Bolsonaro Presidente: o papel da Igreja

O apoio do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus ou do pastor Silas Malafaia, da Vitória em Cristo foi crucial para Bolsonaro consolidasse a sua popularidade.

Ilustração de Shifter/DR

Foi desde o início da campanha para as Presidenciais, o “candidato da Igreja”. O seu discurso fácil, de soluções milagrosas e de criminalização da oposição acabou por se sobrepôr a declarações passadas, racistas, machistas e homofóbicas que inicialmente foram impedindo o seu crescimento nas sondagens. Depois de ter sido vítima de um alegado atentado, e ter sido salvo pela graça de Deus da morte e de um périplo de debates televisivos contra os seus adversários, Bolsonaro sensibilizou grande parte dos brasileiros.

A partir daí, foi sempre a somar pontos. Bolsonaro ampliou o discurso religioso, reforçou a imagem de defensor da família e dos bons costumes, fez acordos políticos com líderes evangélicos e conseguiu assim ir chegando às classes mais baixas, por meio de um discurso moral, baseado na Bíblia, e homologado por lideranças religiosas. Foi assim que se tornou tornou praticamente imbatível, conseguindo, inclusive, atingir um índice de votos que quase lhe garantiu a vitória ainda na primeira volta.

A igreja foi um dos “sim’s” em direcção ao Planalto, com o alto patrocínio dos líderes das maiores igrejas evangélicas brasileiras. O apoio do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus ou do pastor Silas Malafaia, da Vitória em Cristo foi crucial para Bolsonaro consolidasse a sua popularidade. É que de acordo com dados do Datafolha, três em cada dez (29%) brasileiros com 16 anos ou mais atualmente são evangélicos. E para se perceber a sua força política, basta relembrar que em 2017, a Frente Parlamentar Evangélica tinha 178 elementos, de um total de 510 deputados na Câmara.

Para pedir votos a favor do deputado, os bispos citaram o chamado “kit gay”. “Os professores estão instruindo os alunos: ‘olha, você tem direito de escolher ser menina se você é menino. Ou você, menina, pode escolher ser menino’. É isso que estamos vendo nas escolas”, disse Edir Macedo. Malafaia falou de corrupção, mas também repetiu o discurso conservador em defesa da família tradicional, formada por um homem, uma mulher e filhos. “Esse cara (Bolsonaro) tem gana de melhorar o Brasil, temos que dar um basta a essa gente que nos roubou durante 13 anos. Bolsonaro é a favor dos valores de família, é contra essa bandidagem de erotizar criança em escola, que toda a esquerda quer.”

A Igreja e Bolsonaro

Edir Macedo foi uma das figuras que neste sentido mais contribuiu para a vitória do agora Presidente. O apoio declarado do líder da IURD pode ter rendido a Bolsonaro mais de 7 milhões de votos, o número de pessoas que segue este culto no Brasil. Ainda que essa transferência não seja automática importa lembrar que Edir Macedo não é só o líder daquela que é uma das igrejas mais influentes do país. É também o dono de um vasto império de media que além de incluir a segunda maior televisão brasileira, a Record, inclui o portal online R7, que se, naturalmente, sempre estiveram associados à Igreja, agora aparecem ligados ao Presidente.

O The Intercept Brasil publicou em meados do mês passado o relato de um jornalista do R7 que confessa que a redacção foi pressionada várias vezes para publicar conteúdos positivos acerca do candidato do PSL e artigos neutros sobre os seus adversários. A situação piorou depois da primeira volta, quando foram proibidos de publicar qualquer assunto negativo acerca de Bolsonaro e receberam instruções para que artigos positivos sobre Fernando Haddad, do PT, não fossem chamadas de capa nem seguissem para as redes sociais. A juntar a tudo isto, houve encomendas de reportagens específicas que denegrissem a imagem de candidatos como Ciro Gomes, caso decidisse apoiar Haddad.

O Portal R7 é apenas um de muitos meios que acabaram por assumir editorialmente o apoio a Jair Bolsonaro. Ainda que o seu discurso de ruptura parecesse não ter espaço nos media tradicionais – e que, na verdade, toda a narrativa em torno da sua candidatura tenha sido forjada com um trabalho exaustivo nos meios online – televisões como a Record (que também pertence a Edir Macedo), a Rede Bandeirantes ou o Jovem Pan, acabaram por ser o altifalante de Bolsonaro na pré-eleição e continuarão a sê-lo durante o tempo que passará no Planalto, numa espécie de troca de favores pouco honesta. É que há vários relatos de jornalistas de outros meios que foram investigados e “expostos a uma campanha agressiva de investigações pessoais, tentativas de intimidações e escrutínios perniciosas de membros das nossas famílias”, pelos meios de comunicação propriedade do pastor evangélico bilionário “pelo crime de denunciar criticamente Jair Bolsonaro, seu movimento e as empresas de Macedo.”

Bolsonaro e a Igreja

E se o segundo título parece repetitivo quando lido depois do anterior, voltemos à ideia da troca de favores. É que se a Igreja apoiou Bolsonaro pensando nos benefícios que um Presidente que usa o discurso de Deus lhe podia trazer, também o então candidato pensou estrategicamente a sua campanha para tentar apelar à fé dos eleitores.

No seu primeiro acto público após as eleições, Bolsonaro participou numa celebração evangélica no Rio de Janeiro, na qual acabou por afirmar que “não era o candidato mais preparado” para ocupar a Presidência do país, mas acrescentou que “Deus prepara os escolhidos”. Ao lado de Silas Malafaia e diante centenas de pessoas, Bolsonaro pediu para os fiéis da Assembleia de Deus Vitória em Cristo para rezarem pelo seu sucesso à frente da Presidência, posto que vai assumir dia 1 de Janeiro.

E Bolsonaro declara-se católico. Mas esta aproximação à igreja evangélica, que tem cada vez mais adeptos no Brasil, não é de agora. Em 2013, viajou para Israel para ser baptizado no rio Jordão, local que tem grande simbolismo para os evangélicos brasileiros.

E não é que seja crime, ou seja inédito, que um político se faça valer das suas características mais sensíveis aos eleitores para ganhar a sua atenção mas não poderá, neste cenário, a noção de laicidade do processo democrático estar em causa?