O mundo seria melhor sem redes? Co-fundador do Twitter Ev Williams respondeu no Web Summit

Ev Williams, cuja mais recente aventura é o Medium, esteve no encerramento do Web Summit, em Lisboa.

Ev Williams, fundador e CEO do Medium, antes de entrar no palco principal do Web Summit (foto de David Fitzgerald/Web Summit)

Ev Williams não é um nome tão sonante quanto Al Gore, que encerrou a edição de 2017 do Web Summit. Ev esteve por detrás da criação do Blogger, mais tarde adquirido pela Google, e do nascimento do Twitter. A sua mais recente aventura é o Medium, uma plataforma que fundou em 2012 para quem quisesse partilhar histórias e perspectivas esporadicamente.

Da conversa entre a jornalista da CNN Laurie Segall e o norte-americano de 46 anos, no palco principal do Web Summit, foi possível extrair vários pontos pertinentes, incluindo um ensaio da resposta à questão fundamental sobre se a sociedade é melhor com redes sociais. Ev respondeu indirectamente que sim, lembrando que “é preciso ver todas as coisas que tomamos como garantidas hoje que não teríamos sem redes sociais”, como “a ideia de que todos podem ter uma voz e publicá-la algures sem gatekeepers”. Redes como o Twitter, que ajudou a desenvolver, têm ajudado a espalhar “ideias importantes e movimentos”, como o #MeToo ou o #BlackLivesMatter, que recordou em palco; mas também através delas e “numa escala pequena pessoas arranjam empregos, mudam as suas vidas, fazem amigos…”.

Foto de Diarmuid Greene/Web Summit

Ev Williams diz-se optimista quanto ao futuro, até porque “ainda estamos no início dessas tecnologias [redes sociais, outras plataformas, internet em geral]”, ainda estamos a perceber como nos impactam e as nossas sociedades. “Mudaram o mundo num período tão curto, não podemos esperar que estejam bem feitas já”, entende, acrescentando que é incorrecto acreditar que “os problemas que temos possam ser resolvidos pela tecnologia da mesma forma que foram criados por esta”. “As reais implicações da tecnologia nas nossas vidas não têm a ver com o meio que consumimos mas com o que o quão saudáveis estamos, é aí que a inteligência artificial e outras coisas nos vão servir.”

O empreendedor ou empresário – não sabemos qual o melhor ‘apelido’ – reconhece que há muito por melhorar e que a admissão do erro pode ser um passo importante nesse sentido. Ev desabafou, por exemplo, um certo arrependimento em se mostrar o número de seguidores no Twitter; caracterizamos como ‘um certo arrependimento’ pois, se por um lado, a exibição desses números podia indiciar a existência no Twitter de um “jogo de popularidade”, por outro, “é hoje fácil dizer que não teríamos números de seguidores”, mas aspectos como esses trouxeram crescimento para a plataforma e “se nós não os tivéssemos, se calhar alguém teria criado uma plataforma com isso”.

Dar espaço à qualidade na internet

A contagem dos seguidores que determinada figura, organização ou conta tem no Twitter tem tudo a ver com a economia de atenção que marcou outra parte da conversa e que preocupa especialmente Ev, empenhado em fazer do Medium um espaço onde a qualidade se imponha à quantidade. “Conseguimos medir aquilo a que as pessoas estão a prestar atenção, seja pelas páginas que visitam ou pelos gostos nas redes sociais, mas não conseguimos medir como se sentem, se estão a ficar mais inteligentes, se estão a perceber o mundo melhor.”

Foto de Diarmuid Greene/Web Summit

O optimismo de Ev é visível também quando diz que estamos no início de uma transição, que na sua óptica já aconteceu na televisão. “A internet está um bocado na fase da ‘reality tv’”, refere, explicando: se há uns tempos, no grande ecrã, o chamado ‘reality tv’ parecia a “nova epidemia” por ser “uma forma barata de obter atenção”, “agora vivemos num mundo em que isso ainda existe mas há outro tipo de storytelling, narrativas ricas qualitativamente, porque o modelo de negócio mudou”. Ev acredita que vai existir um “lado premium” na internet melhor do que alguma vez existiu e que isso irá ser “um grande momento para storytelling, jornalismo, para novas formas de conteúdos que não são sustentáveis só com anúncios”. As pessoas estão dispostas a pagar porque obtém “uma experiência drasticamente melhor e melhor conteúdo”, avança Ev.

O Medium anunciou no início de 2017 um novo modelo de negócio e colocou-o em prática em Maio do mesmo ano. Todos os utilizadores têm acesso ilimitado aos artigos fora do chamado ‘Medium Partner Program’ e podem ler três artigos “premium”, assinados por autores que ingressaram nesse programa. A partir daí, se quiserem ler mais do conteúdo “premium”, terão de assinar o Medium por 5 dólares/mês ou 50 dólares/ano – como se fosse um Netflix ou Spotify, mas em vez de ver ou ouvir, lê-se. Ev Williams diz que “está a correr bem”, não revelando números, mas aqueles divulgados dão conta de que 9,2% dos autores activos em Setembro deste ano no ‘Medium Partner Program’ recebem mais de 100 dólares, o valor mais alto pago a um único autor foi superior a 10 mil dólares e que o mais alto por uma história foi de quase 2 mil dólares. “O core do produto [artigos publicados livremente pelos utilizadores] manteve-se o mesmo, o que acrescentámos foi uma paywall”, ressalva o responsável, explicando que a paywall do Medium funciona numa lógica de subsídio: “quem está disposto a pagar subsidia quem não está”. “Mês após mês, mais pessoas subscrevem, mais dinheiro gastamos com conteúdos.”

O presente e futuro do Medium

Com um total de 90 milhões de utilizadores únicos por mês e 20 mil artigos publicados diariamente, o Medium funciona, assim, em duas frentes: por um lado, qualquer pessoa pode registar-se na plataforma e publicar as suas histórias e perspectivas, beneficiando da força algorítimica de distribuição da plataforma; por outro, qualquer pessoa também pode registar-se no ‘Medium Partner Program’ e, se for aceite, o seu conteúdo passará por um filtro humano. São curadores que ‘separam o trigo do joio’, avaliando que conteúdos merecem destaque na plataforma. “Para pagar, as pessoas têm de sentir-se bem com o que estão a consumir. Se o modelo é anúncios não têm de se sentir bem, apenas de continuar a consumir”, refere, dizendo que, depois da tiragem humana por parte de curadores, cabe aos algoritmos fazer o filtro para cada utilizador, distribuindo os artigos consoante os interesses individuais. Sem anúncios na sua plataforma, o Medium enquanto empresa levantou desde 2012 um total de 132 milhões de dólares em investimento, ainda não é lucrativo e prevê captar ainda mais investimento, revelou Ev ao Business Insider.

Depois de estar no palco principal, Ev Williams respondeu durante vinte minutos a perguntas de jornalistas, começando por destacar a singularidade do Medium: “Antes era fácil criar um blogue, mas não havia um sítio onde quem não queria ser blogger porque se calhar só tinha uma boa história ou perspectiva para partilhar a cada seis meses pudesse fazê-lo ocasionalmente. E foi isso que criámos em 2012: uma folha de papel branca na internet.” Ev comparou o Medium ao YouTube: tanto um como o outro pode servir como depósito ou arquivo de artigos, como também pode ser levado a sério, seja criando um blogue estruturado ou um canal de vídeos activo. Independentemente da periodicidade de publicação, os utilizadores beneficiam da rede de distribuição e da audiência existente na plataforma.

Ev diz que, apesar da ‘profissionalização’ do Medium com autores e bloggers profissionais através do programa de parceiros, é a abertura da plataforma a todos os outros “cérebros do mundo” que torna a plataforma valiosa e surpreendente também. Apesar de existir uma comunidade tecnológica muito forte no Medium, questões sociais como o feminismo ou a igualdade são também tema recorrente, juntamente com abordagens ao futuro e artigos sobre saúde. “O único tópico que chega a muita gente e sobre o qual temos apenas uma pequena proporção em termos de audiência é provavelmente desporto.”