Os arquitectos (também) são profissionais de saúde

O que falta para que esta abordagem comece a ser utilizada? As vantagens estão identificadas.

A expressão não é nossa; ouvimo-la de Fareed Mahomed, da Open Society Foundation, quando falava na World Health Summit 2018 sobre “Social Stress, Inequality and Mental Health in Cities”.

Quando pensamos em saúde, pensamos normalmente em médicos e hospitais. Os cuidados de saúde são normalmente vistos como os guardiões da nossa saúde. Na realidade, talvez não seja exatamente assim.

Na era em que vivemos, a maior parte das doenças que matam e “moem” as populações estão, na verdade, relacionadas com os estilos de vida. A promoção e proteção da saúde dependem, assim, não apenas de hospitais e médicos, mas também muito da forma como as nossas sociedades se organizam e estruturam.

E se arquitetos e urbanistas passarem a ser vistos como profissionais de saúde? A evidência científica demonstra que estes profissionais podem, através da sua obra, ter um impacto populacional muito maior que a maioria dos tradicionais profissionais de saúde. Os espaços que habitamos têm um enorme impacto na nossa saúde. Casa arejada, temperaturas amenas e luz natural, são fatores essenciais para proteger e promover a nossa saúde; casas escuras, fraco isolamento e ar bafiento são potencialmente piores que muitos vírus ou bactérias (até porque dão origem a uma maior presença destes “bichos”).

Um exemplo concreto: um estudo que olhou para a mortalidade em excesso no inverno em vários países da Europa concluiu que Portugal, dos países estudados, tinha a maior taxa (28%, cálculo com base nos anos de 1988 a 1997). Quando se analisam as variáveis que o podem explicar, uma das mais determinantes é a qualidade da construção das casas, nomeadamente ao nível do isolamento térmico.

Um bom artigo, que sintetiza a evidência recente a favor de um olhar atento para a habitação como forma de promover e proteger a saúde das populações, lista fatores para possíveis intervenções como a ventilação, a qualidade do ar no interior dos edifícios, a existência de “obstáculos” (escadas, pequenos desníveis entre divisões, tapetes, etc), a luz natural recebida, o ruído, ou a temperatura interior. Um projeto da escola de Saúde Pública de Harvard, For Health – Healthy Buildings, produziu um documento com 9 aspetos a ter em conta para o desenho de um edifício “saudável”.

Estima-se que a falta de condições adequadas na habitação social do Reino Unido custe ao National Health Service (“SNS britânico”) 1,4 a 2,5 mil milhões de libras por ano. Para comparação, basta dizer que a inatividade física tem um custo estimado em 0,9 a 1 mil milhões, e o tabaco de 2,3 a 3,3 mil milhões. Para além do impacto na saúde das populações, a habitação tem também um impacto na saúde dos sistemas que dela cuidam.

Também a escala macro tem impactos consideráveis na saúde das populações. Há dois séculos atrás, apenas 3% da população habitava em cidades. Este número começou a aumentar durante o século XIX, quando as populações seguiram o caminho da industrialização e optaram por ir viver para centros urbanos (onde se concentravam os postos de trabalho e as melhores condições de habitação).  Agora, estima-se que em 2030 mais de dois terços da população mundial esteja a viver em cidades ou centros urbanos — mais de 5 mil milhões de habitantes.

Com o aumento das populações aumentam também as cidades, e com elas a necessidade de re-estruturação das redes de estradas, saneamento, electricidade e transportes públicos. No Brasil, a falta de habitação acessível no centro da cidade obriga muitos cariocas a residir em favelas onde falta saneamento básico. Nos Estados Unidos o mesmo problema “empurra” a população para áreas suburbanas, obrigando a longas viagens diárias que afetam negativamente a saúde de quem as faz.

Como evitar que o crescimento das cidades modernas se reflita negativamente na saúde das populações?

A UN Habitat – criada pelas Nações Unidas em 1978 para estudar os problemas relacionados com o crescimento urbano – dá-nos algumas ideias: planear a expansão urbana a longo prazo, optando por criar zonas populacionalmente “densas” dentro do espaço da cidade em detrimento da expansão dos seus limites, que afastam as populações do centro (“sprawling”); criar e melhorar as redes de transportes que permitam o acesso rápido, fácil e barato de pessoas e mercadorias aos diferentes pontos da cidade (transportes coletivos ou individuais, desde que tenham uma pequena pegada ecológica); investir na reabilitação de espaços verdes para a prática de exercício físico e convívio dentro das comunidades (não esquecer o papel determinante das interações sociais na saúde mental).

Do mesmo modo a Healthy Cities Network, órgão da Organização Mundial de Saúde para a promoção da saúde nas cidades, defende a importância de dar prioridade a decisões políticas que favoreçam o bem-estar dos cidadãos, promovendo a colaboração entre os municípios, líderes políticos e membros da comunidade como atores da promoção da saúde.

O que falta para que esta abordagem comece a ser utilizada? As vantagens estão identificadas: para a economia, para a saúde, para a sustentabilidade das finanças públicas. A comunicação da ideia está a começar a ganhar terreno, e existem muito materiais que a apoiem (basta pensar que em 2010 já a Organização Mundial de Saúde organizava eventos sobre este tema). Falta que os profissionais comecem a comunicar, criem as bases para um trabalho conjunto, e também em conjunto abordem os decisores e lhes expliquem as vantagens da mudança de paradigma.

A saúde está presente em muitos aspetos do quotidiano, e a arquitetura é um deles. Para além de um Sistema Nacional de Saúde focado na correção das doenças, é importante ter uma sociedade que promova e potencie a saúde, antecipando os danos causados por estilos de vida pouco saudáveis e condições sociais destrutivas. Tratemos os edifícios e as cidades, para que eles nos possam ajudar a tratar a nós.

Texto escrito por Maria Daniel Loureiro e Jorge Félix Cardoso