Vale tudo para nos manter no Facebook? New York Times revela estratégias da empresa

O Facebook tem novamente muito para explicar. Um resumo de tudo o que o New York Times revelou sobre a empresa com mais de 2,27 mil milhões de utilizadores.

Mark Zuckerberg Facebook
Foto de Anthony Quintano via Flickr

O ano que arrancou com o escândalo da Cambridge Analytica e que, entre episódios de notícias falsas, interferência política e violência, teve também uma gigante falha de segurança não parece ter sinais de melhorar para o Facebook. O New York Times publicou na semana passada uma extensa reportagem mostrando que para a empresa de Mark Zuckerberg tudo parece valer para safar o próprio ‘umbigo’: desde pressões nos bastidores da política norte-americana a ataques de desinformação para descredibilizar todos os que se metem no seu caminho (sim, o Facebook também andou alegadamente a produzir as suas próprias notícias falsas).

A peça do New York Times (NYT) é extensa e detalhada, revelando vários pontos interessantes que completam o quadro que a Wired começou a pintar no início deste ano. Um quadro negro, bastante negro, sobre os três anos mais recentes do Facebook, em que Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg, os número 1 e 2, respectivamente, passaram o tempo “distraídos por projectos pessoais” e delegaram decisões importantes aos seus subordinados – conforme escreve o jornal. Em resumo, o NYT:

  • revela que o Facebook espalhou desinformação sobre quem o criticava, tentando em parte associar essas vozes a George Soros;
  • detalha como a empresa de Mark Zuckerberg jogou à esquerda e à direita da política norte-americana para evitar a todo o custo qualquer tipo de regulação, e fez lobby junto de congressistas e reguladores norte-americanos para condicionar as suas perguntas e acções;
  • descreve a figura de Sheryl Sandberg, uma senhora com influência política, capaz de “mexer os cordelinhos certos” nos bastidores da empresa;
  • mostra que o Facebook desvalorizou a interferência russa na sua plataforma, tendo propositadamente facultado menos informação ao público e internamente do que aquela que sabia.

A investigação do New York Time teve como base “entrevistas com mais de 50 pessoas”, incluindo a “actuais e antigos executivos e outros funcionários do Facebook, legisladores e oficiais governamentais, lobbyistas e membros do Congresso”. “Muitos deles falaram na condição de anonimato porque assinaram acordos confidenciais, não estão autorizados a falar com jornalistas ou tinham medo de retaliação”, escreve o jornal. A peça foi publicada na quarta-feira, 14 de Novembro; na sexta, num encontro via videoconferência com equipas do Facebook das várias partes do mundo, Mark Zuckerberg terá dito que a empresa não hesitaria em despedir os funcionários que falaram com o NYT ou com outras publicações. Contudo, depois de um funcionário lhe ter perguntado se a empresa faria um relatório sobre quantos leakers no Facebook foram despedidos, Zuckerberg terá minimizado a ideia.

O Facebook e a sua própria máquina de desinformação

Em detalhe, o NYT refere que o Facebook contratou uma empresa chamada Definers Public Affairs, fundada por dois republicanos, “especializada em aplicar táticas de campanha política às relações públicas de empresas”, para espalhar desinformação sobre críticos do Facebook. Segundo o jornal, parte do trabalho da Definers envolveu a publicação de histórias negativas sobre a Google e a Apple, por exemplo, a propósito de declarações de Tim Cook sobre como o Facebook trata a privacidade dos utilizadores (na sequência deste episódio, Zuckerberg terá obrigado a sua equipa de gestão trocar de iPhones para smartphones Android, usando o argumento do maior número de utilizadores do sistema operativo da Google). Esses artigos apareceram num site chamado NTK Network, uma ferramenta da Definers para atacar os inimigos dos seus clientes; apesar de não ter uma vasta audiência própria, o conteúdo lá publicado acaba por ir parar a publicações maiores como o Breitbart.

O Facebook também terá recorrido à Definers para descredibilizar opositores como George Soros, um magnata dos negócios conhecido por investir em projectos e entidades que se alinhem com os seus ideais políticos – para muitos, Soros é considerado um dos grandes poderes escondidos, camuflado entre os investimentos que faz aqui e ali através da sua Open Society Foundations. Soros tornou-se também uma figura de ódio favorita de grupos anti-semitas, que descriminam judeus.

O Facebook terá tentado associar a família de Soros e os investimentos filantropos deste a correntes anti-Facebook, nomeadamente o Freedom From Facebook, pressionando jornalistas a procurar essas ligações. A Color of Change, descrita pelo NYT com “uma organização online pela justiça racial”, terá sido um dos alvos da Definers nessa tentativa de associar Soros ao Freedom From Facebook. Um porta-voz do magnata já pediu uma investigação àquilo a que apelidam de “táticas de difamação do Facebook”. E o presidente da Open Society Foundations, Patrick Gaspard, apontou que Soros é alvo de um “esforço concertado da direita por todo o mundo para o demonizar” e que “muito desse ódio, descaradamente falso e antissemita, é divulgado via Facebook ”.

George Soros (foto de World Economic Forum via Flickr)

Todavia, o Facebook não se terá ficado pela fabricação de histórias com o intuito de descredibilizar os seus críticos. Avança o NYT que a empresa atacou também os seus concorrentes de negócio mais directos, como a Google, tentando trazer o YouTube e de outras plataformas sociais para o meio controvérsia da partilha de dados. A publicação norte-americana escreve mesmo: “Enquanto Zuckerberg conduziu uma digressão para pedir desculpas publicamente no último ano, Sandberg supervisionou uma agressiva campanha de lobbying para combater os críticos do Facebook, puxar pela raiva pública em relação a empresas suas rivais e evitar qualquer regulamentação prejudicial.”

Depois de publicada a reportagem do NYT, o Facebook decidiu terminar a sua relação com a Definers, segundo o próprio Mark Zuckerberg, que disse não ter conhecimento de que aquela firma tinha sido contratada pelo Facebook. Nem Zuckerberg sabia, nem Sandberg. Ou seja, ninguém no Facebook parecia saber quem contratou a Definers Public Affairs. Mais tarde, no já referido encontro com os funcionários, Sandberg terá assumido “total responsabilidade” pela situação da Definers. Já numa nota interna, à qual o TechCrunch teve acesso, o chefe cessante de política pública, Elliot Schrage, acabou por confessar igualmente culpa pela polémica contratação. Antes, já Zuckerberg havia direccionado qualquer responsabilidade pela Definers para a sua equipa de comunicação, uma atitude criticada por elementos das relações públicas do Twitter.

Apesar de ter confirmado a sua relação com esta empresa de relações públicas, o Facebook negou ter-lhe pedido que espalhasse informações falsas. A empresa lembrou também que tanto Zuckerberg como Sandberg são judeus, dando a entender que, por isso, nada teriam contra Soros ou outras retóricas anti-semitas.

A “fera” Sheryl Sandberg

Sheryl Sandberg, número dois do Facebook, o braço direito de Zuckerberg, a directora de operações da empresa é a figura de destaque na peça do NYT. Sandberg – uma pseudo-feminista que conhecemos como uma líder de negócios competente, que antes do Facebook trabalhou na Google – é retratada como uma pequena “fera” com o papel importante em manter a boa reputação do Facebook, fazendo uso da sua experiência anterior no Partido Democrata para pressionar legisladores e reguladores.

Não é que Zuckerberg seja inocente no meio de todos estes escândalos, mas o NYT (como a Wired) perfila o CEO do Facebook como uma figura com um quê de inocência ou de “naif”, uma pessoa que nem sempre parece ter noção da realidade da sua empresa. “Zuckerberg – que passou muito de 2017 numa ‘digressão nacional a ouvir’, a alimentar vacas em Wisconsin ou a jantar com refugiados da Somália em Minnesota – não participou na conversa em torno do relatório público [sobre os hackers russos]”, lê-se a certo ponto no artigo do NYT, mencionando a ausência do líder executivo numa situação em que Sandberg esteve presente. “Então, Sandberg começou a assumir um papel mais pessoal na campanha da empresa em Washington, aproveitando todo o poder de sedução mediática que Zuckerberg às vezes não tinha” – esta é uma transcrição da peça do jornal que reforça as diferenças entre os dois mais importantes executivos.

Mark Zuckerberg na sua digressão pelos EUA (foto via Facebook)

O NYT descreve uma Sandberg a movimentar-se sorrateiramente entre democratas e republicanos, preocupada com o Facebook mas também com a protecção da sua imagem pessoal, deixando a dúvida se a executiva não poderá voltar à vida política. Com Sandberg mais ou menos presente, o Facebook passou o tempo a criar laços nos bastidores do Congresso e da Casa Branca, contratando peões estratégicos – pessoas que outrora passaram pelos corredores políticos ou que andaram perto de actuais legisladores e reguladores. Entre liberais e conservadores, o Facebook foi tentando encontrar neutralidade, um ponto em que não chocasse politicamente com ninguém. Para conseguir tal equilíbrio, terá também procurado gerir com cuidado o envolvimento de agentes russos na sua plataforma com o intuito de influenciar as eleições de 2016.

Vira à esquerda, vira à direita, “mexe os cordelinhos”

Foi neste contexto que Alex Stamos e Sheryl Sandberg chocaram. O NYT relata Sandberg numa sala de conferência “zangada” com o então chefe de segurança do Facebook, Stamos, por “ter procurado actividade russa sem autorização”, deixando a “empresa exposta legalmente”. “Atiraste-nos para debaixo de um autocarro”, terá gritado Sandberg. A directora de operações do Facebook terá também tentado condicionar a divulgação pública do que a empresa sabia em relação à actividade russa na sua plataforma. Segundo o jornal, Sandberg opôs-se no início de 2017 à sugestão de Stamos de que a empresa publicasse sobre o caso e, quando decidiu fazê-lo por fim já no Outono desse ano, a executiva terá tentado tornar o comunicado de imprensa mais leve. Sandberg também terá pressionado Stamos para que fosse pouco pormenorizado quanto aos resultados das investigações junto do comité de auditoria do conselho de administração. “Enquanto dizia publicamente não ter existido qualquer esforço russo com relevância no Facebook”, “dentro da empresa os funcionários encontravam mais anúncios, páginas e grupos associados à Rússia”, escreve o NYT.

Sheryl Sandberg (foto de World Economic Forum via Flickr)

“Sim, Sheryl Sandberg gritou comigo”, começou assim Stamos um artigo de opinião no Washington Post este sábado. “Eu não acreditava que tínhamos descoberto tudo o que os russos estavam a fazer”, disse. “Para ser claro, ninguém na empresa alguma vez me pediu para examinar a actividade russa, nem disse para mentir sobre as nossas descobertas, mas o Facebook deveria ter respondido a essas ameaças muito mais cedo e lidar com a divulgação de uma forma mais transparente.”

Alex Stamos (foto de Web Summit via Flickr)

O Facebook sabia que a existência de um consenso político era importante para evitar qualquer regulação do sector. Prova de que estava certo é que os primeiros sinais dessa regulação apareceram quando o consenso estalou com as revelações sobre as investidas russas e o caso da Cambridge Analytica. Ou seja, plataformas digitais como o Facebook passaram a ser obrigadas a mostrar quem compra e quem comprou anúncios políticos nos seus sites – isso foi já“uma expansão significativa da regulação federal sob empresas de tecnologia”, explica o NYT.

O trabalho de Sandberg não passou unicamente por influenciar legisladores e reguladores. Antes de a número 2 do Facebook testemunhar no Senado norte-americano ao lado de Jack Dorsey do Twitter, passou por um extenso processo de preparação, descrito também pelo NYT. Numa sala transparente tapada com papéis e com um segurança à porta – um cenário incoerente com a filosofia de escritório aberto do Facebook –, Sandberg e uma equipa procuraram prever cada tópico sobre o qual os senadores do Comité de Inteligência poderiam perguntar. Mas o Facebook já contava com todo um outro trabalho de bastidores: “os lobbyistas do Facebook já haviam trabalhado duro com o Comité de Inteligência, pedindo que os legisladores evitassem questionar Sandberg sobre questões de privacidade, Cambridge Analytica e censura”, escreve o New York Times.

A reacção do Facebook ao New York Times

Desde a reportagem do NYT, um total de oito Parlamentos já pediram que Mark Zuckerberg compareça perante os respectivos deputados, nomeadamente Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Irlanda, Letónia, Singapura e Reino Unido. Mas Zuckerberg decidiu prestar contas numa entrevista na CNN, conduzida por Laurie Segall, a mesma jornalista que abriu e encerrou a última edição do Web Summit, em Lisboa. “Muitas das críticas em torno das principais questões têm sido justas, mas acho que, se vamos ser justos, também existe essa imagem maior, que é que temos uma visão de mundo diferente daquela que dos [jornalistas] que nos estão a cobrir [têm]”, disse o CEO do Facebook, referindo algo que também já dissera anteriormente: que só soube do que se passava pela reportagem publicada pelo New York Times.

O Facebook lançou logo no dia a seguir à publicação da investigação do NYT um desmentido em relação a alguns pontos; o jornal norte-americano já veio defender a sua investigação: “A nossa história é correcta e nós apoiamo-la.” Sandberg também respondeu no dia seguinte: “Numa série de problemas – incluindo identificar e entender a interferência russa que vimos nas eleições de 2016 – o Mark e eu dissemos que muitas vezes fomos demasiado lentos. Mas sugerir que não estávamos interessados em saber a verdade, ou que queríamos esconder o que sabíamos ou que tentámos impedir investigações, é simplesmente falso”, escreveu.

A equipa executiva do Facebook (foto via Mark Zuckerberg)

Esta história partilhada agora pelo New York Times pode não ser motivo suficiente para apagarmos a conta, mas se lermos (ou relermos) o artigo da Wired no início do ano, recuperarmos o caso da Cambridge Analytica ou o da falha de segurança que comprometeu 50 milhões de contas, e ponderarmos a violência provocada pelo Facebook no Myanmar ou as mortes que a desinformação no WhatsApp causou na Índia ou no México, se calhar podemos pensar duas vezes. Poderá este escândalo recente ser a gota de água que faltava para apagarmos a nossa conta no Facebook, no Instagram e no WhatsApp de uma vez por todas? Não temos uma resposta; certo é que The Social Network, o filme de 2010 que retratou o nascimento do Facebook, precisa urgentemente de uma sequela. Nem que seja para o assunto ganhar novos contornos no mainstream.