Fazemos ‘like’ no vídeo do Wuant

Venham daí mais assuntos “sérios”.

Era mais um dia no Shifter. De repente notámos que um ou dois artigos nossos sobre o Artigo 13, “já antigos”, estavam a receber um pico considerável de visitas. Não percebemos de imediato porquê. No Twitter, “vários miúdos” comentavam o fim do YouTube, das redes sociais, da internet. Abro uma dessas threads e vejo uma referência a um vídeo do Wuant. Vou ao YouTube e encontro rapidamente o dito cujo: “O meu canal vai ser apagado”.

O título do vídeo é alarmista como o próprio vídeo. E compreende-se porquê: Wuant ficou preocupado depois de receber uma comunicação do YouTube a propósito do Artigo 13. No vídeo, Wuant apresenta em traços gerais o que está em causa na reforma de direitos de autor que está a ser preparada na União Europeia e que deverá ser finalizada no próximo ano, mencionando também o polémico Artigo 11.

Com algum exagero e algumas imprecisões, é certo, o youtuber português – que tem mais de 3 milhões de subscritores só na plataforma de vídeos da Google – conseguiu trazer o assunto dos Artigos 13 e 11 de novo para a discussão pública e, mais importante, alertar um novo público para a problemática. E isso tem valor. O vídeo publicado na segunda-feira chegou rapidamente às tendências do YouTube em Portugal, tendo passado da quarta posição para a segunda entre terça e quarta. E já supera as 1,18 milhões de visualizações – colocando em perspectiva: em apenas dois/três dias, Wuant alcançou praticamente a mesma audiência que, em Portugal, um noticiário televisivo consegue no seu maior pico ou que um site de notícias acumula num mês inteiro.

As imprecisões que Wuant tem no seu vídeo poderiam ter sido evitadas, talvez, com alguma pesquisa mais profunda, mas há que ser justos num ponto: este é um tema bastante complexo — a dificuldade em perceber com clareza é uma das críticas — e pela imprensa é possível encontrar abordagens tão ambíguas como a de Wuant – por exemplo, o Jornal de Notícias aponta nesta peça que “à partida [o Artigo 13] seria algo bom para os Youtubers, mas estes discordam”. Neste contexto, há que distinguir uma diferença substancial entre Wuant e a imprensa: o primeiro faz entretenimento, o segundo faz informação. Há também que realçar o esforço da parte deste youtuber em abordar “um assunto muito sério” como o próprio descreve. No fundo, o seu vídeo é (ou deveria ser) entendido como uma expressão honesta e crua de quem está preocupado com uma reforma que, se avançar como está redigida actualmente, pode colocar em causa a plataforma onde publica e o seu trabalho.

Wuant aproveita-se de várias citações para tentar que o seu vídeo seja factualmente correcto e convida os seus espectadores a procurar mais informação. A sua mensagem é sobretudo de alarme mas resultou: no Twitter foi possível verificar vários adolescentes partilhar links de artigos que provavelmente googlaram, incluindo alguns do Shifter – pessoas que, se calhar (para não dizer “certamente”), desconheciam por completo a reforma de direitos de autor em curso desde 2016.

Sejamos francos: a cobertura mediática da questão tem ficado muito aquém por parte dos órgãos de comunicação social mais tradicionais. Porquê? Porque “os media tradicionais e as editoras de música”, como refere Wuant, são especiais interessados em que a reforma avance tal como está redigida. Wuant é, aliás, duro nesta crítica, falando mesmo num “boicote” que favoreça a criatividade online e não o “sacar o máximo dinheiro das pessoas”.

São esses mesmos media tradicionais que, em reacção ao vídeo do Wuant, se apressaram a apontar aquilo em que ele errou. Do Observador ao já referido Jornal de Negócios. Da SIC Notícias ao Diário de Notícias. São os mesmos órgãos de comunicação social que pouco ou nenhum destaque têm dado à contestação que vários defensores dos direitos digitais, milhares pelo mundo fora, têm activamente feito aos Artigos 13 e 11 da sugerida reforma, classificando-os, por vezes, com o termo depreciativo (e pouco claro no mainstream) de “piratas”.

Wuant beneficia de uma larga audiência e, por isso, capaz de impactar mais gente online. Mas o papel do jornalista e do jornalismo não deveria ser o de ecoar apenas a sua voz, mas de apresentar ao leitor, espectador ou ouvinte uma perspectiva global de toda a contestação. Porque este não é um assunto do Wuant; que sentido faz tanto “espalhafato” por o que um youtuber disse ou deixou de dizer? O que difere uma voz no YouTube de outra num blogue, no Twitter, num movimento organizado? Mais: se os Artigos 13 e 11 tivessem sido tratados pela comunicação social de forma clara e concreta, que não só um comprador de jornal compreendesse mas também um seguidor do Wuant, talvez este vídeo não gerasse o alarmismo que gerou.

A fechar, uma nota importante: o YouTube tem pressionado para que o Artigo 13 especialmente não avance como está a ser proposto; a empresa, uma subsidiária da Google, diz compreender a necessidade de uma reforma de direitos de autor, mas salienta que a que está em cima da mesa prejudicará os criadores que diariamente publicam na sua plataforma e os espectadores na União Europeia. A empresa tem vindo a publicar cartas abertas e a contactar directamente alguns youtubers por e-mail, que têm acedido ao pedido da empresa e feito vídeos a alertar as respectivas audiências para a problemática – dos Estados Unidos a Portugal.

Ao Wuant deixamos um repto: porque não mais uma série de assuntos “sérios”, por exemplo, sobre as eleições europeias do próximo ano, nas quais, como cidadãos europeus, teremos oportunidade de votar nos eurodeputados e forças políticas que queremos para o Parlamento Europeu e que poderão influenciar reformas como esta? Afinal, para nós, os “Wuants” não são “parasitas da internet”.