Yuval Noah Harari sobre como a tecnologia e a tirania se relacionam

O que assumimos como verdade é a primeira página de resultados do Google, porque, convenhamos, só vamos à 5ª página quando estamos desesperados.

Yuval Noah Harari no World Economic Forum (foto de Sikarin Thanachaiary/World Economic Forum)

Yuval Noah Harari é um nome que se ouve cada vez mais e mais. Nos vários vídeos online e nos dois bestsellers passados não tem por hábito ser alarmista, mas escreveu recentemente um artigo para a publicação The Atlantic, em que relaciona a evolução tecnológica com o surgimento de ditaduras.

É antropólogo e historiador, com um gosto especial por economia. Costuma contar a “história do futuro” e como o desenvolvimento tecnológico influencia os humanos. Mais, como a própria humanidade é o resultado de um algoritmo biológico que domina as nossas emoções, ideias e comportamentos. Os livros são de fácil leitura, assustadores e hilariantes ao mesmo tempo. Sapiens e Homodeus contam a de onde vieram as ideias de Humanidade e para onde podem ir, contando com gurus da tecnologia e política como admiradores.

Um novo tipo de desempregado

A ideia principal passa por marcar as diferenças entre um século XX antropocêntrico, em que pessoas com o seu poder faziam revoluções, e o futuro em que os avanços tecnológicos ameaçam tirar aos humanos o trabalho — isto é, a sua forma de gerar valor no sistema capitalista.

Toda a automação, inteligência artificial, blockchain, começa a tirar trabalho de forma directa ou indirecta. Inteligência artificial substitui o trabalho intelectual. O trabalho manual já tinha sido substituído pelas máquinas. 

O autor explica que, para além de tarefas repetitivas, a inteligência artificial começa a abordar as tarefas criativas. dando como exemplo o AlphaZero da Google, que aprendeu a jogar e não perder no xadrez em quatro horas revelando uma criatividade em tempo quase supersónico — ninguém consegue aprender e ganhar jogos de xadrez assim tão rápido.

A partir daí desafia-nos a imaginar actividades até agora reservadas ao conhecimento e capacidade de abstracção dos humanos. Para além desta evolução, Yuval lembra-nos também da conectividade e capacidade de actualização, maior e melhor nos computadores que nas pessoas. É mais fácil todas as aplicações de medicina receberem instruções de tratamentos do que todos os médicos do mundo aprenderem processos novos. Enquanto no século XX, governos investiram milhares de milhões em programas de educação, o esforço de manutenção de mão de obra qualificada para todas as mudanças que ocorrem tornar-se-á incomportável. Indivíduos, exaustos da necessidade de adaptação constante a novidades, vão declarar derrota.

A ditadura digital

Neste ponto, exemplos são vários. Mais assustador que máquinas tomarem consciência e dominarem a humanidade do tipo Exterminador Implacável é manterem-se absolutamente fiéis e controláveis por humanos. Porque assim se tornam ferramentas de consolidação de poder. O exemplo dado é de como Israel controla com a Cisjordânia com poucas pessoas no controlo e muita vigilância aos dois milhões de controlados – a cada post menos positivo no Facebook, acção do aparelho militar é desenrolado (Harari é Israelita, sabe do que fala).

Imaginemos que um líder autoritário obriga os cidadãos a colocarem um chip – ou os leva registarem-se numa rede social e a fazer login no seu Apple Watch. A cada pulsação errada à passagem de uma fotografia oficial ou um suor frio quando se ouve o hino nacional, o pobre desgraçado pode ir parar a um campo de reeducação.

Já vimos nos recentes anos como o acesso a umas quantas informações puxadas de uma rede social permitem condicionar o espectáculo emocional à volta de eleições e referendos e isso é apenas o começo.

A ditadura das máquinas faz-se sobretudo através da sugestão. O que assumimos como verdade é a primeira página de resultados do Google, porque, convenhamos, só vamos à 5º página quando estamos desesperados.

Harari traça por fim os pontos de “resistência”:

  1. Conhecimento de nós mesmos e da nossa consciência;
  2. Regulamentar a propriedade dos dados;
  3. Encontrar meios de descentralizar a propriedade dos dados.

Veremos o que o futuro nos trás. E o que Harari terá para dizer sobre isso.