google de certeza esperava que ganhasse e, entre admissões de erros e resolução de problemas vários, a empresa começou a reposicionar a plataforma ao longo dos últimos anos, tendo inclusive em 2015 lançado um redesign para transformar o Google+ numa rede social em torno de interesses e não de conexões pessoais. Uma série de funcionalidades foram Google+ e transformada produtos independentes, como o Hangouts, o Photos (que hoje é um sucesso de mais de 500 milhões de utilizadores) ou mesmo os perfis, que agora são páginas About Me.

Pode dizer-se que a Google tentou (e tentou) múltiplas vezes, mas não conseguiu. E que, no final de contas, os utilizadores da Google nunca quiseram uma rede social, muito menos uma forçada e que lhes alterasse dinâmicas já estabelecidas – como de repente terem de usar o nome real em vez de um nickname ou ser necessário um perfil no Google+ para comentar no YouTube. Mas para a Google, errar criando e desenvolvendo o Google+ não foi um erro, foi um caminho que permitiu ir desenvolvendo soluções e aumentando a sua notoriedade que talvez não tivesse terminado por aqui se não tivesse surgido um enorme obstáculo.

A falha de segurança que a Google manteve em segredo

Se no início deste ano, o Facebook teve de lidar com um dos maiores escândalos da sua história, o da Cambridge Analytica, em que dados pessoais de milhões de utilizadores da rede social foram recolhidos sem o consentimento destes, aproveitando brechas legais no próprio Facebook, e usados em campanha de segmentação a favor de Donald Trump nas últimas eleições norte-americanas. Agora sabe-se que o  caso poderia ter vitimado também a Google, porque na sua rede social existia uma falha semelhante, permitindo a terceiros aceder a informações dos perfis dos utilizadores desde 2015.

A Google diz ter descoberto o problema em Março mas optado por não informar os utilizadores. Isto apesar de, no total, cerca de 500 mil utilizadores do Google+ terem sido afectados. Independentemente de terem ou não autorizado terceiros a obter os seus dados pessoais, estes conseguiram – através do desenvolvimento de apps e das API do Google+ – recolher aos seus nomes completos, e-mails, datas de nascimento, géneros, fotos de perfil, sítios onde vivo, ocupações e estados civis, independentemente de terem o consentimentos das pessoas ou não.

A Google diz não ter encontrado “qualquer evidência de que algum programador tivesse conhecimento deste bug ou abusado da API” ou de que “qualquer dado pessoal tenha sido usado indevidamente”, mas decidiu, de qualquer das formas, não informar os utilizadores do Google+, dado o seu baixo uso. “A versão do Google+ para consumidores tem actualmente baixa utilização e interacções: 90% das sessões dos utilizadores no Google+ duram menos de cinco segundos”, escreve a empresa no seu blogue, detalhando o Project Strobe, uma iniciativa para melhorar a segurança e privacidade das Contas Google.

O que vai acontecer ao Google+?

A Google revelou que vai encerrar o Google+ dentro de 10 meses, ou seja, no final de Agosto de 2019. Será apenas a versão para consumidores, ou seja, a versão do Google+ que conheces. De acordo com a empresa, existem “desafios significativos em criar e manter um Google+ de sucesso que responda às expectativas dos consumidores” – inclusive com APIs e controlos de privacidade seguros – e que “dados esses desafios e o muito baixo uso da versão para consumidores do Google+”, a melhor solução é encerrá-la.

A empresa irá continuar a oferecer o Google+ apenas para os clientes empresariais através da G Suite, onde a plataforma pode representar uma alternativa ao Workplace do Facebook ou ao Slack ao nível de comunicação interna numa firma. Para os utilizadores actuais do Google+, será facultada informação adicional ao longo dos próximos meses, bem como formas de descarregarem e migrarem os seus dados.