Uma noite à luz do sol do novo disco de Vasco Vilhena

Foi no Ferroviário, em Lisboa, que Vasco Vilhena e o seu trio apresentaram Urso Solar. Com a suavidade da canção e a alegria e jovialidade do jazz; com espaço para a falha, a ‘merda’.

Foto de Teresa Lopes da Silva

Antes de começar este artigo é preciso fazer uma nota a bem da isenção: o Vasco é da casa, um dos redactores do Shifter, por isso vê-lo tocar e apresentar o seu disco não deixa de ser um misto de sensações.

As notas daquele orgulho natural de ver um conhecido em palco misturam-se com as que vão saindo da sua banda mas, se noutros casos isso poderia fazer destoar o texto, neste caso não. É que o mesmo orgulho de que vos fala estava estampado na cara de cada músico criando um ambiente solar – referência ao título do disco – numa das primeiras noites frias do ano, em Lisboa.

Urso Solar não é o primeiro disco do Vasco Vilhena, que lançara Treze em 2014, mas documenta um salto na maturidade do músico e cantor (seja feita a distinção) da cidade de Lisboa, mas que cresceu no Alentejo, antes de regressar à capital para estudar música no Conservatório de Música de Lisboa e na JB Jazz, e ainda som na Restart.

Acompanhado em palco de um trio de músicos à altura, composto por Armando Miranda na guitarra, Simão Lamas no baixo e Gonçalo Machado na percussão, Vasco e o seu Korg (aquele teclado vermelho absolutamente épico e versátil) reposicionaram o Ferroviário até ao polo sol. A sala estava de um público cúmplice que se ia rindo mesmo das piadas mais secas, abanando os ombros ao som das melodias mais impactantes e simulando back vocals nos momentos mais agudos ou mais groovy – “Pele” como primeiro exemplo, “Tempo” no segundo.

O quarteto subiu ao palco de máscara mas rapidamente as deixou cair numa metáfora involuntária para o que é Urso Solar, o registo que apresentavam. Por de trás de máscaras e personagens que protagonizaram os singles e foram povoando o imaginário em torno desta obra, ao vivo emerge uma genuinidade e um sentimento que revela camada a camada o que este disco tem de íntimo.

Foram cerca de 50 minutos de viagem por Urso Solar com algumas incursões de Treze, um concerto intimista e descontraído; com a suavidade da canção e a alegria e jovialidade do jazz; com espaço para a falha, a ‘merda’, mas sempre com uma enorme sintonia em torno da música e uma entrega notável dos músicos, que, conforme referíamos a abrir, deixavam transparecer no semblante a sensação de orgulho por poderem estar ali – depois de dois anos a tocar covers – a apresentar algo seu.

Na plateia contavam-se alguns conhecidos dos membros da banda, mas no final ninguém resistiu ao sentimento de partilha proposto pelo quarteto, que aos poucos se foi calando, deixando o público a cantar em uníssono enquanto em vénia agradeciam a sua presença.