A longa história de Cristiano Ronaldo e Kathryn Mayorga

Sendo difícil fazer prova absoluta dos factos, deve exigir-se que o assunto seja escrutinado, que lhe seja dado espaço mediático e que sejam pedidas justificações e colaboração processual de todas as partes, mais do que rejeição tácita das acusações ou um silêncio simplesmente descredibilizador.

Os headlines foram sonantes e polémicos, mas parece que rapidamente a história passou a nota de rodapé sob o desígnio de ‘teoria da conspiração’ ou ‘mais uma invenção’ sobre a qual era preciso apenas nada mais do que o que fossem dizendo telejornais e as capas das revistas cor-de-rosa no caminho para o trabalho – salvo raras e saudáveis excepções, mas sem o eco de outros temas. A afirmação é tão dura quanto polémica e a dimensão que o caso pode atingir assusta-nos a ponto de ser difícil acreditar que Cristiano Ronaldo possa ter violado há 9 anos uma mulher e é aqui que entra a tarefa do jornalismo.

Neste artigo, não entraremos em pormenores da história nem em juízos morais de qualquer tipo ou sobre qualquer facto, mas iluminaremos a extensão investigação levada a cabo pelo Der Spiegel para que mais do que saber o que acontece, percebas como tudo se soube. O caso tem nove anos, o que em Justiças como a portuguesa significaria que já teria prescrito mas isso, tal como juízos sobre pessoas, são meros pormenores numa história com vários capítulos.

A investigação

“The Woman Who Accuses Ronaldo of Rape” (ou, em português, “A Mulher Que Acusa Ronaldo de Violação”) é um extenso trabalho jornalístico conduzido por vários elementos da equipa do Der Spiegel. A revista alemã reconstrói – recorrendo a documentos, e-mails, o testemunho de Kathryn e da sua família e as reacções (ou falta delas) de Ronaldo e dos seus agentes – os nove anos desde a determinante noite, com especial enfoque nos mais próximos do acontecimento (enquanto as partes negociavam) aos mais próximos da revelação (quando tudo começou a tornar-se público).

Kathryn Mayorga (foto via Der Spiegel)

Apesar de só agora se saber a identidade de Kathryn Mayorga, a alegada vítima e promotora da acusação, bem como a sua versão dos factos, há pelo menos um ano que o fantasma desta história paira sobre a imprensa internacional, fruto do trabalho de investigação da Der Spiegel sobre os documentos tornados públicos no badalado caso Football Leaks, que os alemães têm ajudado a desvendar desde o primeiro dia. De resto, Rafael Buschmann, um dos jornalistas envolvidos na investigação, é autor do livro Football Leaks: Uncovering the Dirty Deals Behind the Beautiful Game.

Foi a 19 de Abril de 2017, cinco meses depois da primeira grande reportagem sobre o Football Leaks, que surgiu a primeira notícia sobre o caso de Cristiano Ronaldo. Na altura, ainda sem identidade de Mayorga associada, a revista alemã baptizava-a de Susan K. e reportava com base em documentos cedidos pelo whistleblower com quem havia contactado meses antes. Agora passado mais de um ano, a história retorna com outra abordagem e sob a forma de uma extensa peça resultado de meses de investigação de uma vasta equipa que não pode ser simplesmente desprezada.

A defesa da reportagem, se assim se pode chamar, foi feita por Christoph Winterbach, editor de desporto, numa extensa thread de 24 tweets em que recorda algumas das práticas daquele órgão de comunicação social, reputado desde há mais de 50 anos pelo seu trabalho de investigação, sobretudo em torno de práticas governamentais e escândalos de grande montra, como o recente caso dos Panama Papers e não só. A Der Spiegel foi, por exemplo, um dos órgãos responsáveis pela publicação de documentos e investigações sobre o WikiLeaks. Na thread no Twitter, Christoph Winterbach começa por explicar que o trabalho não foi feito em semanas, nem por meia dúzia de pessoas, reiterando a complexidade do tema e debruça-se sobre o processo de fact-checking que permitiu à revista publicar a história com segurança editorial. Christoph fala em dezenas de documentos provenientes de diversas fontes que corroboram o ponto central da história e das regras internas a que está sujeito este tipo de investigação, em comentário à reacção de Cristiano Ronaldo e dos seus representantes.

O que ele gosta de fazer antes da publicação é enviar e-mails aos editores, ameaçar que os vai processar se eles continuarem. Fez o mesmo connosco desta vez. Mas deixem-me explicar como funcionamos: nós temos fact-checkers que verificam cada uma das palavras de cada um dos artigos.

Não podes escrever nada sem estar fundamentado porque eles vão riscá-lo do artigo se forem incapazes de o provar. Eles só aprovam o artigo se conseguirem verificar as fontes. Nós valorizamos os factos. É uma parte integral do Der Spiegel.

Temos um departamento legal que nos acompanha em cada passo da investigação. Que garante que não fazemos nada sem pensar ao cobrir pessoas e as suas histórias. Para além disso, os nossos editores chefes são experientes em artigos que acusam pessoas com poder e dinheiro.

Por isso, publicar uma história destas não se faz numa semana, nem por uma pessoa. Houve pelo menos 20 pessoas envolvidas neste artigo, durante semanas. Nós sabemos o que estamos a fazer. Fazemos isto da vida.

A história

Apesar de ter ganho agora outra tracção com a revelação da identidade da mulher, a história que se avançava há um ano baseada nos documentos não era muito diferente: Mayorga terá conhecido Ronaldo na zona VIP de uma discoteca em Las Vegas, o português ter-lhe-à pedido o número e horas mais tarde convidado a aparecer no The Palms Place Hotel, onde estava hospedado, para uma festa. Ao chegar ao local, Mayorga e uma amiga que a acompanhara terão percebido que a festa já teria acabado mas terão sido desafiadas a ficar num ambiente privado como jogador e a sua entourage, num quarto com jacuzzi e uma vista deslumbrante.

Terá sido poucos minutos depois, quando Kathryn Mayorga vestia algumas roupas de banho cedidas por Ronaldo, que este entrara na divisão pedindo-lhe um beijo, a que Mayorga terá cedido mas não se ficando por aí; conforme se lia na primeira reportagem do Spiegel e se volta a ler nesta investigação ainda mais profunda, terá sido perante a resistência da rapariga, na altura com 25 anos, a proteger a sua vagina que Ronaldo terá forçado a penetração enquanto Mayorga gritava “no no no!”. A rapariga terá no dia seguinte ido até à polícia de Las Vegas bem como a um hospital para recolher o “rape kit”, que ainda hoje continua no arquivo uma vez que no estado de Nevada o crime de violação não prescreve e qualquer elemento de prova é guardado reservando a possibilidade de apresentar queixa em qualquer altura.

Maior parte das informações veiculadas nesta primeira peça provém de uma carta de seis páginas escrita pela alegada vítima e que constava do acordo posteriormente estabelecido entre as partes. Mayorga exigia como uma das condições do acordo que aquela carta fosse lida a CR7 no espaço de duas semanas.

A defesa

Reunidos os factos dessa primeira peça, o Der Spiegel terá contactado Ronaldo, que respondera através de um advogado em Munique. Johannes Kreile terá dito: “rejeitamos categoricamente as acusações levantadas nas suas questões” e “vamos agir contra qualquer acusação falsa bem como por qualquer invasão de privacidade”, aconselhando a publicação a “desistir da reportagem”.

Terá sido por esta altura que Mayorga começara a ponderar, e de certo modo a preparar, a sua denúncia pública. Conforme se pode ler na segunda peça, a mais recente sobre o caso, a norte-americana terá lido a notícia do Der Spiegel e, com medo de que pudessem recair sobre si as suspeitas de ser a fonte, terá contratado uma nova advogada, determinante em todo o desfecho. Terá sido a nova advogada da alegada vítima a apontar a nulidade do acordo, fruto da debilidade da rapariga no momento da sua assinatura e esse terá sido um dos primeiros capítulos do segundo volume desta história.

A juntar aos factos publicados e a precipitar a sua denúncia, estavam duas condicionantes: por um lado, por esta altura, vivia-se o movimento #MeToo e a público vinham dezenas de acusações de violação e assédio contra poderosos; por outro, havia a vontade pessoal de Mayorga saber se mais mulheres terão passado pelo mesmo, alimentada pelo que descreve como nove anos de sofrimento com tendências depressivas e frequentes pensamentos suicidas.

É na segunda peça do Der Spiegel que são acrescentadas dezenas de informações, que vão para além da tal carta em e que se revelam contornos ainda mais estranhos em toda história; parte desses alegados factos estão registados em documentos entregues aos jornalistas pelo whistleblower do Football Leaks e que incluem correspondência entre Ronaldo e os seus advogados.

É entre esta correspondência que surge um documento que Christoph Winterbach destaca como “extremamente perigoso para Ronaldo”: anexo ao acordo assinado pelas partes, estava um questionário que numa das várias versões contempla a assunção de Ronaldo do não consentimento de Kathryn.

É também nesta segunda leva de informação que se percebem os detalhes do acordo estabelecido entre Kathryn e Ronaldo, mediado parte a parte pelos advogados de ambos e que a nova advogada da norte-americana pretende agora declarar nulo – a queixa já seguiu para a polícia de Las Vegas, contendo um total de 27 páginas entre registos e alegações que pretendem a nulidade do non-disclosure agreement. Entre os pontos revelados pela reportagem, destacam-se algumas práticas que tornam esta história digna de um filme.

Depois da determinante noite e dos primeiros contactos da alegada vítima no sentido de expor a situação aos representantes do futebolista, Cristiano Ronaldo e os seus advogados terão contratado um detective para a perseguir e fazer relatórios sobre a sua vida. Na peça da Spiegel, lê-se que num documento – um registo desse detective, que terá sido “desmascarado” por Mayorga enquanto tomava café com um amigo – a que a revista teve acesso: “Aproximadamente às 20 horas, Kathryn Mayorga chegou ao MGM Grand Hotel/Las Vegas. Mayorga conduzia o seu carro pessoal e estacionou na garagem. Abandonou o veículo e foi a pé até ao hotel. Encontrou-se com um homem no elevador.”. A intenção da contratação do detective terá sido reunir elementos que permitissem negar as alegações de Kathryn sobre o seu sofrimento emocional e psicológico, como relatos seus a divertir-se ou de envolvimento com outros homens, e, nesse sentido, a investigação da revista alemã revela que um segundo detective terá sido contratado.

Outra das estratégias utilizadas pela defesa e reportadas agora terá sido uma queixa contra Mayorga, acusando-a de estar a usar este caso para fazer chantagem, algo que caiu por terra por falta de provas; aliás, a norte-americana não havia mencionado qualquer soma de dinheiro ao longo dos contactos feitos.

O acordo

O acordo que visava silenciar Kathryn Mayorga terá sido assinado no dia 12 de Janeiro de 2010, num encontro entre as partes em que Ronaldo era esperado mas não apareceu. No seu lugar, estava Osório de Castro, o advogado que acompanhou todo o processo. Foi nessa altura, e durante o encontro, que se discutiram pela primeira vez valores, algo que o advogado ia reportando ao atleta por SMS que o Der Spiegel transcreve.“O mediador agora diz que ela se desfez em lágrimas e que está abalada porque diz que não queres saber disto e que estás noutro sítio qualquer”; “até agora não se falou de dinheiro mas isso está para vir” – terá escrito Osório numa primeira mensagem, a que Ronaldo respondeu “ok”. Seguiram-se mensagens sobre o valor a pagar que começaram nos 950 mil dólares e, após sucessivas exigências de Ronaldo e do advogado para que fosse mais baixo, se situou nos 375 mil dólares – valor que CR7 ganhava numa semana.

Sobre esse acordo há pelo menos dois pontos importantes. Por um lado, sob a alegada vítima recaíam uma série de restrições ao ponto de a proibirem até de contar “demasiado” à sua terapeuta, advogados ou polícia. Por outro, para que não se tornasse pública a soma paga por Ronaldo, o jogador terá recorrido a uma das contas offshore que mantinha nas Ilhas Virgens Britânicas, entretanto reveladas.

Porquê tanto tempo?

Desde esse dia e até esta altura, Mayorga reporta severos danos psicológicos e testemunha até uma estranha obsessão por procurar notícias sobre Ronaldo na esperança de que um Deus ou o karma o castigasse.

Quanto aos meandros com que fizeram com que esta história demorasse tanto tempo a ser encarada globalmente com seriedade, o Der Spiegel deixa também algumas pistas. A primeira publicação sobre o caso foi apelidada pela Gestifute de “ficção jornalística” e aconteceu em dia de jogo, no qual Ronaldo assinou um poker (4 golos), fazendo esquecer o caso. Já na data da publicação da segunda história, Ronaldo terá partilhado nas suas redes sociais um vídeo do seu filho, desviando atenções sobre o caso.

A isto, juntam-se os preconceitos habituais e as abordagens simplistas dos fãs de Ronaldo, que questionam a história à luz de um “como se Ronaldo precisasse de violar alguém”, menosprezando a necessidade de consentimento sexual mesmo quando se trata de uma super-estrela mundial – um dos medos que terá levado Kathryn a não expor a situação anteriormente.

O desacordo

Se o acordo estabelecido entre as partes foi parte do que manteve o assunto em segredo até agora, a norte-americana pretende invalidá-lo e pode ter nos documentos revelados no Football Leaks mais um argumento para além da sua condição psicológica débil de que falámos acima. Osório de Castro terá confirmado por email ter lido a “Topher” – nome de código de Ronaldo utilizado no documento – a carta escrita pela jovem, mas após reencaminhar esse e-mail para um colega seu terá recebido uma resposta de apenas uma palavra no mínimo intrigante, “pinocchio”, que levanta a suspeita de que o acordado possa não ter sido cumprido – algo que foi novamente referido pela Gestifute, que diz que Ronaldo nunca recebera essa carta.

Depois de todos estes avanços e das sucessivas tentativas falhadas de contacto com CR7 para que ele desse a sua versão dos factos sobre a noite de 2009, é provável que o caso agora atinja uma dimensão que “obrigue” o português a um comentário. Mayorga terá abandonado o seu emprego e partido para parte incerta apenas conhecida pela polícia de Las Vegas, encarregue da reabertura do processo.

Ronaldo nega as acusações com a resposta mais previsivel, dizendo que a americana só está a usar o seu nome para ter fama — o que atendendo ao estatuto do atleta, um dos homens mais famosos do momento, é uma consideração plausível. Outro dos argumentos citados é que provavelmente o dinheiro da modelo chegara agora ao fim e que será esse o motivo do retorno da queixa. Pesembora estas alegações que não devem ser desconsideradas a bem da presunção da inocência inultrapassável em qualquer caso, é preciso que se criem condições para que o julgamento decorra de modo justo e equitativo sem que o caso seja sumariamente resolvido, para um lado ou para o outro nas redes sociais.

Neste caso, como noutros do género, é difícil fazer prova absoluta dos factos; para além do que exista em registos documentais sobre aquela noite, a dicotomia será sempre entre o que diz Kathryn e o que diz Ronaldo. É por isso que se deve exigir que o assunto seja escrutinado, que lhe seja dado espaço mediático e que sejam pedidas justificações e colaboração processual de todas as partes, mais do que rejeição tácita das acusações ou um silêncio simplesmente descredibilizador.