Bolsonaro Presidente: quando os media batalham e quem sofre é a democracia

Mas afinal o que criou esta fé? Como se espalhou tão rápida e eficazmente esta doutrina que em falta de lógica, senso ou argumentos justifica uma eleição com palavras de fé?

Depois da eleição de Bolsonaro e lançado o repto à análise da sua vitória, importa estabelecer alguns pontos prévios que, podendo ser óbvios, acabam por ser esquecidos especialmente por defensores do candidato agora eleito.

Em questão não está a desconsideração do candidato ou a associação a rótulos simplistas mas também não está, nem pode estar, a bem da cultura democrática, a normalização de um discurso que viola todos os princípios básicos do respeito pelos outros, ameaçando e incentivando à violência contra minorias sociais, étnicas e adversários políticos, uma concepção errada da democracia em prol das maiorias que o leve a práticas duvidáveis como convites a ex-juizes envolvidos em casos políticos para assumir pastas ministeriais.

Assim, o que mais importa é perceber onde o discurso se fragiliza e simplifica a pontos de absurdo, tornando-se terreno fértil para plantar medo, desinformação e para, consequentemente, ser palco de uma manipulação tácita que revoga o espírito crítico dos eleitores para os conquistar pelas emoções mais básicas e instintivas.

O descrédito pelos princípios e instituições — a começar nos jornais e a acabar nas urnas electrónicas — foi a estratégia criada para erguer acima dos mortais o candidato Messias. Escudado pelo uso e abuso da retórica divina e aproveitando a grande base de apoio especialmente proveniente de igrejas evangélicas — que merecerá outro artigo — Jair Bolsonaro encarnou mais do que a figura de um simples candidato, a aura de um salvador a quem se permitiu o incumprimento de princípios e preceitos básicos. Mas afinal o que criou esta fé? Como se espalhou tão rápida e eficazmente esta doutrina que em falta de lógica, senso ou argumentos justifica uma eleição com palavras de fé?

Na Era Digital e numa altura em que a comunicação se faz cada vez mais em linha (online, entenda-se) é aqui que se devem centrar as nossas atenções no que toca à disseminação da mensagem. Com o evoluir dos tempos é preciso que os paradigmas de leitura dos fenómenos vão evoluindo e se vão “nutrindo” de novas ideias que permitam entender as evoluções que no mesmo comprimento de onda os candidatos políticos vão contratando às grandes consultoras ou aos craques da comunicação.

Ainda que a televisão mantenha um papel preponderante na estruturação da paisagem política, a concepção de comunicação e de informação em que todos nós vivemos é mais larga e lata e é nesses eixos que é preciso centrar a análise. Os dados são claros e transversais a quase todo o mundo: as pessoas consomem cada mais informação online e de um modo indistinto quanto à sua categorização — num scroll tanto surge um gatinho como uma notícia, tanto nos comovemos por uma desgraça quanto nos entusiasmamos com uma notícia, trazendo mesmo o campo que deveria ser racional, da política, para o stream simplista e contínuo das nossas vidas.

Steve Bannon, um dos nomes de suporte do movimento populista que vai conquistando governos refere-o claramente aludindo a Marshall McLuhan e associando-o a Trump e a Bolsonaro. Para Bannon a vitória da retórica dos candidatos está na sua capacidade de perceber que a política vive da narrativa mediática que conseguem gerar. Mais do que da realidade, vive da história que figuras como o “capitão” plantam no nosso imaginário.

E embora estes conceitos possam parecer dissociados são como retro-alimentados um pelo outro. Tal como McLuhan postulava, o meio é grande parte da mensagem; seguindo o raciocínio é fácil percebermos que só num meio em que toda a nossa vida se transformou em conteúdo digital, a política se transformou também ela numa narrativa contínua, uma espécie de pós-verdade permanente à imagem do que projectamos nas redes sociais.

A lógica é qualquer coisa como: não interessa se é verdade porque nem as pessoas quererão saber, como clarifica o tal Steve Bannon na mesma comunicação.

Bolsonaro usa declarações provocativas para conseguir ser ouvido em meio ao barulho, do mesmo jeito que Trump. Em junho de 2016, Trump estava em sétimo lugar nas pesquisas de opinião. Depois do discurso provocativo que fez, as pessoas o ouviram e ele disparou. O mesmo acontece com Bolsonaro. Ambos são especialistas em se conectar com as massas.

Mais do que obra do acaso, de especial carisma ou de uma conexão real — permitam-me usar o termo — com a classe social, a narrativa criada pelos candidatos é altamente trabalhada de forma mais ou menos sofisticada mas com objectivos claros e resultados evidentes. Veja-se por exemplo que Bolsonaro, deputado há 27 anos (sim, 27 anos!) é visto por muitos dos seus apoiantes como um homem do povo, independente do sistema político.

“Foi um pedido verbal, mas oficial. A gente começa aí um processo de separação, que espero que seja amigável. Tenho um sonho para 2018 de disputar o cargo de senador ou presidente da República. No partido onde estou, dificilmente serei candidato sequer para o Senado. O que sinto é que eles querem uma opção diferente para 2018”, afirmou Jair Bolsonaro ao G1, em 2015, no primeiro acto desta encenação.

É a reboque desta ideia anti-elites, que se alimenta de discursos populistas, que se estabelecem nas eleições novas realidades onde se torna praticamente impossível debater em profundidade. Afinal de contas e recuperando a ideia explicita por Bannon, mais importante do que ter lógica ou razão, para estes candidatos, é importante ter alcance. Isto é, mais do que quererem defender e promover ideias que impliquem algum raciocínio lógico, o segredo das candidaturas populistas é fingir que não pretendem defender nada nem ninguém, polarizando o debate político ao jeito de uma banda desenhada.

Posteriormente, nesse terreno fértil ao radicalismo, com as instituições — repetimos, dos media às urnas — desacreditadas e uma figura isolada catalizando e capitalizando todo o descontentamento com o passado, representado nesta narrativa por essas instituições, o trabalho de disseminação é praticamente automático. O espaço público sem a mediação que, mal ou bem, vai mantendo a ordem natural das coisas — incluindo do próprio discurso evitando escaladas de violência ou ameaças directas a grupos minoritários — torna-se numa espécie de campo de batalha de uma guerra civil de informação e desinformação.

Jornais são barrados na primeira coletiva de imprensa de Jair Bolsonaro eleito – Política – Estadão

De um lado o passado edificado, mais fácil de identificar e atacar, como os jornais históricos, os jornalistas com anos de carreira, professores, cientistas, que segundo seus códigos deontológicos respondem dentro do quadro legal; do outro soldados rasos, ágeis, e indiferentes a deontologia que atacam com verdades e mentiras sem querer saber de qualquer lógica; entre todos estes e geralmente do lado populista, somam-se os bots, contas automáticas, programáveis para entrar neste debate sem critério mas com influência numa jogada em que, como referíamos, o alcance importa para dar uma ideia de popularidade. Como não acreditar em algo de que toda a gente está a falar na internet?

A morte dos media e da profundidade do debate

Tal como os dados do centro de sondagens Aos Fatos indiciam, 33% dos inquiridos afirma receber informação directamente das redes sociais e outros 33% afirma fazê-lo através de pesquisas. Se estes dois dados até podiam ser um sinal de que as pessoas se estariam a informar mais ou melhor, uma experiência contemporânea atenta chega-nos para perceber que não é bem assim. Ao invés disso, o consumo de informação nas redes sociais está ao nível de ler as manchetes numa banca com a diferença que neste caso, o interior da revista nem sequer existe.

O consumo da informação em feed promove a mais fácil disseminação de mensagens curtas e que despontem reacções instintivas e como é do conhecimento público, clickbait e comentadores precoces são novos fenómenos no mundo digital que temos de contemplar. Exemplo: é mais fácil alguém guardar uma imagem e repartilhá-la sempre que quiser fazer um ponto — mesmo que a imagem tenha mentiras — do que expôr um raciocínio minimamente complexo. É um misto entre fenómenos pessoais e cognitivos — a nossa tendência natural para acreditar em tudo o que se apresenta como lógico — e fenómenos sociais que faz com que muitos utilizadores convencidos da sua razão ou da razão daqueles que vêm como seus pares, mesmo que sejam bots, se opõem contra toda e qualquer entidade pré-estabelecida.

5 em cada 7 tweets a favor de Bolsonaro foram feitos por contas automáticas – Observador

A similaridade na forma, quer entre pessoas reais e bots, quer entre pessoas e instituições, que se cultiva numa internet que poucos entendem faz com que opiniões e ideias se equiparem sem qualquer tipo de filtro.

Assim, um blog recém-criado pode ser visto por um leitor como tendo tanta credibilidade com um jornal estável, registado e responsável legalmente por aquilo que publica; Como um doutorado numa determinada matéria pode ser equiparado a um leigo ou como um leigo pode mascarar e dissimular todo um perfil que o faça passar por doutorado.

É nessa confusão de semelhantes, corroídos os critérios de autoridade tradicional que a informação se torna inflamatória. Tudo isto num país onde um partido governou durante 13 anos — ficando fortemente marcado com esta ideia de ser o próprio sistema — condenou o Brasil a umas eleições extremamente polarizadas onde, sem dúvida, quem mais perdeu foram os eleitores que em alguns casos que se vão ouvindo pela imprensa votaram apenas por sentimentos básicos sem saber que políticas estavam apoiando.

Num terreno mediático convulso, com os media tradicionais com a sua credibilidade posta em risco sob acusações de se sujeitarem a uma “pauta” ou agenda mediática, abre-se o espaço para que surjam plataformas alternativas de comunicação, umas sob os mesmos sistemas de credibilização que vigoravam outrora, outras com novas mecânicas.

Ilustrando esse ponto podemos por exemplo destacar o The Intercept BR — secação brasileira do media norte-americano liderado por Glenn Greenwald e financiado por Pierre Omidyar, fundador do eBay — que funda a sua credibilidade na acção internacional e no historial do seu editor que participou por exemplo nos Snowden Leaks, quando ainda estavam no The Guardian; ou, por outro lado, plataformas como O Antagonista ou a revista irmã, Crusoé fundada por jornalistas brasileiros dissidentes da imprensa tradicional mas que, ainda assim, usam o seu currículo como trunfo pró-credibilidade.

Diogo Mainardi + Mario Sabino, os antagonistas

— O ex-redator-chefe da Veja Mario Sabino e o ex-colunista da Veja Diogo Mainardi se juntam para fazer O Antagonista… Que tal?

— Em matéria de ex, só falta a Ivana Trump.

— Será que nossos leitores sabem quem é a Ivana Trump?

— Duvido.

— Dois fantasmas do jornalismo impresso tentam assombrar o jornalismo online… É melhor assim?

excerto do “Sobre” da revista Antagonista

Não é preciso muito para perceber que mesmo assumindo uma tendência política, O Antagonista vai muito para além disso frequentemente; por exemplo nos videos em que os editores falam livremente no youtube a sua tendência para o discurso básico contra a esquerda é evidente. Cristalizando a esquerda como seu inimigo, colhendo os frutos do discurso anti-petista os interlocutores embarcam frequentemente numa toada imprópria ao debate onde em vez de vigorar o rigor, os factos e a lógica democrática, estes princípios são muitas vezes subvertidos. Ou em determinadas “notas” — como chamam às pseudo-notícias — como esta Capitão Viral – O Antagonista ou Livro criticado por Bolsonaro será relançado – O Antagonista em que não ha uma verificação correcta dos factos nem o esclarecimento sobre o Kit Gay, sendo apenas réplicas de um sound bite de campanha do candidato Bolsonaro.

A este exemplo de superficialização do debate público podíamos juntar ainda outros, onde outras problemáticas se evidenciam. Por exemplo o YouTuber MamãeFalei, também ele um confesso apoiante de Bolsonaro, escolhe a postura provocadora para o seu conteúdo, fomentando a crescente polarização do debate sempre que o tópico são outros, algo que não acontece por exemplo quando entrevista Jair Bolsonaro.

Deste primeiro capítulo da análise sobra a ideia de que falta de espaço e equidistância para que o debate pudesse decorrer com normalidade, com os candidatos obrigados a mostrar ideias concretas mais do que dizer de que barricada saíram para tentar conquistar as eleições.