100 anos depois da Grande Guerra: esta é a grande paz?

O centenário deste marco histórico foi relembrado em Paris, numa cimeira que juntou os principais líderes mundiais, mas o encontro foi tudo menos pacífico e deixou bem visíveis as tensões que continuam a existir.

“À 11ª hora, do 11º dia do 11º mês.” Há 100 anos, no dia 11 de Novembro celebrava-se o fim da 1ª Guerra Mundial. Um acordo assinado entre Alemanha e as tropas Aliadas punha termo a um conflito que vitimara perto de quarenta milhões de pessoas ficando conhecida na história como a ‘Grande Guerra’. O centenário deste marco histórico foi relembrado em Paris, numa cimeira que juntou os principais líderes mundiais, mas o encontro foi tudo menos pacífico e deixou bem visíveis as tensões que continuam a existir.

Numa cerimónia mais simbólica do que política juntaram-se na capital francesa os principais líderes políticos e protagonistas do complexo xadrez estratégico. Donald Trump, Vladimir Putin e Racyip Erdogan foram alguns dos nomes que fizeram questão de estar em Paris apesar das comemorações se espalharem por todos os países envolvidos no conflito.

 

Falsa Partida entre Trump e Macron

O encontro não começou da melhor forma; Trump ainda não tinha aterrado em Paris e já tweetava – claro – sobre o seu descontamento face à possibilidade de um exército europeu. Uma possibilidade que considerou ofensiva mas que rapidamente desvalorizou depois do enquadramento feito pelo homólogo francês, que sublinhou o compromisso europeu com a NATO, revelando que não propunha a criação de um corpo de defesa substituto.

A formação de um exército europeu não é uma ideia nova do Presidente francês, Emmanuel Macron; já a havia apresentado há alguns meses, tendo inclusive na altura acolhido o apoio português. Nas suas palavras, seria uma forma da União Europeia se proteger de outras grandes potencias como a China, a Rússia ou.. os Estados Unidos da América (EUA), ponto que Trump terá considerado insultuoso.

O que os esperava

Como é habitual em grandes encontros das lideranças mundiais há sempre que tenha a coragem de protestar e, geralmente, de forma mais radical. Este evento não foi excepção. Não houve conflitos de maior a registar como em encontros sobre a temática ambientalista ou fóruns económicos – também foi um evento mais curto –, mas registaram-se várias manifestações – sobretudo de anti-guerra, pro-multiculturalismo e anti-Trump – e um protesto simbólico do grupo de activistas FEMEN.

No seu figurino habitual, quase nuas, as activistas do grupo feminista radical deram as boas vindas aos “senhores da guerra” a este certame de paz podia ler-se nos seus cartazes. Sem especificar nomes, ergueram cartazes onde se podia ler “Bem vindos Criminosos de Guerra” e “Guerra é paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força” e fizeram-se ouvir até acabarem por ser detidas pela polícia local.

Outro dos protestos a marcar a cerimónia foi o voo do já icónico bebé-Trump-insuflável. O gigante balão de ar quente feito para receber Donald Trump na sua visita a terras de sua majestade, levantou voo nos céus de Paris para assinalar a presença do Presidente dos Estados Unidos da América.

Politicamente falando

Apesar do seu teor simbólico, eventos que juntem tanta gente com cargos de decisão têm sempre o seu peso político – de resto qualquer acção tem a sua potencial conotação – e nem os atrasos de Trump, que chegou na sua limusine, ou de Vladimir Putin são uma excepção. As palavras ficaram sobretudo ao cargo do presidente francês que, em jeito de alerta, relembrou dos perigos dos nacionalismos, exacerbado apelando à UE e aos EUA como forças de contenção.

“O nacionalismo é a traição do patriotismo”, disse Emmanuel Macron, numa clara alusão à emergência dos fenómenos populistas que confudem os conceitos.

Para além das palavras, outros momentos menos sonantes marcaram igualmente o encontro. De um lado, a reunião entre os presidentes da Sérvia e do Kosovo, que há 20 anos que têm uma relação, ilustrou na perfeição a felicidade e esperança que Macron vira naquele encontro. Por outro, a ausência do presidente polaco por estar a desfilar numa marcha com um grupo de extrema-direita mostrava que o seu alerta tem razão de ser.

Emmanuel Macron, presidente francês, tem sido uma das figuras mais empenhadas em mostrar-se activo nas políticas de defesa e colou às celebrações o Fórum Mundial da Paz, no qual se reúnem 60 chefes de estado e pelo menos 30 organizações internacionais em representação de perto de 100 países. Nesse encontro onde estiveram Marcelo Rebelo de Sousa e Angela Merkel, Trump é um dos grandes ausentes.

O presidente dos EUA foi durante o fim de semana alvo de duras críticas por dar como desculpa a chuva para não visitar o cemitério francês onde se encontram centenas de soldados norte-americanos. Para os críticos, era inaceitável que o POTUS se esquivasse a homenagear soldados dando como desculpa as condições meteorológicas; Assim Trump acabou por realizar a visitar no domingo.