@VOSTpt: o grupo de voluntários a fazer aquilo que a Protecção Civil não faz online

Através do Twitter, um grupo de pessoas prestou informações que ninguém na Protecção Civil estava a prestar. Os seus tweets foram partilhados e partilhados. Chegaram às televisões e até a GNR os seguiu.

Começaram a tweetar durante aquele que ficou conhecido como o incêndio de Monchique. Um grupo de três pessoas juntou-se e criou a conta @CONAC-TW para, através daquela rede social, suprimir a falta de informação pública sobre a tragédia que alastrava por parte do Algarve. “Se as contas oficiais não funcionam, tem que ser a sociedade civil a fazer isso”, explica o grupo – que agora conta com mais membros – por e-mail. “Quando o que está a acontecer não é em Lisboa ou no Porto, a partir de uma certa hora os órgãos de comunicação social param de dar informação”, dizem, queixando-se também da lentidão da Autoridade Nacional de Protecção Civil. “Em Monchique demorou 11h até fazer uma conferência de imprensa.” @CONAC-TW era, aliás, uma provocação ao acrónimo CONAC (Comandante Nacional da Protecção Civil), e tinha como bio: “Aquilo que a conta da @ProteccaoCivil deveria ser, mas não é.”

No último fim-de-semana, o furacão Leslie atravessou Portugal e, de norte a sul, o país preparou-se para o pior. Em Lisboa, as pessoas foram aconselhadas a afastar-se das zonas ribeirinhas e permanecer em casa, as esplanadas fecharam às 18 horas, e houve duas estações de metro abertas durante toda a noite. Previa-se o pior na capital portuguesa, mas a tempestade acabou por trocar as voltas e entrar mais a norte.

A cidade da Figueira da Foz e o distrito Coimbra foram especialmente afectados. Com a aproximação do Leslie, os autores do @CONAC-TW decidiram mudar o branding do perfil para @VOSTpt, em linha com outras contas ‘VOS’ existentes noutros países europeus.

‘VOST’ significa ‘Virtual Operations Support Team’ . São contas de Twitter dinamizadas por grupos de “voluntários digitais” com vontade de prestar às populações todo o tipo de informação sobre calamidades. “Já tínhamos visto a maneira como estes grupos actuam em Espanha, França, e nos Estados Unidos, e pareceu ser uma ideia muito boa, com muito potencial, em especial no nosso país onde as contas oficias ainda não percebem que as pessoas têm necessidade que a informação lhes chegue”, explicam.

“Muito pouco descanso, ou mesmo dias sem dormir.” É dessa forma que descrevem o trabalho que fizeram como @CONAC-TW e continuam a fazer como @VOSTpt. Na tarde e na noite do Leslie, não pararam literalmente e contaram com a ajuda de mais um voluntário – hoje, na equipa, já são seis pessoas. Procuram informação em sites oficiais, grupos de Facebook, Twitter, fóruns especializados e órgãos de comunicação social. “Validamos essa informação, e colocamos no Twitter. Também prestamos informações por DM [Mensagem Directa no Twitter], a quem nos contacta, que por vezes nos dá novos vectores de informação para explorar”, descrevem. “Também existem pessoas a pedir-nos conselhos”, como adolescentes a perguntar se era seguro sair à noite ou não em pleno Leslie.

Em menos de 12 horas, dizem, o número de seguidores da @VOSPT subiu de 400 para mais de 4000. “Até uma conta oficial do governo nos seguiu.” A equipa já recebeu um contacto dos responsáveis do VOST Europa para integrar a comunidade mundial de voluntários digitais para situações de emergência. Entretanto, dizem estar “a tentar optimizar processos para recolha de informação”, mas quanto ao seu futuro esperam que “as contas oficiais passem a prestar o tipo de informação que nós disponibilizamos de modo voluntário” e que, assim o @VOSTpt deixe de ser preciso. “Até lá, vamos continuar por cá a tentar ajudar o máximo que pudermos, dentro das nossas possibilidades, porque não podemos ficar parados perante a inépcia em termos de comunicação do IPMA e da ANPC.”

O grupo tem esperança que em Portugal as entidades oficiais melhorem a sua comunicação às populações e comecem a apostar em ferramentas como o Twitter. Durante o Leslie, ficam com nota positiva da “conta da GNR no Twitter, que não só interagiu connosco no Twitter como fez ‘follow up’ de questões que levantámos, o que é inédito em Portugal, dando o respectivo feedback, o que nos faz ter esperança no futuro”.